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Voz e o Olhar: um encontro marcado com a arte

Voz e o Olhar: um encontro marcado com a arte

Onde o corpo recupera o pulso.

Por Camilla Bloisa, arquiteta, professora e art advisor

Hoje, no nosso mundo saturado pelo digital, talvez o encontro com arte seja uma das poucas experiências insubstituíveis. Claro, que podemos ter acesso a imagem de uma obra,  visitar o museu por uma tela, ou ainda só garantir o click para o feed. Mas estar diante de uma obra de arte é oooooutra história.

E a ciência comprovou:  não é apenas a  “arte faz bem” de uma forma genérica, mas a arte (e museus) como uma recomendação de saúde.  Estudos médicos recentes (finalizados em 2025) já tratam a arte como prescrição médica. Museus e concertos entraram para os protocolos de bem-estar mental e prevenção de estresse, com efeitos a curto prazo, inclusive (e especialmente) na população jovem.

O bem-estar aqui não vem da informação que a obra oferece, mas sim do estado corporal que ativa: atenção desacelerada, percepção da presença e sentidos ampliados. A arte não atua apenas no campo simbólico, ela regula o corpo. É o que estuda a Neuroestética. Ela busca respostas para o que acontece em nós quando encontramos uma obra, analisando como o cérebro e o corpo respondem fisicamente: o pulso, a respiração e aquele estado de imersão onde o tempo parece suspenso. 

Um “aqui e agora” (para usar o mantra de muitas práticas de yoga e mindfulness) que só existe nesse encontro físico. Seja de uma obra de arte ou do show do seu músico favorito. 

Walter Benjamin chamava isso de Aura, um termo que a garotada adora usar sem saber que cita um pensador alemão do século XX. A aura é a experiência da presença, de estar diante de uma obra original. É a presença, única, no tempo e no espaço. O aqui e agora da obra.

 Ninguém tem mais aura que a Mona Lisa: apesar da sua imagem ser uma das mais conhecidas no mundo, o encontro com a original tem filas intermináveis e vidros blindados que só exaltam esse momento. 

Para Benjamin, o encontro com a arte é um processo de envolvimento total: o visitante participa, sente, interpreta e cria relações com o que vê. Isso transforma tanto o significado da obra quanto o do próprio espectador.

Vamos à mitologia, porque desde sempre ela é uma das formas mais potentes de explicar o mundo. Nesse caso, a história de Pigmaleão e Galateia: um artista que se apaixona pela sua própria criação. Ou seja, um encontro fulminante com a arte. 

Contada por Ovídio, poeta romano que transformou mitos em narrativas, a história acontece na ilha de Chipre –  um ponto de cruzamento cultural no leste do Mediterrâneo, entre a Europa, o Oriente Médio e o Norte da África.

Pigmaleão era um escultor prolífico e muito talentoso. Desiludido com as mulheres da sua época, o artista se excluiu da sociedade para mergulhar no trabalho. Decidiu então criar uma mulher perfeita, já que não encontrava nenhuma na realidade.

Quando completou a obra, tamanha era sua perfeição que parecia viva. Seu nome: Galateia.

Pigmaleão fica obcecado. Passa a vesti-la, tocá-la e até dormir ao seu lado. Durante a festa de Afrodite, ele faz um pedido: que sua esposa seja semelhante à escultura que criou. A deusa, comovida pelo desejo, consente. Ao retornar para casa, Pigmaleão toca novamente a obra e ela ganha vida: o marfim amolece, o corpo aquece e o pulso bate. Galateia respira viva.

Pigmaleão e Galateia se unem, e dessa união nasce Pafos, uma figura mítica que dá nome à cidade de Paphos, em Chipre.

Aqui, a vida da obra nasce no encontro com o espectador, e não no gesto do artista, pois Pigmaleão só se apaixona depois de terminá-la.  E essa história, naturalmente, é bem melhor contada em uma obra de arte, como fez o magnífico Jean-Léon Gérôme em 1890.

Veja como ele recria esse exato momento em que Galatea ganha vida: as pernas ainda frias, duras e brancas como o mármore, enquanto o tronco e a cabeça já surgem rosados, pulsando com vida. É uma linda metáfora para esse encontro com a arte, que nasce de um desejo. Muitas vezes, a arte nos diz mais sobre nós do que sobre a obra em si. 

Quem leva esse encontro com arte para além do olhar, para o toque real é a nossa maravilhosa Lygia Clark com seus fantásticos Bichos. Obras desenvolvidas na década de 1960, são chapas de alumínio articuladas com dobradiças, feitas para serem manipuladas e sentidas. Uma obra que só faz sentido, e ganha vida, quando é tocada. Lygia introduz o encontro sensorial na arte, foi tão revolucionária que está nos principais museus de arte moderna do mundo. 

Mas, curiosamente, como a original tem a tal a aura, hoje só podemos manipular as réplicas. O que será que Lygia pensaria disso? 

Às vezes, o encontro não é com um objeto, mas com uma ideia de pertencimento ou de um lugar. É o que acontece em Terra Afefé, em Ibicoara, na Chapada da Diamantina (BA). Idealizada pela artista Rose Afefé, a obra é uma microcidade viva que vem sendo construída desde 2018 em colaboração com a comunidade local. Feita de adobe e tijolo de barro cru, ela parte de saberes locais e propõe um olhar sensível sobre o interior da Bahia, com o intuito de afirmar, questionar e valorizar o território e seus saberes. Hoje, Afefé é um encontro de  residências artísticas e convivência coletiva que questiona as fronteiras entre arte e vida.

Seja com imagens, objetos ou territórios, esses encontros únicos mostram por que esse encontro com a arte importa. Pode ser uma sensação de unicidade, de história acumulada, de ritual. Um (re)encontro com o passado, vivido no hoje. Prescrever arte é, no fundo, garantir que a gente não esqueça de estar presente. No meio do caos digital, o museu vira o lugar onde o tempo para e o pulso, finalmente, volta para o ritmo certo. 

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