Por Paulo Pascoal
A Aurora acaba de sair daqui de casa.
Estivemos a filmar alguns planos para o videoclipe do próximo single dela, B Alive. Passaram-se quatro ou cinco horas e foi o melhor programa possível para uma tarde chuvosa.
Ela é um fenómeno luminoso na minha vida.
Somos como ventos solares que se cruzam em altas latitudes e criam o seu próprio campo magnético. Há anos que somos assim. Dá-mo-nos acesso à intimidade: esse raro e inefável sentimento de sermos compreendidas de imediato, como tão bem o descreve Mia Mingus.
Talvez por isso as nossas dissidências convirjam, tal como a nossa arte, trazendo espectros opostos do mesmo rarefeito. Falávamos sobre isso:
Como hiperviver a impermanência?
Até que ponto as nossas vidas são o nosso objeto artístico e como negociarmos sem vendermos a alma?
Como medir a partilha para que não se torne sobre-exposição?
Num tempo em que a autonomia parece irrealizável sem tornar público o privado, é ao convidarmos o público para os nossos espaços íntimos que criamos uma nova esfera – moldada pelas formas de encontro que desejamos; ou, é ao reverso das nossas bolhas contemporâneas, da pregação aos convertidos e daqueles que já fazem parte do nosso vocabulário político que precisamos de nos aproximar – como defenderia Mohammad Abbasi.
Ainda só vamos na sétima semana do ano e sinto que coletivamente atravessámos acontecimentos que apontavam numa direção e, à última instância, mudaram de rota. As eleições presidências em Portugal foram um exemplo disso. Muitas antecipávamos o pior, mas, afinal, a sociedade escolheu estabilidade, segurança. Isso devolve alguma confiança a uma democracia que nos últimos meses parecia permanentemente em suspenso.
Também no plano pessoal: depois de um Dry January: jejum de dopamina, sem álcool, sem tabaco, revisão da repetição de hábitos viciosos; chega o Wet February. Não no sentido de vale-tudo, mas porque as depressões Ingrid, Joseph, Kristin, Leonardo, Marta e Neusa obrigaram-nos a atravessar tempestades internas. Talvez para que o próximo mês possa ser Abundant March. Ou algo mais responsável, resguardado e discreto.
O que me leva à fascinação recente da internet por homens DL (down low). No TikTok tornou-se quase estética: o que antes valorizava a autenticidade passou a valorizar a discrição. Pessoas queer parecem preferir diluir-se num padrão para navegar com mais fluidez.
O termo DL surge nos anos 90 em comunidades negras americanas, mas o léxico atual perde-se ao fetichizar homens que mantinham segredo – muitas vezes ligado ao adultério – apagando bissexualidade, invisibilizando mulheres e reforçando misoginia ao negar a feminilidade nos homens queer.
Isto afeta-me diretamente.
Sempre achei que defender a minha queerness era uma das grandes missões da minha vida — talvez a maior.
Mudaram os tempos?
Ou mudei eu?
À conversa com um dos meus mentores, um homem negro, pai, que nunca saiu do armário, percebi que talvez também precise, por um momento, de usufruir desse privilégio cisgénero: um porto de abrigo sem pronome nem prefixo onde simplesmente existir.
Quando a Aurora me perguntou:
“Como tens sido tratada ultimamente?” – hesitei.
Respondi:
– Continuo numa negociação constante.
Não porque não saiba quem sou, nem porque rejeite quem fui. Mas há momentos em que a revisão é tão profunda que nos provoca vertigem. Não procuro certezas definitivas, nem invalidar dúvidas que sempre foram motor de descoberta. Talvez agora pausa, silêncio, descanso e distância sejam formas de auto-preservação. Só o tempo dirá que lugar é esse. Por enquanto não há respostas. É dançar para amolecer os poemas endurecidos do corpo, como diria Viviane Mosé.
Ver Durand Bernarr correr para receber finalmente reconhecimento nos Grammys, tão descomprometidamente queer, foi maravilhoso. Ver Bad Bunny honrar a sua identidade latino-americana numa apresentação histórica para o Super Bowl halftime da NFL, tudo isto no mês da história negra, da história não-ocidentalizada, traz um regozijo de possibilidades.
A contradição pode ser bela.
E vale sempre a alegria viver para defender a liberdade de todes.


