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O silencioso preço de querer agradar

O silencioso preço de querer agradar

e porque você não deveria pagá-lo.

Por Igor Monteiro, consultor de aprendizagem corporativa e especialista em design instrucional.

Meu artigo de hoje é altamente recomendado para quem sustenta um sorriso largo no rosto, uma calma aparente de quem transmite um sonoro “está tudo bem”, enquanto engole à seco incontáveis insatisfações associadas a necessidades não reconhecidas, nem tampouco atendidas.

Que se apresenta sempre de forma prestativa. Emocionalmente disponível. Consegue formular os melhores conselhos para os outros mas sabe realmente muito pouco sobre seus próprios sonhos e desejos. 

Sabe como fazer o outro feliz – e se empenha para isso. 

Mas desconhece como despertar em si mesmo essa satisfação pessoal. 

Que “se dá bem com todo mundo” – mas que, de uns tempos para cá, não vem se dando bem consigo mesmo. Que facilmente diz “sim” para os outros enquanto repetidas vezes diz “não” para si mesmo. 

Meu artigo de hoje é para quem, assim como eu, foi reconhecido incontáveis vezes como o bonzinho ou a boazinha. E tem despertado para o peso de carregar esse título. 

Se reconheceu nessa história?

O tema desse artigo é exatamente o alto preço silencioso que pagamos por sempre querer agradar.

Começa na infância

Não é de hoje que carregamos essa programação mental. 

Na verdade, essa é uma construção que costuma começar na infância. 

Ser aceita e ser amada são algumas das necessidades mais básicas de toda criança. 

Essa sensação de ser reconhecida e valorizada retroalimenta nossa autoconfiança e autoestima ainda nos primeiros anos de vida e são, portanto, questões decisivas para a construção da nossa identidade e personalidade.

Quando crianças, temos algumas formas de alcançar esse desejo intrínseco de receber amor, carinho e atenção dos adultos. 

Alguns vão pelo caminho de serem mais desinibidos, engraçados, brincalhões. 

Outros, são carinhosos, afetivos, extremamente dóceis, de abraço fácil. 

Já para os ‘bonzinhos’, um bom atalho descoberto desde cedo para alcançar esse desejo subconsciente de receber amor, carinho e atenção é justamente ser incrivelmente obediente – e procurar não incomodar nem dar trabalho. 

Bonzinhos podem ser aqueles que choram escondidos, têm muito medo de tirar uma nota ruim na escola e desapontar seus pais, cedem facilmente seus brinquedos para outras crianças e dizem “sim” até para convites que, na verdade, não representam exatamente o que querem. 

Afinal, desagradar os adultos por perto por revelar desejos e inclinações próprias pode representar menos amor, menos aceitação. Uma lógica perigosa de auto sacrifício reforçada por alguns elogios que todo o bonzinho já escutou, como por exemplo:

  • ele(a) não dá trabalho nenhum;
  • para ele(a) está sempre tudo bem;
  • para ele(a) não tem tempo ruim – independente de onde o(a) levamos. 

Reconhecimentos que fixam essa forma de pensar e agir entre os bonzinhos – e faz crescer entre os bonzinhos o medo de desagradar.

Os bonzinhos da vida adulta

Você, bonzinho, está com seus amigos e todos decidem pedir algumas pizzas. Algumas de suas respostas imediatas variam entre: “para mim pode ser qualquer uma”; “Gosto de todas.”; “Para mim, pode ser o que vocês preferirem.”

Sua família resolve perguntar a você o restaurante para o jantar do seu aniversário, dia de celebrar a sua vida – e você, bonzinho, sugere: “vamos àquele com opções que todo mundo gosta.”

Sua equipe de trabalho assumiu uma tarefa importante, com o prazo apertadíssimo e sua gestora parece realmente precisar que seja entregue o quanto antes. Você, bonzinho, prontamente assume a responsabilidade – e vira as duas noites seguintes, trabalha durante o final de semana, para finalizar sem pedir ajuda ou renegociar prazos de outras demandas. 

De alguma maneira ver as pessoas satisfeitas com essa sua generosidade e dedicação, reconhecendo sua preocupação com a satisfação dos outros, te deixa aliviado(a)

Afinal, você conseguiu: não desagradou ninguém. Ou melhor, quase ninguém. 

Na verdade, você até preferia um sabor de pizza específico – mas nem todos comem. Você ama aquele restaurante japonês próximo a sua casa – mas sabe que nem todos gostam. Você não tinha tempo para tanto trabalho – mas os outros também tinham suas tarefas.

E, ao não verbalizar suas necessidades e/ ou preferências, você pensou em todo mundo – menos em si mesmo(a)!

Com o tempo, essa coleção de “nãos” que você não disse começa a ficar pesada. Considerar demais opiniões e julgamentos dos outros começa a travar suas decisões importantes. As necessidades não atendidas se transformam em ressentimentos acumulados. 

Quando bonzinhos tomam consciência real desse processo, começa uma espécie de crise de identidade – pois o medo de desagradar as pessoas de quem espera receber amor torna os bonzinhos cegos para reconhecer o que verdadeiramente os faz bem.

Fazer o outro feliz parece impedir o bonzinho de ser verdadeiramente feliz.

Perceber isso o quanto antes é o primeiro passo para alterar essa lógica. 

Seja egoísta!

Recomendar a alguém que passou a vida pensando tanto nos outros que seja egoísta pode parecer inicialmente um tanto agressivo. Radical demais. Remar contra a própria história – e, para ser sincero, não somos realmente ensinados a pensar primeiro em nós mesmos. 

Essa é justamente a estratégia! Eu demorei um bom tempo para entender que, se eu não verbalizasse minhas preferências, desejos e necessidades, ninguém falaria por mim

Foram alguns anos de terapia, sessões de coaching e conselhos da minha esposa e de uma gestora que tive para compreender que só eu poderia ser o representante dos meus próprios planos, sonhos – e limites. 

Desde então, sair daquele automático da criança obediente que cresceu como adulto habituado à lógica do auto sacrifício tornou-se uma espécie de exercício diário.

Um exercício que exige investir em autoconhecimento – e descobrir os limites e desejos silenciados por tanto tempo.

Exige atenção, pois se deixar para o inconsciente, a tendência é naturalmente me colocar em segundo plano.

Exige sobretudo coragem, pois vai ter gente que vai se desapontar com sua nova forma de agir e se expressar.

Mas, quer saber, com o tempo sustentando essa espécie de egoísmo estratégico, passei a experimentar uma nova forma de ser reconhecido e amado. Uma forma em construção e inédita para quem, por tanto tempo, pareceu exclusivamente orientado para o outro. 

Uma forma de reconhecimento traduzida como maior respeito dos outros às minhas decisões, limites e opiniões. Uma forma de ser amado que não permite a ninguém invadir ou ultrapassar as necessidades, valores e desejos pessoais que expresso e preservo. 

Uma forma conscientemente libertadora de me relacionar justamente por não me deixar para depois. Sem perder, claro, a generosidade de fazer pelo outro, mas sem que isso seja exclusivamente por conta de uma necessidade de aprovação e um medo de desagradar.

Uma forma de repensar a condução da nossa trajetória que preserva e sustenta aquela que Aristóteles considerava nossa finalidade em vida: perseguir a nossa felicidade como propósito.

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