Por Igor Monteiro, consultor de aprendizagem corporativa e especialista em design instrucional.
Anualmente o dicionário Oxford se reúne para definir um termo que melhor representa aquele intervalo de tempo. Uma espécie de palavra do ano.
Em 2024, por exemplo, as votações encabeçadas por Oxford estabeleceram o conceito brain rot (‘apodrecimento cerebral’) como o termo do ano. Algo como uma constatação de que o consumo crescente e excessivo (e viciante) de conteúdos digitais curtos, rápidos, dopaminérgicos e rasos estavam resultando numa epidemia de fadiga mental, desatenção e baixa concentração.
Literalmente derretendo nossos cérebros.
Um conceito assustadoramente assertivo para sintetizar muito bem alguns dos nossos hábitos de consumo mais facilmente observáveis na era das redes sociais.
Os termos anuais de Oxford carregam ainda um outro papel interessante. Além de se apresentarem como uma espécie de sintoma social observável em um recorte temporal, jogam uma espécie de luz, de consciência nesses sintomas.
Um convite, uma proposta na mesa, para que sejamos mais atentos a determinados comportamentos. O brain rot de 2024 parece ter acertado também nessa sua missão.
Segundo relatório de 2024 da Association for Psychological Science, percorremos diariamente cerca de 100 metros de feed em nossas redes sociais. Sim, a métrica não está errada: METROS. Seria como subir diariamente a Estátua da Liberdade apenas considerando a distância percorrida pelo repetitivo movimento dos dedos.
Tanta distância percorrida nos sedutores estímulos gerados pelas telas têm um preço. E o conceito de Brain Rot parece enunciá-lo com exatidão: um derretimento cerebral que vai minando nossa capacidade de nos mantermos atentos à leitura de um livro, a uma aula, a uma apresentação no trabalho e a tantas outras atividades.
Um inegável resultado prático e imediato de um vício moderno de rolar o feed do Instagram e TikTok em busca de alguma satisfação imediata.
Para 2025, Oxford elegeu um termo, eu diria, igualmente preocupante:
Rage Bait – Isca de Raiva em tradução livre.
Percebe o quanto desses mesmos reels e vídeos curtos das redes, além de colaborarem com esse derretimento cerebral, parecem vir “temperados” com elementos capazes de despertar em nós uma certa raiva?
Vídeos com um discurso de ódio inflamado.
Vídeos de alguém cometendo um erro óbvio – e aparentemente irritante.
Conteúdos que parecem inflamar uma certa fúria entre grupos com preferências, costumes e inclinações diferentes.
Comentários que parecem jogar gasolina em incêndios provocados por esses mesmos conteúdos.
O tribunal moral da internet acusando (e cancelando) seus alvos sem o direito de defesa ou contra argumentação.
Uma lógica de nós contra eles que permeia temas variados, desde política, passando por religião, geopolítica, economia, cultura pop, esportes, nutrição, ciência, criação de filhos e o que mais você imaginar.
A Ira vende
A lógica das redes e dos algoritmos tende a beneficiar conteúdos que geram mais engajamento. Isso você já sabe.
Seguindo esse roteiro, alguns conteúdos naturalmente parecem apresentar um poder de viralização muito mais potente que outros. E 2025 parece ter sido exatamente o ano em que uma realidade ficou ainda mais notável:
A raiva é uma das emoções de maior potencial de viralização nas redes.
Conteúdos que despertam a nossa ira geram reações como consequência quase imediata – seja o compartilhamento em grupos de amigos ou mesmo os comentários inflamados.
Aliás, se você já abriu a sessão de comentários associados a esses conteúdos, deve ter percebido o tom bélico e exaltado de quem frequenta essas abas…
Como o poder de viralização é uma moeda digital dos nossos tempos, facilmente você encontrará uma série de conteúdos intencionalmente produzidos para provocar sua indignação – e o seu engajamento.
Hoje mesmo, antes de ler esse artigo, você provavelmente encontrou um.
Se passou por um desses e ficou até o vídeo acabar ou, mais ainda, curtiu, comentou, compartilhou, você mordeu a isca de raiva (rage bait).
Ao sintetizar o termo, Oxford parece alertar para essa quantidade crescente e perigosa das iscas de raiva jogadas diariamente no nosso feed. A lógica parece seguir indicando o tal “derretimento do cérebro”, mas agora afundado em um caldeirão de ódio e irritação.
A contra capa do dicionário de Oxford
Os termos selecionados por Oxford como os conceitos símbolos de um dado ano são uma forma de retrato. Escancaram uma realidade notada em um dado período, como o brain rot e, mais recente, o rage bait.
Apresentá-los com a riqueza conceitual proposta pelo dicionário é uma forma também de nos conscientizar de tais eventos. Nesses dois casos, ligar uma certa atenção na hora de rolar o feed, compreendendo efeitos potencialmente nocivos intencionalmente provocados por alguns conteúdos.
Para 2025, Oxford nos alerta para a quantidade de iscas de raiva lançadas por aí nas redes.
Estar atento é a primeira estratégia para ativamente desviar delas.
A segunda estratégia, ser cuidadoso com o que consome.
Escolher espaços de circulação de ideias comprometidos em gerar conexões reais entre pessoas, histórias e boas emoções.
Fugir da lógica algorítmica do viralizar para a lógica do humanizar.
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