Por Pedro Pirim Rodrigues, cofundador da Voz Futura
Tem uma entrevista linda do Mano Brown com o Rabino Ventura no Mano a Mano. Em determinado momento, Mano Brown pergunta sobre as diferenças entre as religiões e o Rabino responde algo mais ou menos nessas linhas: “Por que olhamos tanto para as diferenças entre as religiões se elas têm muito mais semelhanças do que diferenças?”. Eu vejo isso como um vício da sociedade contemporânea – comparar para repelir – eu estou certo x você está errado. Essa frase do Rabino não fala só sobre religião. Fale de política, de gênero, de geração, de classe social. Fala da gente.
Eu não sei exatamente quando começamos a nos esforçar tanto para provar que somos diferentes uns dos outros. Existem razões históricas, primitivas, psicológicas. O ser humano sempre precisou se organizar em grupos para sobreviver. Mas uma coisa é reconhecer diferenças, outra é transformar diferenças em trincheiras. Quando se medir pela diferença vira o status quo, a capacidade de sermos empáticos começa a morrer.
Nos últimos tempos, o algoritmo tem me servido uma avalanche de conteúdos que reforçam exatamente isso: o que homens deveriam fazer para serem mais homens, o que mulheres deveriam fazer para serem mais desejáveis ou “agradáveis”; o que jovens precisam fazer para não fracassarem; o que empreendedores devem fazer para vencer; o que pais e mães precisam fazer para não traumatizarem seus filhos. Como se a gente operasse por um manual de práticas. Sempre um ajuste. Sempre uma correção. Como se existisse um modelo ideal de ser humano a ser seguido. Mas não existe.
O que existe é uma coleção de dores muito parecidas, disfarçadas por narrativas e contextos diferentes. No fundo, me parece que estamos todos tentando lidar com insegurança, medo de rejeição, sensação de inadequação, necessidade de pertencimento. Só que, ao invés de nos encontrarmos no meio do caminho para a conciliação entramos em estado de competição para provar que um é melhor que o outro. Quem sofre mais. Quem está mais certo. Quem é mais vítima. Quem é mais forte. E assim vamos nos afastando.
Eu não sei nomear exatamente que dor é essa que atravessa tanta gente ao mesmo tempo. Mas talvez o primeiro passo não seja explicá-la, e sim reconhecê-la. Sem competição. Sem ranking de sofrimento. Sem transformar vulnerabilidade em argumento de debate. A minha tentativa aqui não é oferecer dicas sobre como homens ou mulheres devem agir, como líderes devem liderar ou como jovens devem se comportar. É propor um pequeno deslocamento de olhar. E se, antes de procurar a diferença, a gente procurasse a semelhança? E se, antes de corrigir o outro, a gente tentasse compreendê-lo e acolhê-lo?
A VOZ Futura nasceu, entre outras coisas, desse incômodo: a sensação de que estamos sendo constantemente alimentados por exemplos que nos dividem, nos inflam, nos colocam uns contra os outros. Por isso acredito tanto na força de contar boas histórias sobre bons exemplos. Não porque essas pessoas sejam perfeitas, mas porque, ao agir com empatia, coragem, curiosidade e responsabilidade, elas nos lembram de algo essencial: é possível conviver sem aniquilar.
Talvez a pergunta do Rabino sirva como provocação para nós também. Por que insistimos tanto no que nos separa, se há tanto que nos aproxima? No fim das contas, antes de sermos homens ou mulheres, jovens ou velhos, religiosos ou ateus, liberais ou conservadores, somos gente. E gente sente medo, sente dor, sente amor, sente falta. Talvez seja nesse território comum, do imperfeito – leia-se: humano – que possamos, finalmente, nos encontrar no meio do caminho.


