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Pedro Pirim: O ser humano faz drama para evitar a tragédia

Pedro Pirim: O ser humano faz drama para evitar a tragédia

Como seremos capazes de lidar com problemas do mundo se não conseguimos acessar os nossos?

Por Pedro Pirim Rodrigues, cofundador da Voz Futura.

Me preocupo com coisas pequenas enquanto faço tarefas amenas.


E se dizem que utilizamos um pouco do nosso inconsciente apenas, onde ficam guardadas ou escondidas aquelas coisas que chamamos de feridas?

Reclamo de tudo e de todos para não ter que lidar com os meus erros.
Brigo com o mundo para evitar entrar em contato com os meus traumas.
Terceirizo a culpa para justificar uma falha própria.
Justifico a minha própria falha como consequência do erro do outro.

Aprendi a sentir culpa mas nem sei direito o porquê
Fui criado na falha e na falta antes mesmo de nascer 

Assisto ao noticiário cheio de tragédia, violência e morte como se isso pudesse me fazer sentir mais vivo ou com sorte.
Entre um intervalo comercial e outro, vejo o celular, um meme e abro um sorriso.
Acabou a novela, chegou a hora do futebol. Depois do jornal, é o que tenho, enquanto anestesia social.

Talvez esse seja um mecanismo comum do nosso ser humano: criar pequenos desastres externos pra não ter que encarar o que incomoda por dentro.

A gente se ocupa de problemas menores porque eles dão uma sensação de controle.
Se preocupa com os problemas dos outros para não ter que resolver os próprios e se culpa por não resolver nem um nem outro.

Resolver o atraso, o e-mail atravessado, o comentário infeliz, o comportamento mal educado. Tudo isso é prático, fácil, dá palco, cria narrativa, dá razão em forma de opinião.
Enquanto isso, os temas e problemas realmente estruturantes – aqueles que a gente não quer acessar – nossas feridas, traumas, medos, desejos e contradições – seguem guardados, muitas vezes abafados, empurrados pra debaixo do tapete do inconsciente. 

Porque é sim mais fácil apontar o dedo e pelo menos parecer que consegue resolver o externo enquanto tem um monte de bagunça interna para ser mexida. E por isso é tão importante se olhar, se observar e ficar realmente em silêncio. 

O autoconhecimento exige atravessar zonas de desconforto, revisitar memórias mal elaboradas, reconhecer falhas próprias, aceitar ambiguidades internas. Exige admitir que nem tudo em nós é belo, coerente ou socialmente aceitável. E isso assusta. Afinal, quem quer parecer maluco? 

Se cada indivíduo tivesse coragem de se observar e se responsabilizar pelas próprias feridas, talvez contribuíssem para um mundo menos agressivo, menos projetivo e menos adoecido. Mas como esse negócio dá medo, preferimos o caminho mais curto.

Existe também um mito moderno que ajuda a sustentar essa fuga: a ideia de que “não usamos nem 10% do nosso cérebro”. Isso não é verdade do ponto de vista da neurociência. A gente usa o cérebro inteiro quase o tempo todo. O que não usamos é a nossa capacidade de acessar, elaborar e simbolizar conteúdos inconscientes de forma ativa.

O cérebro é extremamente eficiente para resolver tarefas práticas: pagar contas, responder mensagens, produzir, consumir, reagir. Esse uso “fácil” e funcional que nos mantém operantes. Mas evitamos ir às profundezas onde estão as questões que realmente importam: os conflitos psíquicos, os desejos reprimidos, as repetições de padrão, as dores não simbolizadas – que quando voltam e vem à tona – aí sim são capazes de criar tragédia.

Essas questões não desaparecem. Elas apenas mudam de forma.
Voltam como ansiedade, irritação crônica, agressividade, dependências, distrações compulsivas, violência ou dramas desproporcionais.

E aqui, não muito distante, entra um tempero especial chamado Mídia Social. 

As redes sociais funcionam como um espelho distorcido que estimula comparações constantes, indignações rápidas e posicionamentos rasos. O jornalismo, muitas vezes pressionado por audiência, polariza situações e narrativas, premia a fofoca e precifica a polêmica – uma vez que depende de anúncio e público para sobreviver. 

Nesse ambiente de grandes tragédias e guerras reais com as quais somos bombardeados diariamente, como lidamos com as próprias batalhas diárias e internas que muitas vezes seguem invisíveis. A mídia não cria esse mecanismo, nem é a grande culpada. Mas certamente reforça esse comportamento: quanto mais distraídos estivermos com o barulho externo, menos silêncio teremos para escutar o que dói aqui dentro. 

O entretenimento vazio cumpre um papel parecido. É sim importante rir, descansar e se distrair para desopilar – mas e quando isso tudo vira excesso? Uma sequência infinita de estímulos que preenche cada espaço de tédio, cada intervalo de silêncio, cada oportunidade de contato consigo mesmo ou até com quem está do seu lado tomando um café.

O problema não é o entretenimento.
É quando ele vira fuga constante de si.

Os grandes problemas do mundo existem e estão aí para serem encarados e enfrentados. Sim, essas são tragédias complexas, externas e imensas. 

Mas como estamos fazendo para lidar com as nossas próprias? Silenciosas e internas.

Como seremos capazes de lidar e tratar dos problemas do mundo se não conseguimos acessar nem os próprios?

Eu vejo o ser humano construir foguetes para explorar o espaço sideral mas não vejo o mesmo empenho pra cuidar da própria saúde mental.

Vejo um bilionário preocupado em construir uma sociedade em Marte e a única coisa que eu consigo pensar é que provavelmente ficou insuportável lidar com o seu próprio universo interno que ele precisou imaginar e criar um outro pra não ter que olhar pra dentro.

Enquanto um outro que está fazendo de tudo para não morrer só que só ele não percebeu que enquanto ele faz isso, o tanto que ele deixa de viver.

Sim, parece que as pessoas estão tentando mais fugir do que ir de encontro a si. 

Eu acredito piamente que se muitos políticos, e eu não vou dizer quais, olhassem para dentro e tentassem resolver as suas grandes tragédias pessoais, suas frustrações e questões emocionais, talvez, e apenas talvez, não tivéssemos assim tantas guerras.

Mas essa é só a minha visão otimista e boba sobre um mundo melhor. 

Enquanto isso, continuamos criando conflitos menores para não tocar nos abismos maiores.
Preferimos o barulho externo do que o silêncio interno. A reação à reflexão. O julgamento à responsabilidade.

Você pode culpar seu chefe por um dia ruim, reclamar do buraco na rua, da nota baixa que recebeu, da mensagem inconveniente e da conta que precisa pagar. Mas será que é isso realmente que incomoda? 

A gente pode criar um milhão de dramas externos… sem deixar de lado e cuidar primeiro dos próprios conflitos internos. Talvez elaborar o que vem de dentro possa ajudar a lidar com o que está fora. Não? 

E se a gente fizesse esse exercício de olhar mais pra dentro e se ouvir? De reduzir o drama externo para ter coragem de atravessar a tragédia interna. Não para se destruir, mas para se reconstruir com mais coragem e vulnerabilidade.

Será que assim a gente consegue viver num mundo com mais empatia e igualdade? 

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