Por Giulia Amendola, jornalista e diretora de conteúdo da Voz Futura
Durante muito tempo, Laura acreditou que jamais teria coragem de falar em público. Tímida, curiosa e profundamente interessada em entender as pessoas, encontrou na linguagem um caminho inesperado para estudar comportamento humano, questionar convenções e, aos poucos, encontrar a própria voz. O que começou como um desejo íntimo de se expressar e se conectar acabou se transformando em um trabalho que impacta milhares de pessoas, ajudando-as a olhar com mais cuidado para suas relações, afetos e formas de estar no mundo.
Nesta entrevista para a Voz Futura, Laura compartilha como sua trajetória acadêmica e pessoal se entrelaçou com temas urgentes do nosso tempo, como saúde social, amizade, comunidade e comunicação.
1. Fala um pouco de você: quem é Laura, o que você gosta de fazer, como chegou até “aqui”?
Eu era a pessoa mais tímida do mundo. Todo mundo dizia que eu seria professora por ser “a carreira da família” e eu dizia que nunca teria coragem de falar em público. Eu só queria entender as pessoas (e com 11 anos já estava buscando livros sobre comportamento humano) e escrever. Não passei para a faculdade de Psicologia e acabei cursando Letras. Achava que a psicologia era o único jeito de estudar comportamento humano, mas, na Letras, descobri a Linguística Aplicada e a área de estudos Discurso e Práticas Sociais. Foi ali que me encontrei: sempre questionei o óbvio das convenções sociais e ali ganhei a linguagem que precisava para expressar minhas ideias e ser mais eu mesma. Minha pesquisa de mestrado nessa área foi sobre como falas populares sobre amor orientam nosso jeito de se relacionar afetivamente. Foi também graças à faculdade de Letras que superei a timidez: virei professora de inglês e descobri que amo dar aula e interagir com as pessoas. Hoje em dia, não dou mais aula de inglês, mas sou professora (como nunca imaginei que seria) e escritora (como sempre quis ser), com foco em relações, comunicação e saúde social.
2. Você tem construído seus estudos em torno de temas como relações humanas, afeto não-romântico e comunidade. Em que momento você percebeu que essas conversas não eram apenas conteúdo, mas algo que ajudava as pessoas a se transformarem no dia a dia?
Comecei a falar desses temas na internet não como “criadora de conteúdo” (acho que esse termo ainda nem existia), mas porque eu me sentia um ET e queria me conectar, me expressar. Lá em 2016, quando ganhei alguma popularidade na internet escrevendo sobre amor, comecei a receber mensagens quase diariamente de pessoas me agradecendo pelas minhas reflexões e me relatando o quanto eu as tinha ajudado de alguma forma. Encontrar pessoas que se identificavam com o que eu dizia já foi mágico, mas logo em seguida entender que eu estava de fato ajudando as pessoas foi crucial na minha trajetória. De lá pra cá, expandi meus estudos para além das relações românticas e tem sido um retorno muito legal também. Ainda recebo mensagens de agradecimento quase diariamente e essa é minha principal motivação para trabalhar com isso hoje em dia.
3. Como você se aproximou do termo “saúde social” e por que você tem gostado tanto de estudar e falar sobre isso?
Já tem pelo menos uns 6 anos que digo que quero ajudar as pessoas a viverem “relações mais saudáveis e satisfatórias” quando divulgo o meu trabalho, mas só no último ano descobri o termo “saúde social” e o quanto ele representa o que tenho feito esse tempo todo. Saúde social é sobre a qualidade das nossas relações interpessoais, incluindo aquelas que não são profundas. É um dos três pilares que sustentam a saúde geral de um ser humano (sendo os outros a física e a mental). Tenho gostado especialmente de falar sobre isso porque noto na fala de meus alunos e seguidores o quanto as pessoas estão precisando disso. Vivemos numa era de correria e cansaço, e o primeiro pratinho que deixamos cair é o das relações. Como consequência, vamos nos isolando e hoje se fala até de “epidemia de solidão”. A ironia é que o “pratinho” das relações é justamente o que nos ajuda a resolver ou amenizar a ansiedade, a depressão, a sensação de cabeça cheia e a solidão que parecem tão naturais ao nosso tempo.
4. Conta um pouco sobre a experiência de criar os cursos que você criou, como o Inventando Amor e agora, do Amizade Feita à mão? Qual é o seu objetivo com eles?
O Amizade Feita à Mão nasceu dos meus estudos sobre relações para além das românticas nos últimos anos e de um término de amizade muito doloroso que tive. Queria muito falar sobre tudo que eu estava aprendendo e refletindo sobre fazer e manter amigos e cultivar comunidade. As três primeiras turmas lotaram e tiveram um retorno muito positivo, além de uma nova demanda: conflitos em amizades. A resolução de conflitos também é uma forma de cultivar nossos vínculos, então criei mais uma aula, focada só nisso. A quarta edição do Amizade Feita à Mão, agora ampliada, está com inscrições abertas em laurapires.com/amizade . São aulas interativas ao vivo, online, sem gravação e com poucas vagas, para que, além de trabalhar os conceitos, a gente consiga aplicá-los de forma prática às questões de cada um. Estou apaixonada por esse curso e pelo impacto que ele já teve.
A Inventando o Amor é uma série de webinares gratuitos sobre crenças comuns sobre amor (por exemplo, “tem que durar para sempre” ou “é incondicional”) e como elas afetam negativamente o modo como vivemos nossas relações amorosas. Os episódios dessa série funcionam como uma introdução perfeita para o meu curso mais aprofundado sobre o tema, Desaprendendo Relações Amorosas (disponível em laurapires.com/dra). É um tema mais alinhado à minha pesquisa de mestrado, que foi onde tudo oficialmente começou.
5. Se você pudesse deixar uma mensagem para alguém que está começando agora a construir sua voz seja nas redes ou até mesmo na própria vida, fazendo as transições que você já fez, o que você diria?
Penso muito sobre criatividade e como dez pessoas podem consumir todo o mesmo conteúdo e ler toda a mesma bibliografia e, a partir disso, produzir dez conteúdos completamente diferentes. Toda produção criativa (e toda a nossa expressão no mundo) é fruto não só do que você consome, mas de toda a sua história de vida, tudo que torna você a pessoa que você é. E é isso que vale ser mostrado, tanto nas redes quanto na vida. Eu cresci me sentindo esquisita e tentando ser normal, mas hoje, com 38 anos, considero que as maiores qualidades e vantagens de ser quem sou são as esquisitices. Já dizia Caetano Veloso, “cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”. Então é isso que eu recomendo: não se deixe distrair pelo ruído, tentando reproduzir o que deu certo pra quem não é você, e seja o mais você possível, com suas dores e delícias.


