Por Camilla Bloisa, curadora, pesquisadora e art advisor
Na emblemática apresentação do Bad Bunny no Super Bowl, ele afirmava no final que só o amor vence o ódio. Além de reivindicar a paz, acredito que o músico falava de amor-próprio. De ter orgulho de ser latino-americano e acabar com a nossa síndrome de vira-lata. Afinal, se o amor é para todos, também há espaço para todos no palco da vida, e da arte.
Acontece que a arte já tenta nos ensinar a ter orgulho das nossas raízes arte há muito tempo.

Ao listar os países da américa (do sul para o norte), Bad Bunny traduz em palavras a obra “América Invertida” realizada em 1943 pelo artista uruguaio Joaquín Torres Garcia. Virando o mapa da América do Sul de cabeça pra baixo, Joaquin nos afirma que o “nosso Norte é o Sul”. Ele propõe não apenas uma nova visão e cartografia, mas uma nova autonomia: uma América Latina criativa, dona de suas ideias e protagonista da própria história. O “Norte”, aqui, funciona como a bússola para onde olhamos na hora de produzir. Segundo Torres García, deveríamos olhar para nós mesmos.
Após circular pela Europa e Nova York, o artista retornou à terra natal uruguaia e fundou o Universalismo Construtivo. Um movimento que inclui no “grid” moderno símbolos e grafismos simples: peixes, âncoras, barcos, sol e lua.

Uma fusão do pensamento moderno com uma linguagem ancestral da arte pré-colombiana produzida em seu país. Ao propor a Escuela del Sur, ele convocou artistas e pensadores a traçarem caminhos livres, sem imposições culturais do eixo Europa-EUA.

Nessa lógica, Joaquín tem uma parceira de peso, uma velha conhecida nossa: Tarsila do Amaral. Tarsila, a dar vida ao movimento da antropofagia, queria engolir todos os ensinamentos da arte europeia junto com aquilo que é nosso: cidades, frutas, fauna, tradições e até sonhos brasileiros. Um de seus tutores franceses ficou chocado com seu uso de cores vibrantes (consideradas “inapropriadas” para a abstração europeia) mas Tarsila insistiu e ainda batizou de “paleta caipira”. Pois é, só brasileiro sabe o que tem borogodó.

Hoje, Tarsila e Joaquín ocupam nos museus o mesmo espaço dos modernistas americanos e europeus. A história da arte é finalmente entendida de uma maneira mais ampla, com muitas vozes, camadas e origens diferentes. Em um mundo de redes sociais cada vez mais pasteurizado e igual, a arte vai na contramão: ela nos lembra que a singularidade é nosso maior trunfo. Não se trata da “América Latina estar na moda”, mas de ser finalmente valorizada, a começar por nós mesmos.

Podemos ser a nossa própria referência. A Marcela Cantuária deixa isso claro em Salão de Mulheres ou 1º Salão de Artes Latino Americana e Caribeño (2022). Na obra, a estrutura dos salões de arte do século XVII serve como cenário para uma homenagem. Em vez das coleções tradicionais da época, as paredes exibem miniaturas de obras de artistas mulheres dos séculos XX e XXI. É uma reunião de mestras, onde Marcela coloca o trabalho de suas antecessoras como o verdadeiro ponto de partida da arte atual.

Hoje, o Sul Global (que inclui a América Latina, a África, o Sul Asiático e as nações do Pacífico) deixou de ser lido como “exótico e periférico” para se tornar o motor da renovação atual. Presente e em destaque nas grandes bienais e instituições – inclusive o tema de muitas exposições aqui no Brasil neste ano, como no MASP e no CCBB – o Sul nos revela que a geometria sensível, a ‘gambiarra’ transformada em design e o uso de técnicas ancestrais são também linguagens da arte contemporânea.
E voltando pro Bad Bunny, que tal fazer uma dupla com a Shakira para a música tema da Copa do Mundo?


