Por Paulo Pascoal
Passou-se um mês desde a última sexta-feira 13, que marcou a segunda sexta-feira 13 de 2026. Assim, duas seguidas, como se pudéssemos despachar qualquer possibilidade esotérica de azar logo no início do ano — mas ainda haverá outra em novembro.
Uma ocorrência rara, três sextas-feiras 13 num ano. A última vez que isso aconteceu foi em 2015 e a próxima será em 2037.
13/03/2026
Às 4h30, toca o alarme, desperto-me em Madrid. Não fazia muito tempo desde a hora em que me deitara, e na mente ainda restava o eco das últimas palavras que ouvira: “Amanhã é dia de Oxalá. Não uses roupa preta.” Preparo-me e dirijo-me ao metro — que estava fechado. Eram 5h30. Uma mulher aproximou-se com duas cervejas nas mãos, dizendo que a hora de abertura era às 5h50. Tínhamos 20 minutos para esperar. Ofereceu-me uma das cervejas; eu recusei. Ela e eu íamos vestidas de preto e pensei: “será que isto já é o azar?”
A hora de partida do comboio para Barcelona era às 6h22 e eu questionava-me se teria tempo de chegar. A mulher acalmou-me dizendo que o trajeto até à estação não seria mais de 15 minutos. À boca do metro de uma das rotundas de Malasaña conversámos sobre assuntos triviais até que o metro abriu a horas. Numa corrida desenfreada, percorri largos corredores até chegar à estação de Atocha. Deparei-me com uma fila para revisão de bagagem e, às 6h22, ouvi anunciarem a saída do comboio para Barcelona — sem mim, sem sequer ter tido a oportunidade de chegar perto do portão de partida.
Procurei imediatamente um balcão para comprar um bilhete novo — o meu não tinha seguro — e apanhar o comboio seguinte. Tinha cerca de 45 minutos até ao próximo, cujo passe me custou três vezes mais do que tinha pago com antecedência. Prometera ao meu amigo Rafael Lorran que estaria na estreia do seu filme “Queen of Boipeba”, no Festival de Cine Queer de Barcelona. Sobre isso não tinha dúvidas: chegaria. E assim foi. Três horas e dezassete minutos depois, cheguei a Barcelona.
Após desembarcar, procurei uma casa de banho para me refrescar. Na estação, todos os banheiros são pagos — 1€. Passei o sensor do telemóvel, e lá estava eu em frente ao espelho a escovar os dentes, com as malas no chão e a funcionária da limpeza a passar a vassoura. Com a cara lavada e pronta para entrar na cidade da Sagrada Família — referência de bairro que tenho também de Luanda, onde viviam os meus avós maternos — saí do banheiro e senti que me faltava algo extremamente importante: o telemóvel.
Voltei a correr para os WC e abordei a mulher que seguia a esfregar o chão a cada passo. Disse: “Acabo de perder o meu telemóvel.” Ela deixou-me entrar. Percorri os espaços onde havia estado — nada. Ela, que vinha atrás de mim, disse-me: “Ya te lo robaron.”
Naquele preciso momento pensei que não deveria ter saído de Madrid. Foram-me dados vários sinais para ficar quieta e eu não soubera entendê-los. Deveria ter desistido da viagem à perda do primeiro comboio. Os esoterismos todos e mais alguns caíram sobre mim, e o céu fechou como num filme de terror.
Não tenho cartões de crédito nem de débito. Não tenho dinheiro, nem sequer moedas. Não tenho contactos apontados, nem endereços. Não tenho uma garrafa de água para aliviar o nó na garganta que crescia a cada vez que me aproximava de alguém para pedir que tentasse ligar para o meu telemóvel. “No, no, noooooo”, ouvia repetidamente.
Fui até à comissária da estação — nada podiam fazer. Não recebem denúncias. Informaram-me que teria de ir a uma esquadra; a mais próxima ficava na Praça de Espanha, a dois quilómetros dali. Voltei para os WC. Só me restava a esperança de ter esperança: que fosse um ladrão da estação, que reparasse no meu desespero, e que me devolvesse o telemóvel. A dada altura, alguém disse: “Há um telemóvel no chão de uma das cabines do banheiro masculino.” Fui rapidamente ver se seria o meu. Eu não tinha usado a cabine, só o urinol. Era um telemóvel com uma capa cor-de-rosa. Entreguei-o à funcionária da limpeza. Pensei que talvez o meu gesto melhorasse o meu karma.
Passados longos minutos — eu ainda às voltas pela mesma zona — uma mulher apareceu desesperada, dizendo que tinha perdido o iPhone. Dirigiu-se à funcionária, que afirmou não ter visto nada. Ao ouvir aquilo, fui ao encontro dela e confrontei-a: “Eu entreguei-lhe um telemóvel. Porque está a dizer que não viu nada?” Ela respondeu: “O telemóvel que me entregou estava nas cabines masculinas. O que esta senhora pede é do feminino.”
O quê? A sério? Vai roubar o telemóvel a uma mulher?
Exigi que o devolvesse imediatamente. A dona agradeceu-me — era o seu, que fora parar, por distração, às cabines masculinas. A partir daquele momento fiquei cismada: a funcionária da limpeza era a ladra dos telemóveis.
Saí da zona com a intenção de engendrar um plano para a obrigar a devolver o meu. Preparei um guião. Voltei aos WC e, eu que nem computador levara comigo, afirmei ter visto no localizador que o meu telemóvel estava naquele espaço, sugerindo que ela o teria. Ela respondeu que a estava a colocar numa situação difícil, e abriu as portas do espaço e do quarto de arrumação, permitindo que eu revistasse tudo o que quisesse. Senti-me a pior pessoa do mundo. Com os olhos em aguaceiros e depois de ter revistado até os sacos de lixo, saí da estação conformada com a ideia de não recuperar o telemóvel.
Na esquadra da Praça de Espanha, ouvi que só poderia fazer a denúncia se tivesse o número de série do aparelho. O que eu queria era que me permitissem usar pelo menos um computador — para informar alguém de que estava em Barcelona — ou que me ajudassem a chegar a um lugar seguro. Nada. Não fizeram nada.
Saí de lá a pedir indicações para o Bairro Gótico. Na pior das hipóteses, iria até ao cinema e esperaria pela hora da estreia. Disseram-me que ficava longe — mais de uma hora a pé. Pus-me a andar pela cidade com uma presença eficaz: olhando atentamente a tudo, sem distrações, sem auriculares, sem fotografias, sem olhar para baixo.
Depois de quase duas horas a caminhar, a atravessar a Via Laietana, cruzou-se na minha frente um homem numa motorizada, bloqueando-me a passagem. Tirou o capacete e disse: “Perdón, te vi bajando la avenida. Me llamo Roger, soy de una agencia de talentos. ¿Qué haces por Barcelona? ¿Tienes representación?”
Nesse momento ocorreu-me que já tinha sido uma manhã longa de azar. Chegara às 10h, eram cerca das 14h, e se me deixasse levar pela conversa do Roger, talvez terminasse sem os rins. Toda a gente dizia que Barcelona se tornara numa cidade muito perigosa, com muitos roubos — informação que eu não tinha até chegar à cidade.
Expliquei ao Roger a minha situação, ao que ele respondeu: “La agencia no está lejos. Un sándwich y un vaso de agua no te van a faltar. Te llevo en la moto y te ofrezco un ordenador para que puedas contactar a alguien.”
Pensei: melhor condição, num dia como este, provavelmente não vou conseguir. O Roger deu-me um capacete, colocou a minha mala entre as pernas e levou-me até à agência.
Chegadas à agência, ofereceram-me um copo de água e um computador com prontidão. Uma agência luxuosa no coração da cidade, com vários bookers a trabalhar. Roger era o dono. Qual azar, qual quê? Afinal era o meu dia de sorte. Não consegui entrar em nenhuma das minhas contas — apesar de saber todas as passwords, os dados biométricos não me deixaram aceder. Até que me deram o telemóvel da agência para, através da conta de Instagram deles, poder mandar mensagens aos meus amigos. Inacreditável.
Saímos para almoçar e, por volta das 17h30, quando voltámos, já todos tinham respondido — com números e endereços para eu me fazer chegar aos devidos lugares.
Instalada em casa do Rafael, ele aconselhou-me a comer e a descansar para estar fresca para a estreia. Trazia ainda um telemóvel pronto para me entregar. Gentileza tamanha. Impagável. Fomos à estreia do seu primeiro filme, que foi um sucesso. Recomendo-o. Procurem por ele.
A dada altura, o Rafa disse-me que alguém chamado Elliot deixara uma mensagem a dizer que tinha o meu telemóvel.
Elliot é um grande amigo do Canadá que viveu em Lisboa mas se mudou há um ano para Barcelona. Era com ele que tinha combinado almoçar à minha chegada. Como não soube de mim, foi insistindo a ligar ao telemóvel até que um senhor chamado José atendeu. José disse ter encontrado o telemóvel no urinol da estação de comboio. Ficou à espera que alguém o reclamasse, mas precisou de ir para casa, em Sabadell — a 45 minutos nos arredores de Barcelona. Elliot registou as suas informações e, no dia seguinte, às 10h — a mesma hora da minha chegada, mas já no sábado, 14 de março —, recuperei o meu telemóvel.
A sexta-feira 13 carrega séculos de má fama. A origem do mito mistura a Última Ceia — treze à mesa, e no dia seguinte a crucificação — com a sexta-feira como dia de execuções na tradição cristã. Um número e um dia que, juntos, ficaram sinónimos de desgraça coletiva. E por entre essa teia de presságios, o gato preto: o animal que cruza o caminho e anuncia o pior, herdeiro da crença medieval de que era o demónio disfarçado, companheiro de bruxas e portador de maldição.
Naquele dia, eu era o gato preto. Vestida de preto, ignorando o aviso de Oxalá, cruzando caminhos alheios pela estação, pela esquadra, pelas ruas de Barcelona. Mas o gato preto não traz azar — ele apenas aparece. O que as pessoas fazem quando ele cruza o seu caminho, isso sim, é que revela tudo. Roger travou a motorizada. José guardou o telemóvel e foi para casa esperar. Elliot insistiu a ligar. Rafael tinha um telemóvel sobressalente.
A eudaimonia não estava ausente naquele dia. Estava escondida na mulher com as duas cervejas, no Roger que travou a motorizada, no José que esperou, no Elliot que insistiu, no Rafael que estreou o seu primeiro filme. Estava em mim, que continuei a andar.


