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Nota à própria

Nota à própria

E o presente eterno.

Por Paulo Pascoal

Escrevo desde Espanha, mais precisamente desde Madrid, antes de embarcar para Barcelona. Nas “note to self” do meu telemóvel encontro uma recomendação, em negrito, para na folga das filmagens do projeto que me trouxe até aqui, visitar o colégio de padres onde passei a minha adolescência, em Palência.

O internato de San Agustín fica a duas horas de autocarro daqui, direção noroeste, Castela e Leão. Há mais de vinte anos que não ponho os pés nesse lugar e algo nessa relação com o tempo deixa-me curiosa sobre o que poderá advir da reativação, em mim, daquele espaço ou, como gosto de dizer, daquele marco geográfico.

Fundado em 1947, o colégio encerrou as atividades em 2009, depois de sessenta anos em funções.

Recentemente li uma coluna do Michel Alcoforado no Globo em que ele chama de “presente eterno” à onipresença das redes sociais, que bagunçou a nossa relação com a cronologia. Segundo ele, a partir de agora nenhum passado poderá ser verdadeiramente esquecido. Uma postagem pode ressurgir a qualquer momento e, feita alma penada, voltar com toda a força para nos atormentar. É como se pudesse tornar-se presente eternamente, congelada num tempo que não passa. Um tempo em que só existe hoje.

Penso então em Cronos e Kairós. As duas faces do tempo mitológico grego, ainda que atravessadas por influências judaicas, que aprendi enquanto estudava no seminário.

Cronos foi criado entre o céu e a terra. Filho mais novo de Urano e Gaia, diz-se que devorava os próprios filhos para que nenhum lhe tomasse o trono. Acabou derrotado por um deles que conseguiu escapar: Zeus. Foi assim que os deuses do Olimpo se tornaram imortais.

Outro dia estava numa esplanada a tomar café da manhã quando uma amiga, recém-chegada de Angola, ligou a tentar combinar um encontro naquela tarde. Quando desliguei a chamada, a mulher sentada na mesa ao lado comentou: “essa voz é inconfundível”.

Virei-me para ela e começámos a conversar.

A conversa foi tão cativante que nunca cheguei a encontrar-me com a minha amiga. Kairós tinha essa particularidade: o tempo oportuno, qualitativo. Corria tão rápido que a única forma de o deter era olhando-o diretamente nos olhos ou agarrando-lhe a única mecha de cabelo enquanto passava (não façam isso comigo, porque pode correr mal). Defendo que habito o tempo de Kairós, porque tenho muita dificuldade em interromper um bom presente, e isso sem necessariamente ser inimiga do fim.

Mas quem determina esse fim?

Todos os anos o mesmo vídeo viraliza, quase sempre em janeiro. Este ano viralizou um pouco mais tarde. Nele, uma fã sobe ao palco e, depois de me abraçar, fica com a minha peruca presa ao punho. O momento é engraçado em qualquer parte do mundo. Por causa desse vídeo, por exemplo, a mãe da Beyoncé, Tina Knowles, e o seu hairstylist, Ty Hunter, seguem-me no Instagram. O vídeo também já foi republicado várias vezes pelo Snoop Dogg.

Voltando ao Alcoforado e à ideia do “presente eterno”, talvez o que esteja realmente em causa não seja apenas a impossibilidade de esquecer. O que mudou foi a própria natureza da memória pública.

Durante séculos, o passado dependia de arquivos, testemunhos e instituições capazes de o preservar. Hoje, vive disperso numa rede de servidores, algoritmos e partilhas que o reativam constantemente. Não se trata apenas de lembrança. Trata-se de circulação.

Quando aquele vídeo volta a aparecer – a fã no palco, a peruca, o riso coletivo – deixa de ser um episódio encerrado. Torna-se um objeto cultural em trânsito. Cada nova visualização reinscreve o momento no presente, como se estivesse a acontecer outra vez.

Nesse sentido, talvez as redes sociais tenham alterado a velha oposição entre Cronos e Kairós. O tempo cronológico continua a avançar, claro. Dá-nos sequência, idade, decadência. Mas a experiência do tempo tornou-se fragmentada: episódios do passado são continuamente recortados e reintroduzidos no agora.

O passado deixou de ser um lugar para onde se olha. Passou a ser um arquivo vivo que insiste em estar, ser presente.

Por isso, me intriga tanto a ideia de ir a Palencia visitar o colégio de San Agustín. Há aí uma vontade simultaneamente nostálgica e metodológica em perceber o que acontece quando um corpo regressa a um lugar que já só existia como memória.

Porque, ao contrário dos vídeos, os nossos sentires não viralizam. A sensação do trauma vive no corpo que se lembra e faz-se ritual.

E talvez seja precisamente aí que ainda resista alguma diferença entre memória, humanidade e algoritmo. 

Quiçá Cronos não consiga devorar tudo aquilo que um dia fomos. É nesse instante, quase imperceptível, que Kairós se revela: quando o passado deixa de nos prender e o tempo volta a abrir-se como caminho.

Talvez seja esse o caminho que farei amanhã até a cidade de Palência. Será como uma travessia de um tempo que parecia encerrado. Quem sabe ali, entre ruínas de memória e silêncio, o passado encontre finalmente o seu lugar e me devolva ao presente aquilo que nunca envelhece: a possibilidade de recomeçar, sempre.

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