Por Danilo Luiz, fundador da Voz Futura
Sair cedo de casa nunca é só sobre futebol. É sobre crescer antes do tempo, aprender a lidar com culturas diferentes, conviver com a saudade e, principalmente, descobrir quem você é longe das suas raízes. De Restinga, um dos bairros mais distantes de Porto Alegre, para os maiores palcos da Europa, Raphinha construiu sua trajetória com algo que vai além do talento: mentalidade.
Nesta conversa comigo, ele falou sobre os anos na várzea quando ninguém apostava nele, sobre a força que encontra na própria história nos momentos difíceis de jogo, sobre o choque entre escassez e abundância financeira e como o casamento foi decisivo para amadurecer sua relação com dinheiro, responsabilidade e futuro.
1) Você saiu cedo do Brasil para jogar na Europa. O que essa experiência te ensinou sobre vida, identidade e saudade?
O fato de eu ter saído cedo de casa fez com que eu tivesse que amadurecer muito mais rápido, conhecer outras culturas e aprender muito sobre a vida. Cara, a saudade faz parte, mas eu sempre soube aquilo que eu queria pra mim, então a saudade nunca foi um problema e sim uma força a mais de continuar em busca daquilo que eu queria pra mim e para a minha vida, que era ser um jogador de futebol profissional.
2) Quando o jogo está difícil, de onde você tira força para continuar acreditando?
Muitas vezes quando o jogo tá difícil, é muito complicado conseguir tirar forças de onde a gente praticamente não tem mais, eu particularmente busco minhas tatuagens onde tem algo sobre minha família, sobre minhas lutas do passado e sobre tudo aquilo que eu sempre quis, mas ainda assim é difícil. Então vou brigando comigo mesmo, muitas vezes o corpo diz que não pode mais, e é onde eu tento colocar na cabeça que pode sim e mando mensagem pro corpo. Essa briga comigo mesmo é muito necessária, as vezes difícil, mas temos que tirar força de algum lugar.
3) Eu saí de Bicas-MG, você lá de Restinga-RS. Já vi você descrevendo como um lugar distante, de difícil acesso. Como você acha que isso influenciou o início da sua carreira? Quando você se deu conta que estava conseguindo se organizar financeiramente?
A restinga é um dos bairros mais distantes de Porto Alegre. É quase uma cidade, pra chegar no centro ou pros pontos turísticos de porto Alegre, levamos 1h de ônibus, e dependendo pra onde você tem que ir, não tem ônibus que leva diretamente. Então tínhamos que pegar 2 ônibus. Lembro que quando eu jogava na várzea, tinha que pegar um ônibus específico, e não podia perder o ônibus, se não o outro era só em 45 min ou 1h depois, isso quando não atrasava ou dava algum problema…Sempre digo que sou muito grato de ter jogado várzea o máximo que eu pude… O fato de ser magrinho e pequeno, nenhuma categoria de base queria ficar comigo, então eu joguei lá até meus 18.
Minha primeira categoria de base mesmo, foi no sub-20 do Avaí já, antes disso eu joguei muita várzea, passei por alguns times que disputavam campeonato regional, mas a grande maioria era várzea. Esse fato de os times não me quererem fez com que eu colocasse na minha cabeça que eu tinha que ser melhor que os que estavam em base, tinha que me sobressair por algum lado, com a bola, na vontade, na briga, no querer mais… Então isso fez eu evoluir e me fez chegar mais preparado nos times que eu passei, e com uma mentalidade muito mais forte…
E financeiramente vou te falar a verdade que eu conseguir me organizar mesmo depois que eu casei… Obviamente meus pais cuidavam muito das minhas coisas, mas eu me organizar mesmo financeiramente e ter um pensamento diferente, foi junto com minha esposa… Foi quando eu falo que eu me tornei homem de verdade e comecei a cuidar minhas coisas, minha família, minha casa… Foi minha esposa quem me deu todo suporte que eu precisei pra assumir essa responsabilidade.
4) Também já li sobre você falando que não tinha dinheiro para a passagem do treino… hoje, como você lida com a abundância financeira frente a escassez da juventude?
Eu diria que hoje eu consigo lidar melhor com a questão de ter uma condição melhor… Obviamente depois de não ter condições e começar a ganhar dinheiro onde sobra… Eu queria gastar e coisas que antes eu não tinha condição ou meus pais não tinham condições naquele momento de me proporcionar. Então, no começo da minha carreira, eu gastei dinheiro em muita coisa desnecessária, mas que eu me permiti e aquilo me fez feliz… Não me arrependo de ter feito… Mas quando somos jovens, muitas vezes só queremos aproveitar o que não tínhamos oportunidade antes, ou comprar coisas que não podíamos antes…
Graças a Deus, eu sempre tive a cabeça muito no lugar então depois dessa fase de comprar coisas desnecessárias, eu comecei a querer guardar mais e pensar na frente… Comprei uma casa pros meus pais, tive condição de dar carro pra eles, e só quando eu cheguei no Barcelona junto com minha esposa, compramos nossa primeira casa, que era nosso sonho. Quase sempre fui muito centrado, fora a parte inicial que a gente quer comprar tudo que não podia quando não tinha condição, e nem digo coisas muito caras – às vezes era só um McDonalds, mas com exagero HAHAHA, digo roupas que eu queria jovem, um tênis maneiro, tipo essas coisas, mas em excesso, exageradamente, mas algo que eu queria, sabe?
Mas meu objetivo principal sempre foi dar uma condição boa de vida pros meus pais, construir minha própria família, então diria que quase sempre fui muito centrado… e minha esposa foi e é muito importante nesse sentido, me deu e me dá todo o suporte pra seguir com os pés no chão e isso faz com que a gente nunca esqueça de onde viemos e das condições que viemos… Ela também é de uma comunidade de Porto Alegre.
5) Se pudesse mandar um recado pro Raphinha criança, que sonhava em ser jogador, o que você diria?
Irmão, acho que se eu pudesse mandar um recado pro Raphinha criança, diria pra ele desfrutar de cada momento, continuar trabalhando duro pelos sonhos e objetivos que cada pedra no caminho seria importante pra se tornar a cima de tudo um grande ser humano e ajudaria a valorizar cada conquista.


