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Por que o limite do outro nos choca tanto?

Por que o limite do outro nos choca tanto?

Horário marcado para tudo.

Por Giulia Amendola, diretora de conteúdo da Voz Futura

Recentemente, coloquei na descrição do meu WhatsApp que só responderia mensagens de trabalho de 10h às 18h. Recebi alguns comentários, de colegas e amigos, num tom crítico-passivo-agressivo-invejoso, pontuando:

– 8h de trabalho cravado?
– você não tira hora de almoço?
– você consegue respeitar esses horários? (em total choque)
– mas você vive respondendo coisa antes das 8h da manhã
– mas você vive respondendo respondendo coisa depois das 20h

Quando comecei a escrever esse texto, já ia logo me justificando dizendo que são 8h disponíveis para responder mensagens e, que, na verdade eu trabalho bem mais do que 8h por dia.

Mas aí eu me peguei pensando: a quem a gente deve justificar os nossos próprios limites?

Não seria somente a nós mesmos?

Respondendo à pergunta, eu não consigo respeitar esses horários mas não acho que isso seja um sinal de que eu seja uma super trabalhadora. Na verdade ,acho isso triste, um retrato dessa sociedade doente focada em produtividade que a gente vivo. Meu volume e intensidade no trabalho sempre foi elogiada por todos os meus chefes, me trouxe uma maturidade bem maior que a minha idade indicaria, mas me fez ter uma relação não muito saudável comigo mesma.

Este exercício tem sido muito pautado em me organizar melhor, em me planejar melhor e entender que ao impôr meu limite, o outro não vai gostar menos de mim por isso. E mesmo que isso aconteça, isso não tem a ver com o meu valor. Uma mensagem é uma mensagem. É o que é – e não está ligada à admiração por mim ou pela forma como eu me entrego – seja no trabalho, seja nas amizades, seja na minha família.

Eu admirei, com um tom de inveja também, quem nunca, quem sabe dizer não. Me escondi em discursos geracionais, em dizer que eu faço-e-aconteço. No final, aprender a dizer não, na mesma medida que dizer sim, é algo que todos nós deveríamos nos permitir.

Mas venho investigando isso dentro do meu ciclo de amigos: por que nos admiramos quando alguém diz que tirou 30 dias de férias? (não é um direito?); por que nos chocamos quando alguém diz que consegue sair do trabalho todos os dias no horário “certo”? (não deveria ser essa a regra); por que ficamos chateados e ainda não normalizamos o “não quero sair este final de semana” ou ainda “não quero fazer esse programa”?

Estamos desacostumados a lidar com o limite do outro porque, em algum momento, aprendemos que servir por servir é um ato de amor, de lealdade, de atenção. Passamos a acreditar que dar conta de tudo (“quem quer, faz”, “quarta-feira vira sábado”, “não falta tempo, falta prioridade”) é equivalente ao nosso contra-cheque financeiro e emocional.

Eu espero cada vez mais cumprir minhas promessas & horários. Mesmo que todo mundo fique chocado com a minha mensagemzinha do WhatsApp.

Mas ei, não deixe essas coisas te consumirem 😉 (leia a última coluna pra entender)

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