Por Camilla Bloisa, curadora, pesquisadora e art advisor

É incrível imaginar que por trás de Hokusai, o mestre japonês da Grande Onda, estariam as mãos habilidosas de sua filha. Uma parceria potente, mas apagada pela história da arte ocidental. Inconcebível uma mulher fazer aquilo? Tolinhos. No Japão, ela foi próspera, reconhecida e se tornou uma lenda.
Seu nome artístico, Katsushika Ōi (leia-se “ô-i”), nasceu de um apelido carinhoso e um tanto curioso. Diz a lenda que Hokusai a chamava aos gritos de “Oi!” (algo como “Ei, você!”) sempre que precisava de ajuda no ateliê. Ela, com a sagacidade de quem conhece o próprio valor, adotou o som como nome oficial.
Pai e filha floresceram no período tardio do Edo (1603-1868), época onde cultura e consumo prosperavam no Japão, especialmente o gênero ukiyo-e: as imagens do mundo flutuante. Eram cenas do cotidiano, paisagens e a vida instigante das cortesãs. Ōi não era uma amadora: sua primeira pintura registrada data de quando ela tinha seus meros 10 anos.

Ela chegou a casar com um artista, mas a união durou apenas três anos. O motivo? Ela achou as pinturas do marido medíocres e não teve paciência. Com o divórcio e a morte da mãe, Ōi voltou para a casa do pai. Mas, não se engane: ela não voltou como cuidadora, mas como artista e assistente de peso. Uma realidade rara para as mulheres da época, onde ela encontrou liberdade artística mesmo vivendo na invisibilidade social.
Suas pinturas são de um brilhantismo técnico total: traços caligráficos, cores vivas, saturadas e uma temática narrativa potente, sempre vista pela lente feminina.
Ōi trouxe para o ukiyo-e uma dramaticidade teatral através do jogo de luz e sombra, algo fascinante e raro para o estilo tradicional. Na obra Sala de exibição em Yoshiwara à noite, vemos cortesãs por trás de grades, expostas ao olhar dos homens nas sombras. Seria uma prisão a vida dessas jovens?
Já em Garota compondo poema à noite sob flores de cerejeiras, somos apresentados a uma cena íntima e luminosa. Uma mulher sozinha, escrevendo no jardim sob uma luz única. A obra parece um encontro inesperado, revelando talvez uma atividade secreta daquela jovem e, ao mesmo tempo, a invisibilidade das mulheres criativas. Algo real para a época e uma verdade que ainda hoje ecoa em muitas esferas.

Ōi teve carreira solo, encomendas próprias e era uma alquimista das cores. Dizem que ela possuía receitas secretas e chegava a enterrar tintas para obter o tom exato que buscava.

Mas o grande trunfo era a dinâmica de time. Com o interesse crescente do ocidente pela obra de Hokusai, Ōi assumiu o ateliê e é a provável responsável por mais de 80 obras dos anos finais do pai, que viveu até os 90 anos. Ela foi muito além de discípula: era parceira comercial, gestora dos negócios e a mente técnica que manteve o legado da família vivo.

O final de Ōi é um mistério. Após a morte do pai, ela simplesmente desapareceu: guardou os pincéis na manga do quimono para uma última encomenda e nunca mais foi vista.

Entretanto, se tornou uma lenda: a artista excêntrica que bebia e fumava como os homens, mas era uma filha diligente e genial. Virou anime, mangá e filme, mas sua essência segue escondida nos detalhes. Hoje, a história da arte finalmente começa a ajustar o foco, trazendo para a luz quem por tanto tempo esteve sob a sombra.

