Saúde Mental

A variável mais importante: comece pelo ‘com quem’
Por Igor Monteiro, consultor de aprendizagem corporativa e especialista em design instrucional. Sou um entusiasta do amor – essa fascinante tecnologia humana. Quando me casei com Vanessa, aquele turbilhão de indescritíveis emoções me fizeram querer viver aquela sensação outras muitas vezes. Revisito aquelas emoções vez ou outra, através de convites para celebrar casamentos. Deliciosas oportunidades de conduzir esses eventos tão simbólicos e transformadores de tantas vidas a partir do encontro de duas pessoas. Dia desses, celebrava o casamento de um casal muito especial. Donos de sorrisos largos e energias únicas. Um dia que havia amanhecido com sol e calor, parecendo prenunciar uma tarde ensolarada para a celebração, em um espaço predominantemente aberto, com início agendado para às 16h30. Passados alguns minutos do início da cerimônia era possível, no entanto, ver algumas nuvens carregadas se aproximando enquanto eu e os noivos ocupavámos o espaço coberto do altar. Antes que a noiva pudesse começar seus votos, a chuva caiu. Forte, intensa como costumam ser as chuvas de final de verão. Os convidados, inicialmente dispostos no largo espaço aberto à frente do altar, instintivamente correram na nossa direção e se abrigaram naquele espaço em que estávamos inicialmente eu, os noivos, a banda e fotógrafos. Rapidamente nos conformamos com a nova configuração. Familiares, padrinhos, madrinhas, demais convidados, todos misturados em torno dos noivos, acompanhando ainda mais de perto aquela cerimônia. Mesmo quando a chuva se encerrou, ainda durante a celebração, todos permaneceram ali. Ao redor dos dois. Emanando a melhor das energias. Organicamente reunidos para viverem e vibrarem juntos aquele amor tão único. Tornando ainda mais inesquecível aquele evento. A chuva, aquela variável climática que, para alguns, poderia representar um problema para um evento como aquele se tornou uma espécie de nova solução. Trouxe para a celebração uma configuração única. Ainda mais coletiva, potente e acolhedora. Tudo por conta de uma outra variável com a qual nem sempre nos ocupamos tanto em eventos como esse: a variável humana. Quem estará lá? Existem incontáveis simpatias populares para afastar a chuva às vésperas de eventos a céu aberto. Colocar um ovo na janela, fazer oração e promessa para Santa Bárbara, jogar sal por cima do ombro esquerdo. Aqui no Rio, recorremos até ao Cacique Cobra Coral para manipular o clima às vésperas de grandes eventos, como o Carnaval e o Réveillon. Para além das simpatias climáticas, quem se aventura a organizar grandes eventos têm ainda uma lista longa de preocupações capazes de tirar o sono por noites seguidas: decoração, comida, bar, atrações musicais, doces… Preocupações legítimas. Condições evidentemente importantes para tornar esses eventos experiências memoráveis. – inclusive, todas impecáveis no casamento que protagoniza esse artigo de hoje. Mas, todas preocupações secundárias. A pergunta mais importante a ser respondida durante qualquer planejamento, de uma saída simples a um evento histórico, deve ser sempre a mesma: quem estará lá? Pode puxar da memória. As melhores recordações que você carrega da sua vida são realmente inesquecíveis por conta das pessoas que estavam com você. Como cada uma delas compartilhou com você os desafios e as conquistas. As lágrimas e os sorrisos. Como cada uma delas fez questão de estar perto – independente das condições. E como, ali de perto, cada uma sorriu com seu sorriso. São as pessoas que tornam as situações especiais. Como os convidados daquele casamento, que ressignificaram a chuva naquela tarde. Contra a forte tormenta que vinha dos céus, se abrigaram no reduto seguro do amor. E vibraram juntos a felicidade daquele casal. Ainda tem muito 2026 pela frente – e em sua agenda, certamente, estão descritos alguns planos interessantes a serem realizados, daqui até o final do ano. Planos para os quais você deverá considerar uma longa lista de variáveis – clima, espaço, como chegar, o que comer, identidade visual, horários, agenda… Comece pela mais importante. Empenhe tempo, cuidado e carinho para definir quem estará lá com você. Essa sempre será a escolha mais importante.

E se ter medo de voar for um bom sinal?
Por Pedro Pirim Rodrigues, cofundador da Voz Futura Você lembra qual foi o primeiro post que fez em uma rede social? Sempre que me vejo numa encruzilhada, eu volto para a minha própria história. Olho a trajetória até aqui para identificar padrões – um exercício de storytelling comigo mesmo que gosto de fazer. Coloco a minha Jornada do Herói numa espécie de mandala e me redesenho. Lembrar de onde vim me ajuda a entender para onde vou – Qual o meu próximo passo? E percebi uma coisa ao longo dos anos: não quero apenas saber quem eu sou. Quero decidir quem estou criando para ser. Por que a pergunta “quem sou eu?” no meio desse mundão e quantidade de informação pode ser paralisante. Mas “quem quero me tornar?” me coloca em movimento. A primeira postagem que fiz na vida do instagram foi a vista da janela de um avião. A asa, o céu cheio de nuvens. No início dessa rede social a gente não performava, só postava o que dava na telha. Um amigo comentava algo como: “Quem diria que eu veria @ppirim postando foto dentro de um avião indo pra São Paulo”. O detalhe é que eu morro de medo de voar. Durante dois ou três anos fiz o trajeto RJ–SP–RJ de ônibus. Sempre aquele leito da madrugada. Até o dia em que peguei o ônibus errado e fui parar em Curitiba. (Sim, isso aconteceu, mas essa história fica pra outro texto.) Tenho medo de voar de avião, mas não tenho medo de voar. Amo viajar. Talvez seja uma das coisas que mais gosto na vida. Viajar amplia meus horizontes, constrói novas perspectivas. Me aproxima de outras culturas, pessoas, diferenças – e como a gente cresce nas diferenças, não é mesmo? Me faz perceber que sou pequeno diante da imensidão do mundo e, ao mesmo tempo, gigante por dentro. Viajar é uma ponte entre distâncias que se aproximam. É a falta e a saudade que dá pra ensinar e valorizar o que fica. Mas para viajar, algo que amo, preciso enfrentar o avião, que é algo que me dá medo. E essa aparente contradição começou a me fazer pensar em outras áreas da vida. As coisas que mais me desafiam, que me deixam ansioso e me obrigam a encarar meus medos… são exatamente as que mais amo fazer. Aprendi a acolher o medo como parte do processo e parte de mim. Eu amo meu trabalho. Penso nele o tempo inteiro. Mas sinto medo. Medo de não fazer a melhor gestão. Medo de não conseguir sustentar o sonho que estamos construindo. Medo de não agradar, de não atender expectativas. Ainda assim, é onde me sinto mais vivo. Já me senti culpado por amar demais o que faço. Porque parecia errado colocar o trabalho como prioridade. Porque via todo mundo reclamando e achava que talvez eu devesse reclamar também, só para me encaixar. Mas essa fase passou. O trabalho, em quase toda a minha trajetória, foi fonte de realização (95%). Mas alguns traumas me fizeram abandonar coisas que também amo. Como apresentar um podcast, por exemplo. Eu amo o teatro, a música, a arte, lugares de sublimação onde a dor vira linguagem de auto-expressão. Para mim, entrevistar alguém e extrair histórias também é arte. É conduzir, comunicar, inspirar através de histórias outras pessoas. É fazermos nos conectar em um mundo onde nos sentimos tão perdidos mas que ao ouvirmos outras histórias podemos pensar: “Eu não estou sozinho” Só que há dez anos algumas pessoas me disseram que eu não conseguiria fazer exatamente o que faço hoje: construir a VOZ Futura, apresentar “O Próximo Passo”. E eu acreditei. Deixei o julgamento alheio me limitar e demorei uma década para romper essa casca. Hoje, na véspera de uma gravação, quase não durmo. Fico ansioso, como na noite anterior a uma viagem. É o mesmo frio na barriga. E foi aqui que entendi: talvez o medo não seja meu inimigo. Talvez seja meu maior aliado. Tenho medo de voar de avião. Mas nunca deixei de embarcar por causa disso. Porque eu amo o imaginário do destino, o processo, o que acontece depois da decolagem. O medo não desaparece. Ele viaja comigo. Gravar me dá medo. Liderar me dá medo. Amar o que faço me dá medo. Mas nada disso vai me impedir de continuar. Agora, um antigo-novo medo de gravar. E o que eu percebi é que esse mesmo medo é como o medo de andar de avião. Vão haver turbulências, imprevistos, mas nada… nada nesse mundo vai me impedir de voar.

Quando a fala trava, a vida não precisa travar junto
Entrevista com João Gomes, jogador do Wolves e fundador do Instituto João Gomes.

Como fazer para organizar o Bem?
Por que a gente parece ser fisgado o tempo todo por notícias sensacionalistas, apelativas, destrutivas? Histórias em que a violência e seus personagens viram protagonistas… Eu tenho pra mim que tudo o que colocamos pra dentro produz efeito direto no nosso corpo, na nossa mente e na nossa alma. Não é uma suposição mística. É só observar a lógica básica da vida.Se a gente se alimenta mal todos os dias, o corpo responde. Se fuma demais, bebe demais, vive relações tóxicas, o corpo e a mente respondem. As chamadas blue zones mostram exatamente isso: lugares do mundo onde as pessoas vivem mais e melhor porque há uma combinação de hábitos saudáveis, relações comunitárias e propósito. O consumo de conteúdo funciona na mesma lógica. Somos bombardeados diariamente por narrativas que nos mantêm em estado de alerta. Dormimos pior. Vivemos inflamados emocionalmente e, com certeza, fisicamente. Explodimos ou implodimos. Desconfiamos mais. Brigamos mais. O que isso gera na nossa vida? Que tipo de sociedade isso constrói? (ou na verdade – destrói) Recentemente, em conversa com a Jacqueline Pereira – autora do livro “A coragem de ser Gente de Verdade”, formada em Gestão Emocional pelo Einstein, Palestrante, Colunista da Vida Simples, escritora e criadora do movimento “Gente de Verdade” (ufa…! Quanta coisa!) – falávamos sobre inteligência. Durante muito tempo, inteligência foi medida quase exclusivamente por QI. Mas e o QE? E o QS? Inteligência emocional. Inteligência social. A capacidade de organizar relações, sentimentos e impacto. A Jacque me disse a seguinte frase / provocação: “O mal se organiza muito bem, mas o bem se organiza mal.” Porque, de fato, o mal se articula, se financia, se estrutura, cria rede, cria narrativa, cria estratégia. E o bem? Muitas vezes fica no campo da intenção. No campo do “abraçar árvore”. No lugar da utopia romântica. Mas e se organizar o bem não for ingenuidade? E se for estratégia? (A primeira coisa que me veio à cabeça foi o Arlindo Cruz:) “O bem ilumina o sorrisoTambém pode dar proteçãoO bem é o verdadeiro amigoÉ quem estende a mão.” Se vivemos numa sociedade capitalista – e vivemos (nada de errado com isso) – por que o bem não pode ser um negócio? Por que propósito e prosperidade precisam estar separados? Existem negócios money driven, ego driven, purpose driven. Mas nós escolhemos juntar propósito com prosperidade.É nesse ponto que VOZ Futura e Vida Simples se encontram. Não como páginas, não como marcas isoladas, mas como movimento. Como prática real de estruturar aquilo que acreditamos e já estamos fazendo. Se o mal se organiza, o bem também pode – e deve. Por que acreditamos tão facilmente que “violência vende”? Quem decidiu isso? Quem testou o contrário de forma consistente, estruturada, estratégica? Nós estamos fazendo. Organizar o bem não é ser ingênuo. É ser intencional. É construir rede. É criar laços fortes. É dar palco para histórias que elevam e inspiram, que ampliam repertório. Não porque o mundo é cor-de-rosa. Mas porque ele já é cinza o suficiente. E aqui vem o nosso chamado. Se você acredita que dá para fazer diferente, junte-se a nós. Escreva. Conte histórias. Indique pessoas que merecem ser vistas – INVISTA. Traga exemplos que merecem ser espalhados em forma de exemplos para que outras pessoas se projetem e digam: “Eu também posso”. Se você é uma empresa e acredita que o bem também gera valor real, econômico e social, então invista. Porque se for para ser sensacionalista, que seja pelo construtivo. Se for para viralizar, que seja pelo que aproxima. Se for para organizar alguma coisa… que seja o Bem.


A arte do encontro
Por Katia Rubio, professora e pesquisadora da Faculdade de Educação da USP e especialista em psicologia do esporte Há pouco mais de três décadas, quando eu ainda consultava o acervo da biblioteca nos armários de aço cheios de fichas para fazer meus trabalhos de faculdade, lembro de um colega muito conectado nas “modernidades” de então, chegar dizendo que em algumas universidades do norte global, já existia um sistema de busca e organização de dados, possível de ser usado a partir de um computador pessoal, aquilo que passamos a chamar de PC e mais tarde lap top. Da maneira como ele falava aquilo parecia obra de ficção científica. Era início dos anos 1990. Passados alguns anos mais, quando entrei formalmente na USP em 1996 para realizar meu mestrado, ganhei meu primeiro e-mail. Aquilo parecia mágico. Mensagens podiam ir e vir. E a tradição de comunicação epistolar, uma herança de família, agora ganhava um outro meio. Se antes a chegada das cartas pelo correio era acompanhada de uma emoção sem igual, tanto pelas novidades que trazia, como pelo sentido da existência de alguém distante a partir do e-mail a comunicação ganhava uma outra dimensão. As cartas escritas em folhas de papel de diferentes texturas e formatos, por vezes, traziam também uma foto, também impressa. Era muito emocionante receber uma carta com uma foto dentro, ou um desenho, enfim, ela tinha materialidade. Com o advento do e-mail tudo chegava mais rápido, mais fácil. Foi preciso tempo e distanciamento para perceber as diferenças entre as trocas físicas e eletrônicas, muito embora tudo tenha ocorrido num lapso de menos de duas décadas. O encantamento original gerado pela velocidade acabou se convertendo em ônus diante da invasão da privacidade provocada pelos aparelhos que hoje parecem uma extensão do próprio corpo. As 8 horas diárias de trabalho se converteram em 24 horas, 7 dias da semana. E aquilo que parecia ser um meio para aproximação tem se mostrado um fator de distanciamento, uma vez que as relações virtuais se normalizaram. Em nome de facilitação de procedimentos, reuniões, aulas, encontros passaram a ser feitos via tela. E tudo o que vinha junto com um encontro presencial foi perdido: o cafezinho, a conversa fiada sobre família, filhos, perrengues, filmes, música ganharam o status de supérfluo. E com isso perdeu-se a possibilidade de criação de intimidade, razão de ser da formação de vínculo. Encontrar deixou de ser ação para ser apenas um verbo. Tenho me deparado com um sem-número de pessoas que reclamam da dificuldade de encontros reais nesses últimos tempos, curiosamente nunca antes tão facilitado por diferentes formas de comunicação. Os sites de relacionamento são prova disso. Criados para aproximar pessoas, tornaram-se cardápios biográficos, as vezes verdadeiros, as vezes falsos. Telas cheias de fotos, intenções, desejos, foram banalizados pela dificuldade em transpor a comunicação da tela para a presença. Se encontrar requer disposição para a presença, isso significa encontrar o outro e a si mesmo. Se a vida é a arte do encontro, embora haja tantos desencontros pela vida, como já cantou o poeta, arriscar-se ao encantamento da convergência demanda superar a facilidade da mediação da tela pela coragem do expor-se, ao vivo e em cores. No presencial algumas máscaras não servem tão facilmente. O botão off não é tão acessível. O risco de rejeição parece maior diante da possibilidade de não se pertencer a um nicho, cluster, clube ou bolha de interesse, onde o encontro com o diferente pode representar uma ameaça. Sou levada a pensar o quanto a proteção gerada pela tela não contribuiu para a dificuldade do encontro presencial. Curiosamente, uma nova modalidade de encontro começa a ganhar força. Almoços, jantares e cafés são promovidos para aproximar um grupo de pessoas, que não se conhecem a priori, mas têm o desejo de uma conversa acompanhada de uma xícara de café ou de uma taça de vinho. E nesse ambiente favorecido pelo desejo de estar juntos, em um mesmo lugar, 4, 6 ou mais pessoas compartilham uma humanidade que parece se esvair. Quase todas relatam a dificuldade de descobrir lugares que favoreçam o encontro com outras pessoas. Curiosamente, quase sempre as conversas giram em torno da superação da solidão, do desejo de olhar nos olhos ou simplesmente de estar. E talvez essa seja uma tendência desse momento, que também aponta para uma exaustão da virtualidade. É tempo de reinventar a arte do encontro e “se alguém por mim perguntar, diga que eu só vou voltar, quando eu me encontrar”.

Entre saudade e disciplina, Raphinha fala sobre amadurecimento, escassez e propósito
A mentalidade que construiu Raphinha.

Por que insistimos tanto no que nos separa, se há tanto que nos aproxima?
Por Pedro Pirim Rodrigues, cofundador da Voz Futura Tem uma entrevista linda do Mano Brown com o Rabino Ventura no Mano a Mano. Em determinado momento, Mano Brown pergunta sobre as diferenças entre as religiões e o Rabino responde algo mais ou menos nessas linhas: “Por que olhamos tanto para as diferenças entre as religiões se elas têm muito mais semelhanças do que diferenças?”. Eu vejo isso como um vício da sociedade contemporânea – comparar para repelir – eu estou certo x você está errado. Essa frase do Rabino não fala só sobre religião. Fale de política, de gênero, de geração, de classe social. Fala da gente. Eu não sei exatamente quando começamos a nos esforçar tanto para provar que somos diferentes uns dos outros. Existem razões históricas, primitivas, psicológicas. O ser humano sempre precisou se organizar em grupos para sobreviver. Mas uma coisa é reconhecer diferenças, outra é transformar diferenças em trincheiras. Quando se medir pela diferença vira o status quo, a capacidade de sermos empáticos começa a morrer. Nos últimos tempos, o algoritmo tem me servido uma avalanche de conteúdos que reforçam exatamente isso: o que homens deveriam fazer para serem mais homens, o que mulheres deveriam fazer para serem mais desejáveis ou “agradáveis”; o que jovens precisam fazer para não fracassarem; o que empreendedores devem fazer para vencer; o que pais e mães precisam fazer para não traumatizarem seus filhos. Como se a gente operasse por um manual de práticas. Sempre um ajuste. Sempre uma correção. Como se existisse um modelo ideal de ser humano a ser seguido. Mas não existe. O que existe é uma coleção de dores muito parecidas, disfarçadas por narrativas e contextos diferentes. No fundo, me parece que estamos todos tentando lidar com insegurança, medo de rejeição, sensação de inadequação, necessidade de pertencimento. Só que, ao invés de nos encontrarmos no meio do caminho para a conciliação entramos em estado de competição para provar que um é melhor que o outro. Quem sofre mais. Quem está mais certo. Quem é mais vítima. Quem é mais forte. E assim vamos nos afastando. Eu não sei nomear exatamente que dor é essa que atravessa tanta gente ao mesmo tempo. Mas talvez o primeiro passo não seja explicá-la, e sim reconhecê-la. Sem competição. Sem ranking de sofrimento. Sem transformar vulnerabilidade em argumento de debate. A minha tentativa aqui não é oferecer dicas sobre como homens ou mulheres devem agir, como líderes devem liderar ou como jovens devem se comportar. É propor um pequeno deslocamento de olhar. E se, antes de procurar a diferença, a gente procurasse a semelhança? E se, antes de corrigir o outro, a gente tentasse compreendê-lo e acolhê-lo? A VOZ Futura nasceu, entre outras coisas, desse incômodo: a sensação de que estamos sendo constantemente alimentados por exemplos que nos dividem, nos inflam, nos colocam uns contra os outros. Por isso acredito tanto na força de contar boas histórias sobre bons exemplos. Não porque essas pessoas sejam perfeitas, mas porque, ao agir com empatia, coragem, curiosidade e responsabilidade, elas nos lembram de algo essencial: é possível conviver sem aniquilar. Talvez a pergunta do Rabino sirva como provocação para nós também. Por que insistimos tanto no que nos separa, se há tanto que nos aproxima? No fim das contas, antes de sermos homens ou mulheres, jovens ou velhos, religiosos ou ateus, liberais ou conservadores, somos gente. E gente sente medo, sente dor, sente amor, sente falta. Talvez seja nesse território comum, do imperfeito – leia-se: humano – que possamos, finalmente, nos encontrar no meio do caminho.

A melhor história vence
Por Igor Monteiro, consultor de aprendizagem corporativa e especialista em design instrucional Sou um aficionado por uma modalidade esportiva que, em tese, não premia os competidores. Digo em tese porque, em tempos de redes sociais e viralizações instantâneas, algumas “provas” dessa tradicional modalidade são premiadas com uma outra valiosa medalha: a da atenção – em alguns casos, global. A modalidade a que me refiro? A das entrevistas coletivas de atletas. A forma mais próxima que teremos de enxergar o mundo usando um pouco das lentes daqueles que escrevem seus nomes nas histórias em eventos globais. A estratégia mais eficiente que conheço para acessar uma das minhas paixões mais antigas: as boas histórias. Se você, assim como eu, também compartilha esse fascínio por narrativas e entrevistas coletivas de atletas, as Olimpíadas de Inverno, evento global que reúne as modalidades esportivas geladas, apresentou para o mundo uma personagem absolutamente encantadora – a esquiadora de estilo livre Eileen Gu. Confesso que não assisti a uma só prova disputada por Gu. Por isso, meu artigo de hoje para a Voz Futura não é uma abordagem sobre as conquistas alcançadas por Gu através do esqui. Mas sim através de sua voz. Afinal, no final das contas, a melhor história vence. Duas pratas ou dois ouros?! Aos 22 anos, Eileen Gu soma 6 medalhas olímpicas na carreira, conquistadas nas edições dos Jogos de Inverno de Pequim 2022 e agora em Milão-Cortina 2026. Na edição recém encerrada dos Jogos, após conquistar duas medalhas de Prata, Gu concedeu a primeira de suas entrevistas que tomaram as redes sociais. Em uma coletiva pós competição, um jornalista tendenciosamente perguntou como a atleta enxergava as duas medalhas: como duas pratas conquistadas ou como dois ouros perdidos? Sinal verde para Gu dar uma primeira demonstração de como funciona sua mentalidade. Em um misto de ironia e firmeza, Gu respondeu ser a esquiadora acrobática mais premiada da história, de forma que seria absurda a lógica de tratar medalhas conquistadas como fracassos. Foi a riqueza dessa resposta que me deixou atento àquela e às suas demais entrevistas. Pois, do auge de seus 22 anos, a esquiadora olímpica parece preparada para lidar com uma lógica perversa que nos cerca a cada vez que rolamos o feed das redes. Vivemos uma era em que somos invariavelmente impulsionados e até de certa forma pressionados a emitir opiniões sobre os mais variados assuntos. De decisões políticas a posicionamentos de marcas. De episódios geopolíticos a eventos culturais. De operações de segurança pública à performance esportiva. Seguindo a lógica da rage bait (isca de raiva) que comentei no meu artigo anterior, prevalecem opiniões e comentários invariavelmente críticos – quando não, cruéis. Comentários, em geral, escritos, compartilhados e/ ou publicados por “especialistas” confortavelmente sentados em seus sofás, com um celular na mão, no conforto de suas casas e escritórios. Longe, muito longe, da adrenalina pulsante da arena da “vida real” ou de qualquer conhecimento necessário para emitir opiniões realmente válidas. A pergunta lançada a Gu carregava esse viés crítico de quem assistiu confortavelmente a sua performance. De quem possivelmente nunca disputou um evento da magnitude de uma Olimpíada. Mas que, de alguma forma, se viu no direito de diminuir o feito de uma atleta que segue escrevendo seu nome na história. Recebeu como resposta a declaração de alguém que se moldou efetivamente na Arena. Que compreende o tamanho de seu feito por ter a dimensão do desafio – da preparação até a prova. E que parece ter complementado essa fala numa segunda entrevista, quando explicou melhor como molda sua mentalidade. Você pensa antes de falar?! Numa segunda entrevista viral, uma repórter perguntou a Gu se ela pensava antes de falar. Não como uma ofensa, como a própria entrevistadora declarou. Mas como um pedido para que a atleta nos levasse a entender como ela articula seus pensamentos em respostas. Pergunta brilhante. Aplaudida na sala da coletiva. Um novo sinal verde para Gu dar uma genial demonstração sobre como molda sua forma de pensar. Para um amante de entrevistas coletivas e comportamento humano, o melhor vídeo/ corte que as Olimpíadas de Inverno de 2026 proporcionou – material a ser explorado em algum dos meus treinamentos. Eileen começa sua resposta agradecendo e se reconhecendo uma jovem mulher introspectiva – que passa muito tempo em sua cabeça, com seus pensamentos. Por timidez? Insegurança? Alguma vergonha?Não! Por estratégia. Passar tempo com seus pensamentos é a oportunidade de controlar e modelar o que e como você pensa. Modelar seus pensamentos é ter o controle sobre quem você é! Usando a seu favor sua juventude e latente neuroplasticidade, essa capacidade cerebral de redefinir caminhos e conexões internas, Eileen compreendeu cedo que pode realmente se tornar quem ela quiser. E se transformar, todos os dias, em suas próprias palavras, no tipo de pessoa que a ela mesma “de 8 anos de idade idolatraria.” Eileen entendeu muito cedo uma lógica da mente das pessoas vencedoras – por isso se tornou uma delas: O jogo, seja ele qual for, do esqui estilo livre à sua performance no trabalho, começa aí dentro. Entre você e a forma como você pensa. Um jogo experimental. De ajuste fino e diário. De analisar a qualidade do que pensamos e refletir sobre a possibilidade de tomar outros caminhos. Reescrever circuitos neurais na forma de modelos mais favoráveis, alinhados aos sonhados resultados. Um jogo que se ocupa menos com o ruído do lado de fora. – que sempre terá um tom crítico, não importa quem você é, o que você faça ou como faça. Um jogo que se ocupa muito mais com as vozes que vêm de dentro. Com o que dizemos para nós mesmos. E como essas vozes nos impulsionam – ou não – na direção das ações alinhadas com os reais objetivos. Você pode até não compreender o esporte de Eileen Gu ou qualquer outra das tantas modalidades olímpicas disputadas nos Jogos de Inverno. Não conheço nenhuma delas. Mas compreender o empenho de Gu nesse jogo abordado em suas entrevistas é uma poderosa estratégia para