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Quando a parceria vira força

Quando a parceria vira força

Rafa e Patty transformaram diferenças culturais em uma das duplas mais sólidas do beach tennis.

Por Giulia Amendola

No esporte de alto rendimento, uma dupla bem-sucedida raramente é resultado apenas de talento técnico. É também fruto de confiança, diálogo e capacidade de crescer junto nos momentos difíceis. Foi exatamente assim que Rafa Miiller e Patty Diaz construíram uma das parcerias mais consistentes do beach tennis.

Vindas de países e histórias diferentes, as duas aprenderam a transformar contrastes em complemento dentro de quadra. Entre vitórias, derrotas e um circuito cada vez mais exigente, Rafa e Patty descobriram que a verdadeira força de uma dupla não está apenas no jogo, mas na forma como cada uma ajuda a outra a evoluir.

  1. Vocês vêm de países, culturas e histórias diferentes. O que faz essa dupla funcionar tão bem há tanto tempo?

Rafa Miiller:  Apesar de países diferentes, eu acho a cultura muito parecida. Acho que o que faz funcionar bem são os mesmos pensamentos sobre disciplina, entrega, dedicação, integridade, entre outros. Além do nosso jogo se complementar.

Patty Diaz:   Culturalmente, eu acho que Brasil e Venezuela parecem muito. Então eu acho que isso nunca gerou conflito. Foi sempre muito fácil. Encaixou muito desde o início e histórias, com certeza, a gente vem de histórias diferentes e nós temos personalidades fortes e muito diferentes. Então eu acho que esse tem sido o nosso maior desafio. Mas, com o tempo e com vontade de fazer melhor, eu acho que hoje em dia a gente enxerga que as nossas diferenças não são tão negativas e sim uma coisa que faz com que a gente se complemente melhor.

  1. O que aprenderam uma com a outra que vai muito além do esporte?

Rafa Miiller: Eu sinto que me tornei uma pessoa melhor. A Patty é um exemplo de resiliência, de não desistir mesmo quando as coisas não estão indo bem, de acreditar até o último momento. (Eu ainda estou aprendendo) kkkkk

Patty Diaz: Eu acho que, se tem uma coisa que eu tenho aprendido da Rafa, que vai além do esporte, é a não deixar que a minha confiança em mim mesma se afete por fatores externos e não procurar essa minha confiança em outras pessoas, e achar ela por mim mesma. Tipo, eu vejo ela independente, se ninguém fala pra ela o quanto ela é boa, o quanto ela é forte, ela acredita. Ela não tá nem aí para o que as pessoas falam, ela é bem determinada e não deixa essa confiança ser abalada por nada. Eu me afeto mais e, vendo ela com essa determinação, me ajuda muito. É o meu exemplo nesse sentido.

  1. Como vocês lidam com os altos e baixos emocionais de um circuito tão intenso e competitivo?

Rafa Miiller: Temos tentado conversar cada vez mais sobre os jogos e sobre o que precisamos melhorar, e temos o nosso treinador e pessoas próximas que nos ajudam na comunicação.

Patty Diaz: Eu acho que a gente lida com os altos e baixos como duas pessoas normais que sentem e se afetam. A gente sente muito a vitória, fica muito feliz e sente a derrota, e dói muito. Porque a gente se importa realmente, a gente faz um negócio onde a gente se entrega todos os dias e quer o nosso melhor e sabe o quanto a gente pode dar.

E é frustrante lidar com momentos ruins, com derrotas, principalmente quando a gente não consegue tirar o nosso melhor na quadra. Mas eu acho que, com o tempo, você aprende que essas emoções intensas devem durar pouco. A gente tem que focar mais no processo, curtir o processo, ser grato pelo que a gente faz, pelo que a gente tem, pelo que a gente consegue fazer e não deixar se afetar tanto com essas emoções intensas, nem na derrota, nem na vitória.

  1. Patty, como foi construir sua carreira longe da Venezuela? 

Patty Diaz: Construir a minha carreira longe do meu país foi necessário, infelizmente. Meu país nunca teve estrutura para atletas de alto rendimento. Nem estrutura, nem cultura de apoio. Tem sido muito difícil pelo fato de que a minha família sempre esteve longe de mim. Gostaria de ter bem mais tempo para compartilhar com eles. Gostaria de jogar mais vezes em casa, mas foi uma escolha minha. Eu quis ser atleta, quis ser atleta de beach tennis e só vi como opção chegar a ter sucesso saindo da Venezuela, mas é muito difícil. Gostaria que isso mudasse, gostaria que, no futuro, a gente consiga ter mais torneios na Venezuela, com certeza.

  1. Rafa, como é fazer parte dessa dupla, que é uma das grandes referências do Brasil?

Rafa Miiler: É muito bom e muito desafiador (rsrs). Temos características muito diferentes, mas ela é a pequena gigante.

  1. Como se dá a organização financeira de vocês como atletas no beach tennis, considerando ainda a falta de patrocínios em esporte femininos? 

Rafa Miiller: Mesclamos premiações de torneios, patrocínios e eventos. Não dá pra viver só de um ou só de outro.

Patty Diaz: A organização financeira é um desafio. Hoje em dia, a gente tem um assessor financeiro, uma pessoa de confiança, em quem a gente confia muito e que é muito boa. Mas, com certeza, quem vive do beach tennis não vive só de premiação de torneios, porque a premiação de torneios ainda é muito baixa. Os custos são muito altos, principalmente para os atletas que investem em equipe: fisioterapeuta, treinador, treinador físico.

Então, a gente sempre torce para que mais empresas se unam a esse esporte e tornem o beach tennis um esporte que faça possível que atletas se dediquem 100% a ser beach tenistas. Hoje em dia, eu poderia dizer que, no máximo, o top 10 só se dedica a jogar torneios sem precisar dar aula. Talvez eu esteja falando top 10 e ainda esteja falhando, porque talvez tenha atletas do top 10 que ainda precisem dar aulas. Então, espero que essa realidade realmente mude.

  1. Que tipo de inspiração vocês querem deixar para as meninas que começam hoje no beach tennis?

Rafa Miiller:  Primeiro que, sem trabalho e sem esforço, é muito difícil alcançar os objetivos. Os resultados são apenas uma consequência do processo. E ter humildade para saber que o processo nunca termina.

Patty Diaz: Eu gostaria de ser uma inspiração em termos de dedicação. A minha dedicação no dia a dia por chegar a ser a minha melhor versão. Eu gostaria que os atletas jovens façam essa procura diária de melhorar a cada dia, tanto dentro de quadra como pessoa. Eu acho que o esporte te mostra que realmente todo mundo é igual, independente do país, independente da posição financeira. Dentro da quadra, todos somos iguais e é muito legal isso para as novas gerações, essa escola de valores.

Então, se tem alguma coisa que eu gostaria de deixar é a minha dedicação. Essa pessoa que nunca cansou de lutar, de evoluir e de entregar tudo de si.

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