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Rebeca Silva: a força que nasce da queda

Rebeca Silva: a força que nasce da queda

A construção de uma atleta por dentro e por fora.

Por Giulia Amendola, diretora de conteúdo da Voz Futura

Rebeca Silva aprendeu cedo que vencer não é apenas chegar primeiro, levantar medalhas ou ouvir o próprio nome ecoar em uma arena. Campeã paralímpica e referência no judô brasileiro, ela construiu sua trajetória a partir de desafios profundos, atravessando dores físicas, emocionais e estruturais que exigiram muito mais do que força muscular. Exigiram consciência, coragem e um compromisso diário consigo mesma.

Nesta entrevista para a Voz Futura, Rebeca compartilha os bastidores de uma carreira de alto rendimento: como lida com pressão, como organiza seus sonhos dentro e fora do esporte e como aprendeu a cuidar da própria saúde mental em um ambiente que cobra excelência o tempo todo. Uma conversa sobre disciplina, vulnerabilidade e futuro, porque, para quem vive o esporte de verdade, a maior vitória é continuar inteiro no caminho…

  1. O que mais mudou em você depois de se tornar campeã paralímpica e mundial?

Acredito que seja o peso do título, a responsabilidade e o exemplo que isso representa para quem está vindo. Hoje sinto ainda mais vontade de ganhar, de continuar vencendo. Ao mesmo tempo, sei que os adversários sempre vão entrar com o objetivo de nos vencer e isso eu sinto claramente. Essa combinação aumenta o nível de exigência. Por isso, preciso manter a calma, seguir concentrada nos treinos e focar no processo. É assim que continuo evoluindo e buscando novas vitórias.

  1. Em quais momentos da sua vida você mais precisou acreditar em si mesma?

Acredito que, logo após os Jogos Paralímpicos, eu tenha sofrido muito com burnout. Sem conseguir descansar, espairecer. Foi um momento em que precisei acreditar em mim como atleta, levantar a cabeça, respirar fundo e seguir. Descansar, claro, mas principalmente entender quem eu era. Eu era campeã paralímpica, mas… o que mais? Naquele período, acreditar em mim foi fundamental. Assim como em 2021, quando não fui para as Paralimpíadas. Ali eu precisei parar, respirar e refletir com clareza sobre o que precisava fazer para estar nos próximos Jogos. Esses momentos difíceis me ensinaram que mais do que resultados, é a capacidade de se reconstruir que mantém um atleta no alto nível.

  1. O que o esporte te ensinou sobre limites e possibilidades?

Sobre limites é entender que nem sempre o corpo vai estar tão forte quanto a mente e que, também em alguns momentos a mente não vai estar tão forte quanto o corpo. Por isso, é preciso fortalecer os dois juntos. O esporte traz também uma responsabilidade consigo mesma: treinar sempre, dar o máximo em cada treino, cuidar da alimentação, respeitar o descanso. O esporte ensina exatamente isso a ter mais responsabilidade com a própria rotina, com o próprio processo e com quem você quer se tornar.

  1. Sabemos dos desafios financeiros de atuar no esporte, sendo mulher e dentro no universo paralímpico. Como você se organiza e como você acha que as coisas poderiam ser diferentes? 

 A parte financeira é complicada em praticamente qualquer esporte no Brasil que não seja o futebol. Por isso, é fundamental que a gente continue contando com o apoio do governo, do Time São Paulo e de projetos como a Bolsa Atleta, que são os que realmente nos sustentam. Ao mesmo tempo, é muito importante que as empresas ampliem o olhar para o esporte paralímpico que nos contratem para palestras, que apoiem nossos projetos e entendam o valor da nossa trajetória.

Da minha parte, eu tento me organizar sempre, me programando com os gastos e mantendo responsabilidade financeira, porque isso também faz parte da vida de um atleta.

  1. Como você lida com a responsabilidade de ser uma referência?

Eu acho que lido bem com isso. Sempre procuro conversar com os atletas mais jovens, orientar, trocar ideias, estar próxima de quem está chegando agora. Seja no dia a dia ou por meio das palestras, tento passar a mensagem de que o resultado nem sempre vem de imediato. Às vezes ele demora, e tudo bem. O importante é não desistir, continuar se dedicando e confiando no processo.

  1. Que tipo de futuro você sonha construir fora do tatame?

Penso em me aposentar bem no judô, com bons resultados. Ao mesmo tempo, quero construir minha vida fora do esporte, claro. Já pensei, por exemplo, na possibilidade de ter uma academia, continuar dando aula e incentivando para que novos atletas surjam. Mas nada é oficial ainda. Hoje sigo vivendo minha vida como atleta, mas com esses pensamentos sobre o futuro também fazendo parte do meu caminho.

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