Por Fernanda Lima, para a Voz Futura
Todo início de ano é a mesma coisa: a minha linha do tempo é inundada por vídeos de pessoas descobrindo que passaram no vestibular. E, honestamente, eu não pulo nenhum. Existe uma carga de realidade ali que me prende de um jeito que poucas coisas conseguem. É um dos poucos momentos em que, ao estar imersa naquelas histórias, a internet deixa de ser um lugar tóxico para se tornar um espaço de celebração genuína.
O que mais me impacta não é o nome da universidade ou o prestígio do curso, mas o contexto que a gente lê nas entrelinhas. O que para muitos pode parecer apenas “vídeos emocionantes”, indica também uma importante mudança estrutural. Quando paramos para analisar quem são aquelas pessoas que estão comemorando a aprovação no vestibular, percebemos o quanto a cara das universidades brasileiras continuará mudando.
É ainda mais impossível ignorar o peso desses vídeos quando olhamos pela perspectiva social. Pela primeira vez na história recente, os negros e pardos passaram a ocupar mais da metade das vagas nas universidades públicas (cerca de 50,3%), segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD), divuldados pelo IBGE em 2018. Se voltarmos pouco mais de vinte anos no tempo, esse cenário era inimaginável. O mesmo acontece com a presença feminina: hoje, as mulheres são a maioria tanto no ingresso quanto na conclusão do ensino superior, ocupando espaços em áreas que antes eram estritamente masculinas, como a das ciências humanas.
É impossível não se emocionar ao ver um pai ou uma mãe, pessoas que muitas vezes não tiveram a chance de estudar, chorando abraçados aos filhos e filhas. Ali, a gente consegue perceber a sensação de que o sacrifício de uma vida inteira valeu a pena. Para muitas dessas famílias, a faculdade é a primeira chance real de ascensão, de ter uma vida um pouco menos sofrida. Que bom que esse é um cenário cada vez mais comum.
De acordo com os dados da 5ª Pesquisa Nacional de Perfil Socioeconômico e Cultural dos Graduandos das Instituições Federais de Ensino Superior, hoje 70,2% dos alunos das universidades federais vêm de famílias com renda per capita de até 1,5 salário mínimo, com a renda média sendo de R$ 640. Isso não é apenas um número, mas a prova de que a universidade deixou de ser um clube exclusivo da elite para se tornar um motor de mobilidade social.
Quando vemos um jovem de escola pública pintando o rosto, estamos vendo o resultado de políticas de democratização do acesso que, apesar de todas as falhas, estão funcionando a todo vapor. É a sociedade andando para frente, muitas vezes sem que a gente se dê conta. A gente se acostuma com as notícias ruins, mas a verdade é que nunca houve tantos filhos de porteiros, domésticas e operários sentados nas mesmas cadeiras que os filhos dos patrões.
Ficamos felizes por essas pessoas porque o sucesso delas valida a ideia de que o sistema pode ser, sim, acessado. Ver uma família de classe baixa aliviada com a aprovação de um filho traz uma sensação de justiça, de reparação histórica.
Isso traz uma esperança que não é boba ou ingênua, é uma esperança prática. Ver tanta gente construindo seus sonhos do zero, contra todas as dificuldades estruturais, faz a gente acreditar que as coisas podem, sim, melhorar.
Essa alegria que sentimos ao ver o outro vencer nos torna mais otimistas em relação ao futuro. É um lembrete de que, apesar das nossas tantas dúvidas, das angústias, da ansiedade cada vez mais presente, existe uma geração inteira de novos profissionais de origem popular se formando.
O movimento silencioso de ocupação dos espaços acadêmicos é algo que realmente empurra o país para frente, porque “se a educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela tampouco a sociedade muda”, já dizia Paulo Freire.
Cada vídeo de aprovação é um tijolo a menos no muro da desigualdade. Então acho que ficamos felizes ao assistí-los porque, no fundo, todos nós precisamos de provas constantes de que a vida pode ser generosa. A alegria dos outros nos dá a certeza de que o nosso mundo está, sim, mudando.
“É preciso ter esperança, mas ter esperança do verbo esperançar, porque tem gente que tem esperança do verbo esperar, e esperança do verbo esperar não é esperança, é espera. Esperançar é se levantar, esperançar é ir atrás, esperançar é construir, esperançar é não desistir! Esperançar é levar adiante, esperançar é juntar-se com outros para fazer de outro modo…”
– Paulo Freire


