Por Pedro Pirim Rodrigues, cofundador da Voz Futura
Grana, Bufunfa, Cascalho, Tutu, Faz-me-rir, Pilha, Cobre, Moeda, Nota, Dim-dim, Conto, Dinheiro…! Quantos nomes pra um negócio que tantas vezes parece reger nossas vidas.
Quando penso na palavra dinheiro, a primeira coisa que me vem à cabeça não é um número, um salário ou um contrato. É um trauma de infância. Cresci em uma família onde o dinheiro estava muitas vezes conectado a brigas e dívidas. Foi assim que, por muito tempo, pensei que ter dinheiro significava, no fundo, viver em constante ameaça. Ou seja, o “valor” do dinheiro tinha um significado ruim e pesado. O “custo” emocional do dinheiro pra mim era alto. Precisei de tempo, paciência (e dinheiro também) para ressignificar a minha relação tóxica com ele e transformar em algo positivo e construtivo.
(No mundo também vemos muito dessa relação retratada em conflitos políticos, guerras e até em novelas.)
Acho que já se foi o tempo em que diziam que “dinheiro não traz felicidade”. Mas e se trouxer? Do que estamos tentando fugir ao afirmar tal coisa? A quantidade de pessoas apostando em megasena e em “bets” parece me dizer algo contrário a isso. Existe, sim, uma literatura extensa sobre a relação entre dinheiro, bem-estar e felicidade.
Pesquisas clássicas, como a de Daniel Kahneman e Angus Deaton, mostram que níveis mais altos de renda estão associados a maior bem-estar subjetivo até certo ponto, especialmente quando a renda ajuda a resolver inseguranças básicas e preocupações cotidianas. Outras pesquisas mais recentes, como a colaboração entre uma turma de Wharton e Princeton, sugerem que pra maioria das pessoas, um aumento de renda está correlacionado com mais felicidade. Em especial porque dinheiro proporciona controle sobre a própria vida e reduz incertezas que geram ansiedade – se identificou?
Por outro lado é importante refletir sobre o seguinte: dinheiro sozinho não garante felicidade. Estudos sobre comunidades que vivem com pouquíssima renda mostram que níveis de satisfação de vida podem ser tão altos quanto em países ricos, quando existem relações fortes e sentido de propósito.Ou seja: dinheiro pode facilitar, mas não substitui aquilo que nos faz verdadeiramente bem.
Nesse aspecto, a minha vida mudou completamente quando eu mudei a minha relação com dinheiro e passei, principalmente, a conviver com pessoas que me ensinaram a equilibrar essa relação e que o dinheiro poderia ser um instrumento de conexão, construção e transformação coletiva. (Confesso que ir morar fora também me ajudou muito. Viver uma vida mais simples, mais segura, com menos gastos e qualidade alta de vida me mostrou que essa realidade é possível – agora o desafio é como transportar isso para outros lugares – na minha cabeça e no lugar onde vivo)
Quando você olha para um projeto e pensa “como vamos fazer isso acontecer?”, o dinheiro vira um meio de viabilizar sonhos. Não o fim em si mesmo, mas uma ponte que permite que ideias floresçam, que relações se fortaleçam e que impactos reais aconteçam. Hoje, eu vivo e trabalho com pessoas que valorizam o dinheiro como ferramenta e não como fim, mas como meio de criar sentido junto com outras pessoas. Isso mudou tudo na minha relação com ele.
Preço × Valor: uma das maiores armadilhas emocionais com o dinheiro
Uma das dificuldades que vejo em muitas conversas é a confusão entre preço e valor. Muita gente tem dificuldade de precificar seu próprio trabalho porque não sabe olhar para o valor agregado que entrega: competência, experiência, presença, impacto social, transformação. Esse é um dos grandes desafios da nossa relação com dinheiro hoje: conseguir traduzir o valor que geramos em uma cifra que nos permita viver com dignidade, conforto e liberdade.
O que a gente pode fazer sobre isso? Conversar (!!!)
- Pergunte a clientes ou pessoas que já se beneficiaram do teu trabalho: o que mudou na sua vida depois de trabalhar comigo?
- Liste o que você sabe fazer que poucos conseguem fazer bem.
- Separe o seu custo emocional e de tempo do preço. Porque alguém que entrega transformação emocional está, de fato, entregando algo que muda vidas.
- Reflita: quem eu impactei? Qual foi o benefício concreto para quem pagou?
- Conversem em casa e com amigos sobre desafios relacionados a isso
- Estude o mercado e veja mais ou menos quanto as pessoas estão cobrando pelo que você está entregando.
*É um exercício contínuo e não tem receita de bolo. Costumo acreditar que comunicação é o melhor caminho a desmistificar essa relação
E por que o dinheiro pode ser bom no final das contas (rs) ? Porque pode trazer:
- Segurança: pagar contas sem sufoco, dormir sem medo do inesperado.
- Conforto: coisas que tornam a vida mais leve e menos reativa.
- Liberdade: escolher com quem trabalhar, aonde ir, com quem estar. (Essa aqui é uma das que mais me pega)
- Autonomia emocional: poder dizer não sem se auto-sabotar por medo de ficar sem nada.
“Ah, mas o capitalismo…”. Galera, não precisa ser uma ode ao capitalismo, mas também não dá pra gente negar a sociedade em que a gente vive. Essa conversa começa com honestidade sobre a nossa relação com dinheiro. E quanto mais honesta for a nossa relação com ele, mais livres a gente pode se tornar – emocionalmente e materialmente.
O desafio não é só sobre ter ou não ter dinheiro. É saber lidar com ele sem medo, sem culpa e com consciência de propósito. Saber que ele é bom e importante pra você e que também pode servir para ajudar os outros (lembrem de separar sempre uma quantia para doar : )) Dinheiro pode ser um instrumento poderoso nas mãos de uma vida que sabe o que quer, que sabe seu valor e que entende que um mundo melhor é construído com projetos que unem sentido emocional, coletivo e material.
E aí, como tem sido a tua relação com o dinheiro?
Fontes e artigos sobre a relação com dinheiro e felicidade:
- https://www.theguardian.com/lifeandstyle/2024/feb/05/isolated-indigenous-people-as-happy-as-wealthy-western-peers-study
- https://knowledge.wharton.upenn.edu/article/does-money-buy-happiness-heres-what-the-research-says/
- https://www.gov.br/gestao/pt-br/assuntos/gestaoeinovacao/inovacao-governamental-carreiras-transversais/inovacao-governamental/cinco/cinforme/edicao-7-2024/dinheiro-felicidade


