Compartilhe por:

Compartilhe por:

E se ter medo de voar for um bom sinal?

E se ter medo de voar for um bom sinal?

Por Pedro Pirim Rodrigues, cofundador da Voz Futura

Você lembra qual foi o primeiro post que fez em uma rede social? Sempre que me vejo numa encruzilhada, eu volto para a minha própria história. Olho a trajetória até aqui para identificar padrões – um exercício de storytelling comigo mesmo que gosto de fazer. Coloco a minha Jornada do Herói numa espécie de mandala e me redesenho. Lembrar de onde vim me ajuda a entender para onde vou – Qual o meu próximo passo?

E percebi uma coisa ao longo dos anos: não quero apenas saber quem eu sou. Quero decidir quem estou criando para ser. Por que a pergunta “quem sou eu?” no meio desse mundão e quantidade de informação pode ser paralisante. Mas “quem quero me tornar?” me coloca em movimento.

A primeira postagem que fiz na vida do instagram foi a vista da janela de um avião. A asa, o céu cheio de nuvens. No início dessa rede social a gente não performava, só postava o que dava na telha. Um amigo comentava algo como: “Quem diria que eu veria @ppirim postando foto dentro de um avião indo pra São Paulo”. O detalhe é que eu morro de medo de voar. Durante dois ou três anos fiz o trajeto RJ–SP–RJ de ônibus. Sempre aquele leito da madrugada. Até o dia em que peguei o ônibus errado e fui parar em Curitiba. (Sim, isso aconteceu, mas essa história fica pra outro texto.)

Tenho medo de voar de avião, mas não tenho medo de voar. Amo viajar. Talvez seja uma das coisas que mais gosto na vida. Viajar amplia meus horizontes, constrói novas perspectivas. Me aproxima de outras culturas, pessoas, diferenças – e como a gente cresce nas diferenças, não é mesmo? Me faz perceber que sou pequeno diante da imensidão do mundo e, ao mesmo tempo, gigante por dentro. Viajar é uma ponte entre distâncias que se aproximam. É a falta e a saudade que dá pra ensinar e valorizar o que fica. Mas para viajar, algo que amo, preciso enfrentar o avião, que é algo que me dá medo. E essa aparente contradição começou a me fazer pensar em outras áreas da vida. As coisas que mais me desafiam, que me deixam ansioso e me obrigam a encarar meus medos… são exatamente as que mais amo fazer. Aprendi a acolher o medo como parte do processo e parte de mim.

Eu amo meu trabalho. Penso nele o tempo inteiro. Mas sinto medo. Medo de não fazer a melhor gestão. Medo de não conseguir sustentar o sonho que estamos construindo. Medo de não agradar, de não atender expectativas. Ainda assim, é onde me sinto mais vivo. Já me senti culpado por amar demais o que faço. Porque parecia errado colocar o trabalho como prioridade. Porque via todo mundo reclamando e achava que talvez eu devesse reclamar também, só para me encaixar. Mas essa fase passou.

O trabalho, em quase toda a minha trajetória, foi fonte de realização (95%). Mas alguns traumas me fizeram abandonar coisas que também amo. Como apresentar um podcast, por exemplo. Eu amo o teatro, a música, a arte, lugares de sublimação onde a dor vira linguagem de auto-expressão. Para mim, entrevistar alguém e extrair histórias também é arte. É conduzir, comunicar, inspirar através de histórias outras pessoas. É fazermos nos conectar em um mundo onde nos sentimos tão perdidos mas que ao ouvirmos outras histórias podemos pensar: “Eu não estou sozinho”

Só que há dez anos algumas pessoas me disseram que eu não conseguiria fazer exatamente o que faço hoje: construir a VOZ Futura, apresentar “O Próximo Passo”. E eu acreditei. Deixei o julgamento alheio me limitar e demorei uma década para romper essa casca.

Hoje, na véspera de uma gravação, quase não durmo. Fico ansioso, como na noite anterior a uma viagem. É o mesmo frio na barriga. E foi aqui que entendi: talvez o medo não seja meu inimigo. Talvez seja meu maior aliado.

Tenho medo de voar de avião. Mas nunca deixei de embarcar por causa disso. Porque eu amo o imaginário do destino, o processo, o que acontece depois da decolagem. O medo não desaparece. Ele viaja comigo. Gravar me dá medo. Liderar me dá medo. Amar o que faço me dá medo. Mas nada disso vai me impedir de continuar. Agora, um antigo-novo medo de gravar. E o que eu percebi é que esse mesmo medo é como o medo de andar de avião.

Vão haver turbulências, imprevistos, mas nada… nada nesse mundo vai me impedir de voar.

Mais conteúdos relacionados:

Mais conteúdos relacionados: