Por Pedro Pirim Rodrigues, cofundador da Voz Futura
No último Carnaval do Rio de Janeiro, a Unidos do Viradouro cruzou a Sapucaí como campeã homenageando o Mestre Ciça. E que lindo é quando a gente decide celebrar alguém enquanto ele ainda pode ouvir, ver, sentir. Existe algo profundamente transformador em aplaudir em vida.
A gente aprendeu a exaltar depois que perde. Parece que precisamos do luto para reconhecer a grandeza. Como se o distanciamento da morte nos desse permissão para falar bem, para agradecer, para admitir o quanto aquela pessoa foi importante. Mas por que esperamos? Por que não fazemos isso antes? Por que não dizemos agora? Por que deixamos sempre para depois? Será que temos vergonha de admitir o quanto sentimos por aquela pessoa?
Existe um fenômeno estranho, e um tanto perturbador, dos nossos tempos: pessoas que passam anos sendo ignoradas, às vezes até criticadas, ou que até poderiam ter alguma fama, mas que, depois de morrer, ganham milhares (ou milhões) de seguidores nas redes sociais. Perfis que estavam “normais” explodem da noite para o dia.
Comentários se multiplicam. Homenagens surgem do nada. Como se a morte desse um selo de validação que a vida nunca conseguiu conceder. O que isso diz sobre nós? Será que temos dificuldade de reconhecer a grandeza enquanto ela está viva, imperfeita, humana, acessível e possível?
O Carnaval da Unidos do Viradouro foi, para além do espetáculo, um gesto gigantesco: reconhecer um mestre enquanto ele ainda está ali, respirando o mesmo ar, vibrando na mesma avenida, degustando do próprio nome ao ser cantado por milhares de bocas. Isso muda tudo. Naquele momento, além de contar uma história de uma pessoa incrível, o povo pode devolver para essa pessoa a consciência do impacto que ela tem nas vidas de milhares de outras.
Escrevendo e revendo os desfiles, lembrei do Ney Matogrosso. Quantas gerações ele atravessou. Quantas camadas de coragem ele ajudou a construir em um país que nunca soube lidar com liberdade, com expressão, com diferença. O Ney ainda está aqui. Criando, cantando, provocando. E quantas vezes a gente para, de fato, pra dizer: obrigado por existir no nosso tempo, Ney.
A mesma coisa eu sinto quando penso na Liniker, no Emicida, Jota Pe e tantos outros artistas que estão moldando o imaginário coletivo agora, na nossa cara. Eles não são apenas “talentos do momento”. São referências vivas. São espelhos possíveis. É pra criança, jovem ou adulto ver, inspirar, respirar, pensar e dizer pra si: Eu também posso sonhar, posso acreditar, e um dia vou chegar lá. (Chegar lá não precisa ser necessariamente no palco de um artista, mas no seu próprio palco, que seja a mesa de jantar na sua casa com a sua família). Essas pessoas são protagonistas de uma história que ainda está sendo escrita e que a gente tem o privilégio de acompanhar em tempo real.
E a provocação mais importante aqui não é sobre eles. É sobre nós. Quantas vezes você se reconhece? Quantas vezes você celebra as próprias conquistas, por menores que sejam? A gente é rápido para se cobrar e lento para se elogiar. Espera a validação externa, o aplauso, o número, o prêmio, o reconhecimento oficial como se isso fosse um validador necessário para darmos um próximo passo rumo a construção da nossa jornada. E enquanto isso, deixamos passar o milagre cotidiano de estar construindo alguma coisa e de simplesmente estarmos vivos.
Eu tive uma chefe, Luciana Rosas, que me ensinou algo simples e poderoso. Eu a via constantemente elogiar outras pessoas. Promover o bem. Era quase um hábito. Ela, inclusive, sugeria que nos elogiássemos mais uns aos outros. Que falássemos em voz alta aquilo que admiramos. Que promovêssemos o bem com intenção. Parece pequeno, mas não é. Elogiar é um ato de coragem. Agradecer é um ato de humildade. Dizer “eu te amo” é um ato de vulnerabilidade. E todos esses atos são formas de homenagem em vida.
O que mais sinto falta na nossa cultura é essa prática constante de reconhecimento. Não só dos grandes artistas, não só dos mestres da avenida, mas do amigo que está do lado, do parceiro de trabalho, da mãe, do pai, do professor, da equipe. E de nós mesmos. Porque, no fim das contas, a maior estranheza não é alguém ganhar milhares de seguidores depois que morre. A maior estranheza é a gente não conseguir oferecer algumas palavras sinceras enquanto a pessoa ainda pode responder.
A homenagem em vida é um convite: celebre mais, agradeça mais, elogie mais, ame mais. E, principalmente, reconheça-se como protagonista da própria história. Não espere a ausência para perceber a presença. Não espere o fim para entender o valor. Aprecie e aproveite o caminho.
A verdadeira revolução é essa: homenagear todos os dias – enquanto ainda há vida. Você já disse eu te amo hoje para quem você ama de verdade?

