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Da alegria de viver

Da alegria de viver

Uma experiência especial.

Por Katia Rubio, professora e pesquisadora da Faculdade de Educação da USP e especialista em psicologia do esporte

Sim, eu sou uma pessoa otimista e acredito que há momentos em que a vida nos testa para conferir se essa afirmação é apenas uma frase pronta ou se é uma atitude, coisas como não comer coentro ou não assistir a filmes de terror. Afirmo, categoricamente, que em mim, é atitude. E o otimismo tem uma relação muito próxima com a alegria e com a tal da felicidade.

É isso. Sei o quanto é controverso falar sobre a felicidade em uma sociedade tão desigual e em um momento histórico de tensão quase palpável. Mas, talvez por isso mesmo entendo ser necessário tocar nessa questão. Recentemente me deparei com o livro intitulado Felicidade, do francês Matthieu Ricard, um reconhecido cientista das hard sciences. Filho de um intelectual e de uma artista, Matthieu teve desde muito cedo, contato com a fina flor do mundo das artes e da intelectualidade francesa de década de 1970. Conta ele na introdução de seu livro, que ele foi aceito para o doutorado no Instituto Pasteur porque seu orientador soube que ele tinha planos de construir um cravo! Ou seja, orientadores também esperam coisas fora da caixa de seus alunos. A mescla entre produção intelectual e sensibilidade o levou precocemente a buscar outros caminhos para sua realização pessoal. Sua maior motivação eram personagens históricos cujo foco se concentrava no altruísmo. Isso o levou a uma viagem ao Oriente que transformou sua vida. Sem negar a busca empírica da verdade aproximou-se de pessoas cheias de benevolência e altruísmo. Sua proximidade com a neurociência o fez buscar de forma empírica o conceito de felicidade e bem-estar, apesar de toda a controvérsia que cerca esses dois temas. O livro, publicado originalmente em 2005, segue atual.

Se sairmos por aí perguntando para diferentes pessoas o que é a felicidade, as respostas podem variar conforme a idade e a cultura, mas é inegável que a sensação de bem-estar está associada ao prazer de fazer algo. Pode parecer um prazer fugaz para quem assiste, mas não para quem pratica a ação que leva à satisfação. Daí, a felicidade estar associada a um prato de comida, à companhia de alguém ou a uma atividade cheia de significados próprios para quem a executa. E é incrível como vejo isso acontecer na prática esportiva.

Durante uma semana no mês de janeiro, acompanhei 82 crianças e jovens em um acampamento do voleibol. Longe dos pais, dos aparelhos telefônicos e do mundo habitualmente conhecido, essas crianças e jovens gastaram os seus dias em palestras, treinos, preparação física com o propósito de aumentar suas habilidades. Isso mesmo. O “camp” foi destinado a todos os níveis de conhecimento da prática esportiva e os grupos respeitaram essas limitações oferecendo atividades para todos, incluindo os neurodiversos. É quase inacreditável que jovens entre 12 e 17 anos consigam ficar longe de seus aparelhos eletrônicos, mas ali ficou provado que sim, isso é possível.

Os dois primeiros dias pareceram cansativos, com treinos em dois períodos, mas sem gritos, sem castigos, nem ofensas travestidas de motivação. E sem precisar de monitoramento ostensivo os horários eram cumpridos, as atividades eram feitas com sorriso no rosto e disposição para algo mais. E depois do jantar palestras sobre histórias, valores do esporte e reflexão sobre o significado do esporte para além da competição. 

Rejuvenesci algumas décadas depois dessa experiência. Isso porque me pus a treinar junto com o grupo, respeitando meus limites e os limites do meu corpo. Observei como a inclusão estava dada tanto pelos profissionais que ministraram os treinos, como pelo grupo de atletas que buscavam seu aperfeiçoamento pessoal. E confirmei que o esporte não é bom nem ruim, ele é aquilo que fazemos dele. Ele pode ser inclusivo, respeitoso, altruísta, promotor de inclusão, facilitador de bem-estar e, por que não, de felicidade. Aquela mesma felicidade que Matthieu Ricard encontrou no Himalaia. Porque o esporte praticado com valores anda de mãos dadas com a educação, aquela mesma que não oferece apenas conteúdo para se realizar um exame, mas que desenvolve a humanidade tão necessária para fazer desse mundo um lugar digno para se existir.

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