Por Pedro Pirim Rodrigues, cofundador da Voz Futura
Eu não sou surfista, mas já tentei surfar algumas vezes. De qualquer forma, sempre houve algumas coisas que me admiravam no surf. A capacidade de encarar um mar mexido, um tempo chuvoso, uma água fria… Tudo pela onda. Não só a onda que se apresenta, mas a onda que dá. Mas sempre me pegava pensando o que pensavam os surfistas depois da arrebentação enquanto esperavam uma onda? Se fosse comigo, provavelmente eu perderia horas ali, longe do celular, só imaginando aquele horizonte, em formato de ponte, para onde ele poderia me levar.
Para chegar em algum lugar, é preciso passar pela arrebentação. É preciso mergulhar de cabeça, furar uma onda, ou flutuar por cima dela para chegar do outro lado onde existe a calmaria possível das escolhas que precisam ser feitas, da paciência inevitável e da falta de controle inerente ao que se apresenta na natureza, por mais que a gente tente tanto controlar. Respeitar o tempo, respeitar o mar, é ter consciência de que não controlamos nada, mas que é importante navegar, se fazer movimento. Da mesma maneira que o pescador, quando joga a sua rede, não tem certeza do que vai voltar. Mas ele precisa jogar. Mas também não é tudo intuição. Existe uma mistura gostosa entre Intenção e Intuição. Se você enfrenta de qualquer jeito, toma na cabeça. Se hesita demais, volta pra trás. Existe um ponto de decisão ali que mistura coragem e leitura. Corpo e intuição. Força e entrega. A vida, em muitos momentos, parece exatamente esse mar.
As ondas continuam existindo depois da arrebentação. Elas fazem parte do mar. Mas elas já não quebram mais em você. Tornam-se parte de algo maior do qual você agora também faz parte. A gente faz isso com a vida o tempo todo. Confunde o momento de caos com a totalidade da experiência. Acha que a dificuldade atual define o todo. Que a fase ruim é permanente. Que o desconforto é destino, e não travessia.
Eu venho pensando muito sobre isso porque, em vários momentos da minha vida, achei que estava preso em ciclos que não iam acabar – turbulências, caldos, “vacas”, pancadas… Profissionais, emocionais, pessoais. Aquela sensação de esforço contínuo com pouco avanço aparente. Uma luta contra a correnteza constante, até entender como usar a correnteza que parecia contrária a meu favor. A gente quer controle, previsibilidade, resposta rápida. Quer saber quando vai chegar do outro lado. Mas o mar não funciona assim. E a vida também não.
Não adianta querer dominar o mar, não adianta querer controlar a vida. Existem impulsos e pulsos mais fortes do que aqueles que podemos domar. Você precisa aprender a se relacionar com eles. Respeitar a força, entender o ritmo, aceitar que existem dias melhores e piores. E que, mesmo fazendo tudo “certo”, você ainda pode ser derrubado. Mas que cada queda não seja interpretado como fracasso – apenas obstáculo, e grandes aprendizados. É a beleza da natureza.
E se quiser voltar, a arrebentação que antes parecia inimiga, é exatamente a mesma força que vai te devolver para terra firme. A força do desafio pode muitas vezes ser a força do alívio – da realização. O que te espera depois da arrebentação é perspectiva e horizonte, o que te acontece durante a arrebentação são os desafios, os mergulhos profundos, e o que te faz sair da terra, mergulhar em si e chegar em outro lugar mora na vontade de seguir em movimento.
Talvez a pergunta mais importante não seja “o que te espera depois da arrebentação?”, mas sim: você está disposto a passar por ela? Porque existe um tipo de vida que só se revela depois dessa fase. E ela não é prometida pra quem fica na beira. Ela aparece pra quem entra no mar, toma caldo, engole água, investe o tempo, a paciência, tenta de novo… até que, em algum momento, quase sem perceber, descobre que chegou mais longe do que imaginava.
E aí, quando você olha pra trás, a arrebentação continua lá. Só já não é mais onde você está.


