Por Giulia Amendola | Conteúdo apresentado por BRASAS English Course
No Brasil, falar inglês ainda é um privilégio de poucos. Segundo dados do British Council, apenas 5,1% da população brasileira acima dos 16 anos declara ter algum conhecimento do idioma. Desses, estimativas indicam que apenas cerca de 1% atinge a fluência. Esse dado ajuda a entender por que o domínio do inglês segue funcionando como um forte marcador de acesso a oportunidades educacionais, profissionais e culturais no país. Só que o bilinguismo não se resume a falar inglês para viajar ou trabalhar fora. Ele atua como um reorganizador profundo da experiência de mundo. Ele transforma a forma de pensar, de decidir, de errar, de se relacionar, de projetar o futuro. Num país onde a fluência ainda é exceção, talvez seja justamente aí que more seu maior impacto: não apenas como habilidade técnica, mas como instrumento concreto de transformação social
Para entender o que muda, de fato, na mente e na vida de quem aprende e vive em duas línguas, conversamos com Alexander Rebelo Vieira, mestre em Administração pela FGV EBAPE, pesquisador do consumo educacional e das escolhas dos pais por escolas bilíngues no Brasil, à frente do BRASAS Online. “O bilinguismo não é apenas um conjunto de ferramentas linguísticas. Ele reorganiza o cérebro, amplia repertórios emocionais, redefine a autoestima e, sobretudo, transforma o futuro possível de quem o vivencia”, conta Alexander.
Segundo Alexander, o cérebro bilíngue não é uma variação biológica rara, mas o resultado direto de uma experiência contínua. “Um cérebro bilíngue não é um tipo diferente de cérebro, mas o resultado de uma experiência constante de lidar com duas línguas ativas ao mesmo tempo”, explica. Ele destaca que a ciência já comprovou mudanças reais na arquitetura neural de pessoas que usam duas línguas com frequência, com impactos em áreas ligadas à atenção, ao controle executivo e à resolução de conflitos linguísticos.
Na prática, isso também é visível no cotidiano educacional. À frente do BRASAS Online, Alexander observa esse processo acontecer em tempo real. “Alunos que no início travavam diante da menor insegurança começam, pouco a pouco, a alternar códigos com naturalidade, como se o cérebro tivesse encontrado um caminho mais fluido entre duas estruturas complexas”, afirma.
Durante muito tempo, o bilinguismo foi tratado como uma promessa de “supercérebro”. Hoje, o olhar científico é mais equilibrado. As vantagens existem, mas não são universais. “O que se observa em usuários frequentes das duas línguas são melhorias em atenção, controle inibitório e flexibilidade cognitiva”, explica Alexander. Essas habilidades são treinadas diariamente quando o cérebro precisa escolher uma língua e inibir a outra.
A memória de trabalho verbal também costuma ser impactada positivamente, já que falar duas línguas exige lidar com múltiplas estruturas simultaneamente. “Não é que o bilíngue se torna mais inteligente; ele se torna mais treinado para alternar caminhos mentais e analisar situações com múltiplos pontos de entrada”, resume.
Onde o bilinguismo mais transforma: nas emoções e nas relações
Se no campo cognitivo os efeitos são sutis, no campo das soft skills eles são profundos. Conviver com duas línguas é, também, conviver com duas formas distintas de ver o mundo. “Cada idioma traz sua lógica de comunicação, suas normas de cortesia, suas formas de expressar discordância, humor e emoção”, diz Alexander.
Com o tempo, surge uma habilidade natural de adaptação ao contexto. “Alunos que antes eram rígidos e literais passam a perceber nuances, intenções e sutilezas emocionais”, observa. Há também uma mudança interessante na relação com o erro. Aprender uma nova língua exige errar publicamente, reconstruir frases, tentar outra vez. “Isso cria uma tolerância maior à ambiguidade e uma relação muito mais leve com o próprio erro”, afirma.
Estudos também mostram que decidir em uma segunda língua pode reduzir a carga emocional imediata em determinados contextos, favorecendo análises mais racionais. “É uma mudança discreta, mas perceptível”, explica.
No plano pessoal, o bilinguismo amplia a autonomia intelectual. O indivíduo passa a acessar conhecimento diretamente na língua original, sem intermediações. “Muitas pessoas relatam sentir versões diferentes de si mesmas em cada língua, e isso tem base neurocientífica. Memórias e emoções se organizam de forma distinta dependendo do idioma em que foram adquiridas”, diz Alexander. Já no plano social, o bilinguismo atua como estratégia de distinção cultural e inserção em redes específicas. Esse fenômeno foi o centro da pesquisa de Alexander na FGV. “As escolhas educacionais nesse campo não são neutras. Elas moldam repertórios, abrem portas e definem trajetórias”, explica. No plano profissional, o impacto no Brasil ainda é decisivo. Com apenas 1% da população fluente, o inglês segue sendo um divisor de oportunidades. “Vejo alunos que começaram do zero e, anos depois, passaram a atuar em multinacionais, participar de reuniões internacionais ou migrar para carreiras fora do Brasil. O bilinguismo desloca a pessoa para dentro das conversas que realmente importam”, afirma.
Para conhecer mais histórias de pessoas que tiveram a vida transformadas pelo bilinguismo: seja com o desenvolvimento de soft skills, seja através de oportunidades profissionais, venha conferir a série de seis episódios da Voz Futura + BRASAS, disponível a partir do dia XX/02.

