Por Katia Rubio, professora e pesquisadora da Faculdade de Educação da USP e especialista em psicologia do esporte
Há pouco mais de três décadas, quando eu ainda consultava o acervo da biblioteca nos armários de aço cheios de fichas para fazer meus trabalhos de faculdade, lembro de um colega muito conectado nas “modernidades” de então, chegar dizendo que em algumas universidades do norte global, já existia um sistema de busca e organização de dados, possível de ser usado a partir de um computador pessoal, aquilo que passamos a chamar de PC e mais tarde lap top. Da maneira como ele falava aquilo parecia obra de ficção científica. Era início dos anos 1990.
Passados alguns anos mais, quando entrei formalmente na USP em 1996 para realizar meu mestrado, ganhei meu primeiro e-mail. Aquilo parecia mágico. Mensagens podiam ir e vir. E a tradição de comunicação epistolar, uma herança de família, agora ganhava um outro meio. Se antes a chegada das cartas pelo correio era acompanhada de uma emoção sem igual, tanto pelas novidades que trazia, como pelo sentido da existência de alguém distante a partir do e-mail a comunicação ganhava uma outra dimensão.
As cartas escritas em folhas de papel de diferentes texturas e formatos, por vezes, traziam também uma foto, também impressa. Era muito emocionante receber uma carta com uma foto dentro, ou um desenho, enfim, ela tinha materialidade. Com o advento do e-mail tudo chegava mais rápido, mais fácil.
Foi preciso tempo e distanciamento para perceber as diferenças entre as trocas físicas e eletrônicas, muito embora tudo tenha ocorrido num lapso de menos de duas décadas. O encantamento original gerado pela velocidade acabou se convertendo em ônus diante da invasão da privacidade provocada pelos aparelhos que hoje parecem uma extensão do próprio corpo. As 8 horas diárias de trabalho se converteram em 24 horas, 7 dias da semana. E aquilo que parecia ser um meio para aproximação tem se mostrado um fator de distanciamento, uma vez que as relações virtuais se normalizaram. Em nome de facilitação de procedimentos, reuniões, aulas, encontros passaram a ser feitos via tela. E tudo o que vinha junto com um encontro presencial foi perdido: o cafezinho, a conversa fiada sobre família, filhos, perrengues, filmes, música ganharam o status de supérfluo. E com isso perdeu-se a possibilidade de criação de intimidade, razão de ser da formação de vínculo.
Encontrar deixou de ser ação para ser apenas um verbo.
Tenho me deparado com um sem-número de pessoas que reclamam da dificuldade de encontros reais nesses últimos tempos, curiosamente nunca antes tão facilitado por diferentes formas de comunicação.
Os sites de relacionamento são prova disso. Criados para aproximar pessoas, tornaram-se cardápios biográficos, as vezes verdadeiros, as vezes falsos. Telas cheias de fotos, intenções, desejos, foram banalizados pela dificuldade em transpor a comunicação da tela para a presença. Se encontrar requer disposição para a presença, isso significa encontrar o outro e a si mesmo. Se a vida é a arte do encontro, embora haja tantos desencontros pela vida, como já cantou o poeta, arriscar-se ao encantamento da convergência demanda superar a facilidade da mediação da tela pela coragem do expor-se, ao vivo e em cores.
No presencial algumas máscaras não servem tão facilmente. O botão off não é tão acessível. O risco de rejeição parece maior diante da possibilidade de não se pertencer a um nicho, cluster, clube ou bolha de interesse, onde o encontro com o diferente pode representar uma ameaça. Sou levada a pensar o quanto a proteção gerada pela tela não contribuiu para a dificuldade do encontro presencial.
Curiosamente, uma nova modalidade de encontro começa a ganhar força. Almoços, jantares e cafés são promovidos para aproximar um grupo de pessoas, que não se conhecem a priori, mas têm o desejo de uma conversa acompanhada de uma xícara de café ou de uma taça de vinho. E nesse ambiente favorecido pelo desejo de estar juntos, em um mesmo lugar, 4, 6 ou mais pessoas compartilham uma humanidade que parece se esvair. Quase todas relatam a dificuldade de descobrir lugares que favoreçam o encontro com outras pessoas. Curiosamente, quase sempre as conversas giram em torno da superação da solidão, do desejo de olhar nos olhos ou simplesmente de estar. E talvez essa seja uma tendência desse momento, que também aponta para uma exaustão da virtualidade.
É tempo de reinventar a arte do encontro e “se alguém por mim perguntar, diga que eu só vou voltar, quando eu me encontrar”.


