Por Igor Monteiro, consultor de aprendizagem corporativa e especialista em design instrucional
Uma pesquisa publicada em 2 de abril de 2026 pela Anthropic parece sugerir que modelos de IA já são capazes de se apropriar de algo até então tratado como exclusivamente biológico: as emoções.
Calma, IA’s (ainda) não sentem exatamente. Mas podem ter algo ali, em seu funcionamento, que funcionaria como um equivalente emocional, uma representação sentimental – simulações que influenciam a forma como os próprios modelos de IA agem e dão respostas.
Resumidamente, a pesquisa da Anthropic aponta que um modelo de Claude (Sonnet 4.5) não só foi capaz de descrever emoções como a tristeza, por exemplo. Mas também, contextos e situações em que essa e outras emoções se estabelecem.
E mais: quando exposta a cenários tipicamente capazes de provocar em nós, humanos, algumas emoções específicas que influenciariam nossa forma de pensar, os modelos de IA também tiveram mudanças perceptíveis em seu comportamento ou forma como as respostas eram dadas.
Exposta, por exemplo, a circunstâncias desencadeadoras de desespero, a IA se comportou de forma um tanto desesperada, com respostas dominadas por LETRAS MAIÚSCULAS, exclamações e até uma tendência a trapacear em suas devolutivas.
IA’s já apresentam há tempos competências relevantes para apoiar nosso trabalho – como criatividade, produtividade e análise de dados. A pesquisa da Anthropic, para além de despertar curiosidade, parece nos colocar diante de mais uma pergunta:
Em quanto tempo modelos de IA serão capazes também de sentir?
- E será que um dia serão realmente capazes?
Uma sofisticada tecnologia
Lidar com emoções não é uma exclusividade humana. Mamíferos já apresentam uma segunda camada cerebral, o sistema límbico, região que lida com emoções. Quando mamíferos em geral veem algo repugnante ou assustador, essa região, ao processar a informação, os fazem tremer ou fugir, por exemplo.
Exclusivamente humano é a camada cerebral de evolução mais recente – o chamado “neocórtex”. A área tida como mais racional, responsável pela cognição, armazenamento de memória, processamento sensorial, abstrações, filosofia, contemplação.
Essa região, combinada com o sistema límbico, forma uma sofisticada tecnologia muito própria da nossa espécie.
Ouça um discurso poético e emotivo, por exemplo, durante a celebração de um casamento de pessoas especiais para você. Ainda que não seja sua história de amor ali, aquelas palavras (razão) serão capazes de arrancar emocionadas lágrimas e apaixonados afetos.
Nossa relação com as emoções, gera um fascínio histórico e um volume incalculável de renomadas pesquisas para tentar compreender melhor como funcionamos.
Daniel Goleman define a inteligência emocional como essa (desafiadora) capacidade de reconhecer, compreender e gerenciar as próprias emoções e as emoções dos outros.
Outro Daniel, o Kahneman, psicólogo ganhador do prêmio Nobel da Economia, define em sua obra “Rápido, Devagar” que nossas decisões são movidas por aspectos emocionais e justificadas com argumentos racionais – Vai me dizer que nunca comprou por impulso algo que não precisava nem foi a um lugar que “nem era tão bom assim, mas todos estavam indo”?
Filósofos gregos antigos, como Platão e Aristóteles, definiam 4 virtudes cardeais para conferir sentido ao que seria uma boa vida: Prudência, Justiça, Coragem e Temperança. Reparem, todas as 4 virtudes parecem apontar para essa importância de fazer o que é certo e equilibrado mesmo lidando com nossas emoções e inclinações instintivas.
O valor que a IA (ainda) não substitui
Emoções, historicamente, agiram como nossos melhores marcadores de memórias – e tornaram momentos inesquecíveis. Conferiram cor a alguns dos eventos que experimentamos – dos tons mais acinzentados aos mais coloridos. Deram razões de sobra para nos levantarmos da cama em alguns dias. Em outros, motivos para permanecermos deitados. Nos conectaram aos nossos melhores amigos e grandes amores.
Pelo menos até aqui, essa capacidade de se emocionar e gerar emoções tem nos tornado únicos.
Talvez você já tenha ouvido essa história que ilustra bem esse valor das emoções humanas. Um hotel cinco estrelas contratou uma consultoria para otimizar processos e reduzir custos. A solução apresentada pela consultoria: demitir o porteiro.
Uma simples troca por um sistema inteligente de portaria seria uma substancial economia para o negócio. Consultoria entregue, troca realizada, caixa aliviado.
Mas não por muito tempo…
Meses depois, o hotel reportou à consultoria que seu faturamento diminuiu consideravelmente desde a mudança. O motivo – a falta que o porteiro fazia.
O sorridente porteiro recebia calorosamente cada hóspede que chegava ao hotel. Saudava e chamava pelo nome os mais fiéis. Se ofereceria gentilmente para carregar as malas, abrir a porta do carro, subir até o quarto com sacolas de compras. As crianças os amavam – e, por consequência, os pais também. Os mais velhos passavam uma tarde inteira ao lado dele, conversando sobre futebol, política e outras amenidades que pautam o cotidiano.
À sua maneira, o porteiro despertava afetos em quem o conhecia.
Ser capaz de sentir e fazer sentir era o que tornava aquele profissional único.
Enquanto essa for uma capacidade exclusivamente humana, a mais sofisticada das nossas tecnologias segue sendo a minha aposta de diferencial competitivo relevante e insubstituível.


