Por Paulo Pascoal
Ontem jantava com amigas que se perguntavam qual seria o propósito de tantas pessoas estarem a partilhar histórias de 2016. Confesso que isso me tinha passado ao lado. Uma delas disse que 2016 tinha sido o último ano 9, tal como 2025, e que, por isso, estaríamos agora a atravessar uma espécie de revisão coletiva desse ano, uma década depois.
Sentadas à mesa redonda, começámos todas a partilhar em voz alta os acontecimentos mais marcantes da última “Prova dos 9”.
Lembrei-me de que, em janeiro de 2016, tive um pesadelo: a pessoa que eu amava envenenava-me. Acordei a chorar. Ambos despertámos com o meu soluçar. Quando partilhei o sonho com ele, passou-se completamente da cabeça. Foi como se o tivesse acusado. Em vez de acolhimento, discutimos. Naquele preciso instante, pela primeira vez, senti que algo tinha mudado para sempre. Sim, “primeira vez” e “para sempre” na mesma frase. Já sabemos: vai ser intenso.
Levávamos cerca de quatro anos juntos e uma vida que, até certa altura, parecia ideal. Eu filmava há vários meses uma novela de horário nobre, no núcleo principal; era consultora e guionista de um programa de culinária; estava no início do meu segundo ano em Portugal. Ele, jornalista, percorria o mundo à procura de histórias portuguesas de encantar. Partilhámos muitas viagens.
Em numerologia, somam-se os algarismos do ano: 2+0+1+6 = 9; tal como 2+0+2+5 = 9. O número 9 simboliza a finalização de um ciclo. Esta tecnologia simbólica, ou esotérica, tenta estabelecer uma relação entre nós, seres vivos, e o cosmos. Todas temos um número. Eu sou 8, o que para algumas pessoas significa ter reencarnado oito vezes. Tenho também uma forte tendência para reparar em capicuas — sobretudo 11:11 — e uso-as como forma de escuta: mensagens divinas, ou dos anjos, como lhes chamamos. Não se perde nada com isso. É apenas mais uma ferramenta, que ganha — ou não — a potência que lhe damos.
Voltando a 2016: depois da reação defensiva ao pesadelo, as dinâmicas do relacionamento alteraram-se. Entrei numa procura incessante pela verdade, até que surgiu a oportunidade de fazer ayahuasca. Era a oitava vez consecutiva, em oito anos — um compromisso anual que assumi após ter tido cancro. “La Madre” costuma dar-me guia, direção, visão. Como os sonhos. Da cerimónia com as plantas sagradas, saí elucidada: teria de mudar de casa. O amor que eu havia conhecido já não habitava ali.
Para me certificar de que não estava a ser impulsiva — a abandonar um sonho por causa de um pesadelo — recorri a uma amiga que, à época, lia cartas. Não procurava uma sentença, mas uma resolução. Algo que me devolvesse respostas mais habitáveis do que aquelas que eu carregava. Ela baralhou o tarot em silêncio, como quem sabe que certos destinos não gostam de pressa. As cartas falaram de rutura, desgaste, adultério. Falaram também de resistência — minha — e de uma insistência em salvar algo que se tinha despedido sem aviso prévio.
— Não esperes nada de bom desta pessoa — disse-me.
Disse também que eu deveria fazer análises com urgência, porque estava enferma. Saí dali com um desconforto aterrorizador. Havia uma tragédia iminente, um fim quase cinematográfico.
Levei tempo a tentar perceber onde se tinha dado o deslocamento. Durante meses negociei comigo: minimizei sinais, relativizei ausências, justifiquei agressividades pontuais, cansaço, stress, medo. O amor, quando começa a falhar, costuma falhar primeiro na linguagem. No tom. No gesto que já não vem. No cuidado que se transforma em irritação. Eu sentia isso no corpo. E somatizava. Ao mesmo tempo, preparava-me para o que viria a seguir.
A 1 de abril de 2016, ao passar por uma clínica, tive o impulso de finalmente entrar para fazer as análises que tanto temia. Como estava com muito trabalho, decidi adiar — para não comprometer duas produções televisivas, nem o desenvolvimento da minha personagem na novela. Parecia mentira. Nesse dia, soube que a minha vida mudaria, que estava condicionada, e que seria para sempre.
Procurei ajuda de imediato. Com o meu histórico oncológico, os médicos marcaram rapidamente uma cirurgia. Em maio terminei a novela; em junho fui operada à cabeça, em ambulatório. Poupo os detalhes: não foi um momento fácil, e há vivências que não quero reviver. Voltei para a “nossa casa”. Nada melhorou, só piorou. Parte de mim acreditava que a vulnerabilidade nos aproximaria. Aconteceu o contrário. Em agosto ele saiu de casa. Em dezembro abandonei aquela promessa de amor eterno, sem olhar para trás.
Resumindo muito: assim foi 2016 para mim.
Curiosamente, 2025 trouxe, em muitos momentos, uma linha direta com 2016. Foi também um ano de paixão avassaladora, de amorosidade não concretizada. O arquétipo do amante regressou. O conceito de “tempo espiralar” ajudou-me a compreender que os pesadelos voltam — raramente — mas nunca desaparecem. Não como imagem, mas como sensação.
Um alerta primitivo. Daqueles que não gritam, insistem. E quanto mais tentamos ignorá-los, mais os nossos corpos se tornam pesados, defensivos, em estado de vigília permanente.
Os sonhos têm uma relação direta com a dor. É a dor que ativa a noradrenalina, esse neurotransmissor que influencia o humor, o sono e a regulação do cérebro.
Sonhos de queda e de voo são comuns à maioria dos humanos. Servem para processar memórias, aprender, prever futuros. Amar exige musculatura — não para sustentar o outro, mas para nos mantermos inteiras.
Hoje entendo que aquele sonho não era uma previsão nem um presságio literal. Era uma tradução. O veneno não vinha num copo; vinha em pequenas doses diárias: na invalidação da minha sensibilidade, na agressividade travestida de sinceridade, na recusa de acolher aquilo que em mim pedia cuidado.
Talvez por isso 2016 regresse agora, em 2025, como eco. Os anos 9 não pedem respostas novas. Pedem encerramentos honestos. Pedem que reconheçamos onde ficámos tempo demais, onde confundimos permanência com amor, resistência com lealdade. O ciclo não se fecha com raiva — fecha-se com clareza.
E se hoje partilho esta história, não é por nostalgia nem por ajuste de contas. É porque certos finais só se completam quando são narrados. Quando deixam de pesar no corpo e regressam à linguagem.
Amorosidade constrói-se todos os dias.
E alguns pesadelos não servem para nos assustar.
Servem para nos acordar.
Que 2026 seja um ano potente para nós.
E será, um início de vitórias.


