Por Katia Rubio
Certa vez, durante uma aula, perguntei para a sala quem tinha lido o texto daquele dia. Algumas pessoas, de maneira encabulada, com o cotovelo dobrado, lentamente levantaram um dos dedos da mão. Outros, menos envergonhados, apresentaram suas justificativas pela não leitura. Mas, um ser, desses que busca se destacar no coletivo, não pelas virtudes, fala de forma jocosa: “vi, mas não li”. Aquela provocação seguiu comigo durante anos.
Verbos são elementos da língua portuguesa que implicam ação. Assim como ver é diferente de ler, embora guardem a proximidade do olhar, há outras ações caras a quem trabalha com cuidado.
É o caso de ouvir e escutar. Somos capazes de ouvir muitos sons, ruídos, reclamações. Mas, escutamos aquilo que nos exige atenção, elaboração, por isso a escuta é aquilo que de mais precioso tem a psicologia. Somos capazes de escutar não apenas os sons proferidos pelas palavras, mas também aqueles conteúdos que se escondem atrás ou sob ideias, temores e as próprias palavras que anunciam uma ideia ou pensamento.
Escutar exige paciência, atenção e atenção gera cuidado. Comunicar-se não é apenas falar, se expor, é também ouvir, escutar para poder interagir.
E o que mais aprendi ao longo dos anos de pesquisa com os atletas olímpicos brasileiros foi, escutando suas histórias, aprender sobre o que passa uma pessoa para vir a se tornar um atleta de nível olímpico. Sem interpretações, análises, inferências, apenas escuta. A imersão nessas histórias levou ao entendimento da complexidade do que é ser atleta no Brasil, em diferentes momentos históricos.
Cada entrevista foi uma lição sobre lugares, pessoas, situações singulares e outras compartilhadas que apontaram a diversidade de formação e de possibilidades que crianças e jovens vivem até alcançarem seus objetivos e sonhos.
Sigo ouvindo e aprendendo. E com isso, ensinando.

