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A variável mais importante: comece pelo ‘com quem’
Por Igor Monteiro, consultor de aprendizagem corporativa e especialista em design instrucional. Sou um entusiasta do amor – essa fascinante tecnologia humana. Quando me casei com Vanessa, aquele turbilhão de indescritíveis emoções me fizeram querer viver aquela sensação outras muitas vezes. Revisito aquelas emoções vez ou outra, através de convites para celebrar casamentos. Deliciosas oportunidades de conduzir esses eventos tão simbólicos e transformadores de tantas vidas a partir do encontro de duas pessoas. Dia desses, celebrava o casamento de um casal muito especial. Donos de sorrisos largos e energias únicas. Um dia que havia amanhecido com sol e calor, parecendo prenunciar uma tarde ensolarada para a celebração, em um espaço predominantemente aberto, com início agendado para às 16h30. Passados alguns minutos do início da cerimônia era possível, no entanto, ver algumas nuvens carregadas se aproximando enquanto eu e os noivos ocupavámos o espaço coberto do altar. Antes que a noiva pudesse começar seus votos, a chuva caiu. Forte, intensa como costumam ser as chuvas de final de verão. Os convidados, inicialmente dispostos no largo espaço aberto à frente do altar, instintivamente correram na nossa direção e se abrigaram naquele espaço em que estávamos inicialmente eu, os noivos, a banda e fotógrafos. Rapidamente nos conformamos com a nova configuração. Familiares, padrinhos, madrinhas, demais convidados, todos misturados em torno dos noivos, acompanhando ainda mais de perto aquela cerimônia. Mesmo quando a chuva se encerrou, ainda durante a celebração, todos permaneceram ali. Ao redor dos dois. Emanando a melhor das energias. Organicamente reunidos para viverem e vibrarem juntos aquele amor tão único. Tornando ainda mais inesquecível aquele evento. A chuva, aquela variável climática que, para alguns, poderia representar um problema para um evento como aquele se tornou uma espécie de nova solução. Trouxe para a celebração uma configuração única. Ainda mais coletiva, potente e acolhedora. Tudo por conta de uma outra variável com a qual nem sempre nos ocupamos tanto em eventos como esse: a variável humana. Quem estará lá? Existem incontáveis simpatias populares para afastar a chuva às vésperas de eventos a céu aberto. Colocar um ovo na janela, fazer oração e promessa para Santa Bárbara, jogar sal por cima do ombro esquerdo. Aqui no Rio, recorremos até ao Cacique Cobra Coral para manipular o clima às vésperas de grandes eventos, como o Carnaval e o Réveillon. Para além das simpatias climáticas, quem se aventura a organizar grandes eventos têm ainda uma lista longa de preocupações capazes de tirar o sono por noites seguidas: decoração, comida, bar, atrações musicais, doces… Preocupações legítimas. Condições evidentemente importantes para tornar esses eventos experiências memoráveis. – inclusive, todas impecáveis no casamento que protagoniza esse artigo de hoje. Mas, todas preocupações secundárias. A pergunta mais importante a ser respondida durante qualquer planejamento, de uma saída simples a um evento histórico, deve ser sempre a mesma: quem estará lá? Pode puxar da memória. As melhores recordações que você carrega da sua vida são realmente inesquecíveis por conta das pessoas que estavam com você. Como cada uma delas compartilhou com você os desafios e as conquistas. As lágrimas e os sorrisos. Como cada uma delas fez questão de estar perto – independente das condições. E como, ali de perto, cada uma sorriu com seu sorriso. São as pessoas que tornam as situações especiais. Como os convidados daquele casamento, que ressignificaram a chuva naquela tarde. Contra a forte tormenta que vinha dos céus, se abrigaram no reduto seguro do amor. E vibraram juntos a felicidade daquele casal. Ainda tem muito 2026 pela frente – e em sua agenda, certamente, estão descritos alguns planos interessantes a serem realizados, daqui até o final do ano. Planos para os quais você deverá considerar uma longa lista de variáveis – clima, espaço, como chegar, o que comer, identidade visual, horários, agenda… Comece pela mais importante. Empenhe tempo, cuidado e carinho para definir quem estará lá com você. Essa sempre será a escolha mais importante.

A melhor história vence
Por Igor Monteiro, consultor de aprendizagem corporativa e especialista em design instrucional Sou um aficionado por uma modalidade esportiva que, em tese, não premia os competidores. Digo em tese porque, em tempos de redes sociais e viralizações instantâneas, algumas “provas” dessa tradicional modalidade são premiadas com uma outra valiosa medalha: a da atenção – em alguns casos, global. A modalidade a que me refiro? A das entrevistas coletivas de atletas. A forma mais próxima que teremos de enxergar o mundo usando um pouco das lentes daqueles que escrevem seus nomes nas histórias em eventos globais. A estratégia mais eficiente que conheço para acessar uma das minhas paixões mais antigas: as boas histórias. Se você, assim como eu, também compartilha esse fascínio por narrativas e entrevistas coletivas de atletas, as Olimpíadas de Inverno, evento global que reúne as modalidades esportivas geladas, apresentou para o mundo uma personagem absolutamente encantadora – a esquiadora de estilo livre Eileen Gu. Confesso que não assisti a uma só prova disputada por Gu. Por isso, meu artigo de hoje para a Voz Futura não é uma abordagem sobre as conquistas alcançadas por Gu através do esqui. Mas sim através de sua voz. Afinal, no final das contas, a melhor história vence. Duas pratas ou dois ouros?! Aos 22 anos, Eileen Gu soma 6 medalhas olímpicas na carreira, conquistadas nas edições dos Jogos de Inverno de Pequim 2022 e agora em Milão-Cortina 2026. Na edição recém encerrada dos Jogos, após conquistar duas medalhas de Prata, Gu concedeu a primeira de suas entrevistas que tomaram as redes sociais. Em uma coletiva pós competição, um jornalista tendenciosamente perguntou como a atleta enxergava as duas medalhas: como duas pratas conquistadas ou como dois ouros perdidos? Sinal verde para Gu dar uma primeira demonstração de como funciona sua mentalidade. Em um misto de ironia e firmeza, Gu respondeu ser a esquiadora acrobática mais premiada da história, de forma que seria absurda a lógica de tratar medalhas conquistadas como fracassos. Foi a riqueza dessa resposta que me deixou atento àquela e às suas demais entrevistas. Pois, do auge de seus 22 anos, a esquiadora olímpica parece preparada para lidar com uma lógica perversa que nos cerca a cada vez que rolamos o feed das redes. Vivemos uma era em que somos invariavelmente impulsionados e até de certa forma pressionados a emitir opiniões sobre os mais variados assuntos. De decisões políticas a posicionamentos de marcas. De episódios geopolíticos a eventos culturais. De operações de segurança pública à performance esportiva. Seguindo a lógica da rage bait (isca de raiva) que comentei no meu artigo anterior, prevalecem opiniões e comentários invariavelmente críticos – quando não, cruéis. Comentários, em geral, escritos, compartilhados e/ ou publicados por “especialistas” confortavelmente sentados em seus sofás, com um celular na mão, no conforto de suas casas e escritórios. Longe, muito longe, da adrenalina pulsante da arena da “vida real” ou de qualquer conhecimento necessário para emitir opiniões realmente válidas. A pergunta lançada a Gu carregava esse viés crítico de quem assistiu confortavelmente a sua performance. De quem possivelmente nunca disputou um evento da magnitude de uma Olimpíada. Mas que, de alguma forma, se viu no direito de diminuir o feito de uma atleta que segue escrevendo seu nome na história. Recebeu como resposta a declaração de alguém que se moldou efetivamente na Arena. Que compreende o tamanho de seu feito por ter a dimensão do desafio – da preparação até a prova. E que parece ter complementado essa fala numa segunda entrevista, quando explicou melhor como molda sua mentalidade. Você pensa antes de falar?! Numa segunda entrevista viral, uma repórter perguntou a Gu se ela pensava antes de falar. Não como uma ofensa, como a própria entrevistadora declarou. Mas como um pedido para que a atleta nos levasse a entender como ela articula seus pensamentos em respostas. Pergunta brilhante. Aplaudida na sala da coletiva. Um novo sinal verde para Gu dar uma genial demonstração sobre como molda sua forma de pensar. Para um amante de entrevistas coletivas e comportamento humano, o melhor vídeo/ corte que as Olimpíadas de Inverno de 2026 proporcionou – material a ser explorado em algum dos meus treinamentos. Eileen começa sua resposta agradecendo e se reconhecendo uma jovem mulher introspectiva – que passa muito tempo em sua cabeça, com seus pensamentos. Por timidez? Insegurança? Alguma vergonha?Não! Por estratégia. Passar tempo com seus pensamentos é a oportunidade de controlar e modelar o que e como você pensa. Modelar seus pensamentos é ter o controle sobre quem você é! Usando a seu favor sua juventude e latente neuroplasticidade, essa capacidade cerebral de redefinir caminhos e conexões internas, Eileen compreendeu cedo que pode realmente se tornar quem ela quiser. E se transformar, todos os dias, em suas próprias palavras, no tipo de pessoa que a ela mesma “de 8 anos de idade idolatraria.” Eileen entendeu muito cedo uma lógica da mente das pessoas vencedoras – por isso se tornou uma delas: O jogo, seja ele qual for, do esqui estilo livre à sua performance no trabalho, começa aí dentro. Entre você e a forma como você pensa. Um jogo experimental. De ajuste fino e diário. De analisar a qualidade do que pensamos e refletir sobre a possibilidade de tomar outros caminhos. Reescrever circuitos neurais na forma de modelos mais favoráveis, alinhados aos sonhados resultados. Um jogo que se ocupa menos com o ruído do lado de fora. – que sempre terá um tom crítico, não importa quem você é, o que você faça ou como faça. Um jogo que se ocupa muito mais com as vozes que vêm de dentro. Com o que dizemos para nós mesmos. E como essas vozes nos impulsionam – ou não – na direção das ações alinhadas com os reais objetivos. Você pode até não compreender o esporte de Eileen Gu ou qualquer outra das tantas modalidades olímpicas disputadas nos Jogos de Inverno. Não conheço nenhuma delas. Mas compreender o empenho de Gu nesse jogo abordado em suas entrevistas é uma poderosa estratégia para






