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O cuidado acontece no presente

O cuidado acontece no presente

Instituto Bem do Estar transforma o cuidado com a saúde mental em uma prioridade coletiva.

Por Giulia Amendola

Cuidar no bem do estar. Foi pensando nessa premissa que o Instituto Bem do Estar foi fundado em agosto de 2018 por Isabel Marçal e Milena Fanucchi. Desde então, já impactou diretamente mais de 8 mil pessoas, conscientizou mais de 1 milhão de indivíduos por meio de mais de 60 ações, que incluem eventos em diferentes territórios; atividades vivenciais e imersivas de letramento socioemocional; realização de pesquisas de opinião sobre saúde mental; e lançamento de livro. Como fonte de geração de renda – que é 100% reinvestida – a organização desenvolve programas sob demanda, tais como workshops, produtos e serviços para empresas e marcas, tendo por norte a missão de advogar pela redução do estigma em saúde mental. 

Isabel e Milena queriam contribuir para a formação de uma sociedade consciente de que a saúde mental é um direito humano e uma responsabilidade coletiva. A organização atua com uma metodologia proprietária para conduzir iniciativas que promovam o bem-estar mental por meio do letramento socioemocional e advocacy – especialmente para mulheres, jovens e pessoas LGBTQIAPN+ em vulnerabilidade social.

Se sentiu inspirado? Milena conversou com a Voz Futura sobre a criação da iniciativa.

De onde veio a ideia de criar o Instituto? 

A criação do Instituto Bem do Estar nasceu de uma busca muito pessoal — e muito compartilhada. Eu, Milena, sempre convivi com a ansiedade. Isabel, minha parceira nessa jornada, enfrentou duas depressões ao longo da vida. Nós duas sentíamos, de formas diferentes, que algo precisava mudar. Queríamos falar mais sobre saúde mental, ouvir mais, entender mais. Desejávamos que o cuidado com a mente se tornasse parte do cotidiano, não apenas um tema emergencial ou restrito a momentos de crise.

Foi a curiosidade — e uma vontade profunda de fazer diferente — que nos levou até a Psicologia Positiva. Uma abordagem que, ao invés de focar apenas na doença, convida a olhar para o bem-estar, as emoções positivas, os vínculos, os recursos internos. Mas, ao mesmo tempo, percebíamos como as informações sobre saúde mental ainda eram escassas, mal distribuídas e, muitas vezes, distantes das realidades sociais. Enquanto isso, os números de ansiedade e depressão cresciam de forma alarmante no Brasil e no mundo.

Foi assim que, em agosto de 2018, fundamos o Instituto Bem do Estar — uma organização sem fins lucrativos criada junto com um grupo plural de pessoas que logo se tornaram associadas, conselheiras e aliadas na missão. Nosso foco é a promoção em saúde mental.  O nome “Bem do Estar” surgiu justamente dessa reflexão: a importância de viver o agora, de acolher a impermanência e de lembrar que o cuidado acontece no presente. No aqui e agora. No estar. No bem do estar.

Quais foram as histórias mais transformadoras que vocês já vivenciaram dentro do Bem do Estar?

São muitas — e todas elas nos atravessam. Mas algumas nos marcaram: como jovens que participaram de uma jornada do estar, que se uniram para formar um clube do livro como forma de rede de apoio com outros jovens. Uma colunista voluntária da coluna “Estar na Pele”, que após um burnout começou a escrever contando suas experiências, com isso descobriu um novo sonho e lançou um livro compartilhando mais de seu mundo interno. Sem contar, os inúmeros depoimentos de participantes da ação Estar na Escuta que disseram que não sabiam que estavam precisando conversar e até “é a primeira vez que me perguntam como eu estou de verdade”. Cada uma dessas histórias nos lembra por que seguimos.

Quais são os maiores desafios logísticos ou institucionais que o projeto enfrenta atualmente?

Nosso maior desafio é estruturar crescimento sem perder coerência. Como trabalhamos com um modelo híbrido — de negócio social e ONG — enfrentamos tanto os limites do terceiro setor quanto a lógica de mercado. Captar recursos recorrentes, garantir equipe permanente e manter presença em territórios de vulnerabilidade exige fôlego. Também há o desafio de traduzir o impacto emocional e subjetivo das nossas ações em indicadores reconhecidos por financiadores. Ainda assim, seguimos — com estratégia, criatividade e muito compromisso.

Manter um projeto como esse requer energia e presença constante. De onde vem o combustível para continuar?

Do encontro. Da escuta. Das histórias que nos atravessam e dos silêncios que precisam de espaço. Vem também da equipe — formada majoritariamente por mulheres, pessoas LGBTQIAPN+ e profissionais que transformam suas vivências em potência de cuidado. Nosso combustível é saber que fazemos diferença na vida de quem talvez não encontrasse acolhimento em outro lugar. E também vem da indignação: com as desigualdades, com os retrocessos, com a solidão imposta. Cuidar é também resistir.

O que falta (ou atrapalha) para iniciativas como o Bem do Estar crescerem e se multiplicarem pelo Brasil?

Falta reconhecimento político da saúde mental como direito coletivo. Ainda vivemos num país onde o cuidado psíquico é tratado como luxo ou emergência, não como política pública contínua. Iniciativas como a nossa, que combinam impacto social, inovação e atuação territorial, ainda ficam à margem de políticas de fomento mais estruturadas. Além disso, há uma dificuldade de captar recursos para projetos que não têm um “produto vendável”, mas sim processos profundos de transformação. O que atrapalha não é a falta de potência, é a falta de estrutura para sustentá-la.

Como vocês medem o impacto do projeto, além dos números? O que é “impacto” para vocês? 

Para nós, o impacto é a transformação percebida. É quando alguém nomeia uma dor que nunca havia dito em voz alta. É quando um grupo cria vínculos reais a partir de uma vivência. É quando uma comunidade se organiza para cuidar de si. Medimos impacto com indicadores estruturados — temos um Book de Indicadores com metas, fontes e metodologias —, mas também com escuta, relatos e presença. O que nos move não são só os dados, mas o que os dados não conseguem contar.

Milena Fanucchi

Conheça as iniciativas de destaque do IBE:

Estar na Escuta é uma das ações mais simbólicas do Instituto, que visa proporcionar um momento de promoção da saúde mental de forma coletiva, conscientização e acolhimento individual. Trata-se de uma ação que leva escuta ativa gratuita para espaços públicos e eventos populares, como a Parada do Orgulho LGBTQIAPN+. A ação reúne voluntários da saúde mental e promove acolhimento, escuta sem julgamento e conexão. Em junho de 2025, realizamos a 10ª edição do Estar na Escuta na Av. Paulista, reforçando o compromisso com o cuidado acessível e o direito ao bem-estar emocional em todos os territórios.

Já o Jornadas e Vivências, que são encontros imersivos e transformadores que estimulam o desenvolvimento de habilidades socioemocionais, através da arte e de práticas de autocuidado. Nesses momentos, o IBE oferece um espaço seguro, acolhedor e de pertencimento para pessoas em situação de vulnerabilidade; além de levar ferramentas para reconhecer, compreender e gerenciar emoções, impulsionando o autoconhecimento e a resiliência. A Jornada tem 12 encontros de 3h e as Vivências são atividades de 2h a 8h. 

Quer saber como apoiar? Clique aqui!

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