Por Giulia Amendola
Em um mundo que corre, mede e performa o tempo o tempo todo, escolher desacelerar virou quase um ato de rebeldia. Mariana, criadora do perfil Tempo de Qualidade.cc, construiu um espaço que convida à presença, ao cuidado com o agora e à reconexão com aquilo que não cabe em notificações ou metas. Mais do que falar sobre pausa, ela propõe uma mudança de olhar: tempo não como algo a ser vencido, mas como algo a ser vivido.
Nesta conversa com a Voz Futura, Mariana fala sobre a origem do projeto, a urgência de resgatar experiências mais analógicas e o impacto real que pequenas escolhas conscientes podem ter na saúde mental, nas relações e na forma como atravessamos a vida. Um convite delicado para repensar prioridades, ritmos e o verdadeiro significado de qualidade quando falamos de tempo
O nome “Tempo de Qualidade” já carrega uma provocação forte. Em que momento você sentiu que o tempo estava sendo vivido, mas não sentido?
Essa coisa do nome é uma questão mesmo. Dei esse nome “Tempo de Qualidade” pro meu projeto na falta de outro melhor que desse o recado rápido. Mas eu acho esse nome ruim, na verdade (risos). Até escrevi sobre isso outro dia. Disse que, na verdade, não existe isso de tempo de qualidade. A gente fala isso quando quer justificar estar passando pouco tempo com a gente mesmo ou com quem a gente ama. Sabe aquela coisa de “eu fico pouco com meu filho, mas é tempo de qualidade porque a gente realmente está presente?”. Não que não seja importante estar presente. Mas não pode ser só isso. A gente precisa de “tempo de quantidade” também com as pessoas. Para criar laços mais longos, mais profundos e de intimidade, precisamos das duas coisas: quantidade e qualidade. É preciso aquele tempo de silêncio, de vazio, de tédio. Acho que isso está faltando muito. Não dá para querer ser produtivo com tudo. Quando a gente está tentando otimizar tudo, acha que está ganhando tempo, mas, na verdade, estamos só comprimindo tempo. Não estamos experimentando muito o tempo. E, afinal, a gente otimiza tanto para que? Para usar o resto do tempo para que? Trabalhar mais?
Como surgiu a ideia do projeto e qual dor pessoal ou coletiva ele tenta responder?
Logo que meu filho nasceu, eu comecei a perceber que minha relação com o tempo tinha mudado completamente. O puerpério obriga a gente a desacelerar e essa questão do tempo, que já estava latente desde a pandemia, explodiu na minha cabeça. O tempo nunca foi tão valioso para mim. E eu pensava que não era possível que eu não tivesse tempo para as coisas que me importavam e eu queria fazer, sabe? Que fosse tudo passando tão rápido e eu tão envolvida com trabalho, cuidado e esse universo digital cheio de distrações e distorções. Quando via já tinha passado o dia inteiro, a semana inteira, o ano inteiro e não tinha encontrado quem queria encontrar, começado o que queria começar, etc.
Era um paradoxo porque eu sentia que estava fazendo mil coisas ao mesmo tempo, mas quando me dava conta, não tinha sobrado tempo para o que deveria ser o essencial: me cuidar, estar com as pessoas, curtir as coisas. Foi aí que eu fiquei com vontade de escrever sobre isso. Até porque imaginava que não era um sentimento só meu. Parecia que eu não conseguia desacelerar porque não era só eu que estava acelerada. Era basicamente o mundo inteiro.
A primeira coisa que veio foi a página no Instagram. Fiquei um ano fazendo carrosséis lá, basicamente, enquanto amamentava meu bebê. Era só para colocar umas angústias para fora mesmo e tentar articular algumas ideias. Depois, eu conheci esse universo das newsletters e achei que tinha tudo a ver transformar o projeto em uma. Vai fazer um ano que estou focada lá no Substack e o Instagram ficou em segundo plano. Fazia muito mais sentido falar sobre essas questões em textos longos, trazendo referências, com mais debates e menos algoritmos.
O que mais te surpreende na relação das pessoas com o próprio tempo hoje?
Acho que esse paradoxo de estar todo mundo acelerado, mas sem tempo para nada. As pessoas aceleram áudio no Whatsapp e vídeo no YouTube, mas estão sempre pedindo desculpas por não ver os amigos. Usam inteligência artificial até para escolher a roupa, mas não conseguem parar para ler um livro. Em tese, temos um monte de recursos e ferramentas para “salvar” tempo, mas na prática ninguém parece ter tempo. E estamos sempre cansados e sem paciência.
Na sua visão, por que desacelerar virou algo tão difícil e que parece quase impossível?
Eu acho que parece impossível justamente porque não parte da gente, parte do ambiente externo. A gente trabalha demais porque a cobrança é cada vez maior por produtividade. As empresas aproveitaram o trabalho remoto na pandemia para perturbar as pessoas fora do expediente e institucionalizar hora extra em casa respondendo mensagem. A inteligência artificial, que veio com a promessa de economizar tempo, na verdade, aumentou a pressão por produtividade e criou demandas novas de aprendizagem, além de um medo constante nos empregados de serem substituídos, que os faz sentir que precisam sempre entregar mais. Ao mesmo tempo, a gente passa um tempo absurdo nas redes sociais. Além de elas estarem cada vez mais viciantes e serem fonte de prazer instantâneo, muita gente precisa delas hoje para trabalhar e vender seu peixe. E ainda tem uma pressão estética muito forte nas redes, então muita gente gasta muito tempo tentando seguir os padrões, achando que precisa ganhar mais dinheiro para consumir tudo que é exibido ali também. As pessoas se comparam o tempo inteiro e acham que precisam fazer cada vez mais. Parece que não dá mais para ter uma vida simples, uma barriguinha, uma ruga, um cabelo fora do lugar. Para completar, o smartphone faz a gente não ter momentos de pausa. Sabe quando você fazia uma viagem de ônibus e ficava olhando pela janela pensando em nada ou quando ficava uma hora com uma amiga no telefone só jogando conversa fora? Eu não vejo mais ninguém fazer isso. As pessoas pegam o celular nos poucos segundos de espera pelo elevador ou pela comida no microondas.
Que conselho você daria para alguém que sente que nunca tem tempo, mas quer começar a viver com mais presença?
Primeiro, acho que é importante reforçar que não é um problema individual, então a gente pode tentar melhorar, mas não vai resolver sozinho. Mas acho que dá para atacar essa questão da tecnologia: colocar alguns limites no uso do smartphone e das redes e ter mais propósito nas coisas que se está fazendo. Planejar um pouco o que vai fazer com o tempo ajuda também. Não estou falando de se planejar para ser produtivo, mas para não cair naquele automático de “fiquei 2 horas no TikTok e nem lembro do que vi”, sabe? Você pode planejar ficar 2 horas fazendo colagem, se você gosta disso. O que acontece é que às vezes você quer fazer colagem, mas quando vê ficou 2 horas no TikTok. Ser mais intencional nesse sentido. Também é importante — na medida do possível — colocar alguns limites no que é tempo de trabalho e o que não é. Ir trabalhando no meio de tudo gera um caos e funciona muito menos do que ter um tempo definido. Também acho que é essencial fazer uma reflexão do que é realmente importante e inegociável e do que está sendo só um ladrão de atenção na sua rotina. Por fim, eu ando muito fã do analógico. Um livro, um caderno, uma agenda, um relógio de pulso. Parece loucura, mas são coisas que me ajudam a ficar menos no celular. E menos presa da rodinha do hamster dos algoritmos.

