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Pertencer ou não pertencer… Eis a questão

Pertencer ou não pertencer… Eis a questão

O problema não está em pertencer.

Por Pedro Pirim Rodrigues, cofundador da Voz Futura

O que te faz pertencer a um grupo é também o que pode te fazer perder a sua própria medida. Eu vivo com  uma sensação em praticamente todas as minhas relações: a de querer pertencer. Não é novidade e não é um defeito. É uma condição humana. Desde os primeiros agrupamentos sociais, pertencer a um grupo era literalmente uma questão de sobrevivência. Estar dentro significava proteção. Estar fora poderia representar um risco. Mas como quase tudo que é essencial, também carrega um preço. Existe um estudo clássico do psicólogo Solomon Asch, na década de 1950, que ficou conhecido justamente por testar o quanto estamos dispostos a abrir mão da nossa própria percepção para caber em um grupo. No experimento, participantes eram colocados em uma sala com outras pessoas (atores, sem que eles soubessem) e precisavam responder qual linha era maior em uma comparação visual simples. A resposta correta era óbvia. Ainda assim, quando o grupo inteiro dava uma resposta errada de forma unânime, cerca de 75% dos participantes concordavam com o erro pelo menos uma vez. Não porque não sabiam a resposta. Mas porque estavam sob a pressão de não destoar. Pertencer, nesse caso, custou a própria percepção da realidade.

Décadas depois, o psicólogo Irving Janis trouxe um outro conceito que ajuda a entender esse mesmo fenômeno em escala coletiva – o groupthink (pensamento de grupo). Ele analisou decisões políticas catastróficas como a invasão da Baía dos Porcos e identificou um padrão: grupos altamente coesos tendem a priorizar a harmonia e o consenso acima da análise crítica. Ninguém quer ser o “estraga prazer”. Ninguém quer ser o dissidente, ou o desviante. E, nesse processo, decisões ruins são tomadas – não por falta de inteligência, mas por excesso de conformidade – também conhecido como “social compliance”. A necessidade de pertencimento começa a distorcer o julgamento.

E talvez isso explique um pouco do que vemos hoje. Redes sociais que funcionam como grandes arquibancadas emocionais. Grupos que se organizam mais pela exclusão do outro do que pela construção de algo em comum. Narrativas que reforçam identidade, mas também endurecem posições. Como se pertencer exigisse, necessariamente, concordar. Como se discordar fosse uma ameaça e não uma possibilidade de expansão. Eu escrevi em outro momento que “uma coisa é reconhecer diferenças, outra é transformar diferenças em trincheiras” . E aqui existe um ponto importante: quando o pertencimento passa a depender da uniformidade, ele deixa de ser conexão e passa a ser condicionamento. E aí a gente começa, aos poucos, a se ajustar. A rir de coisas que não achamos tão engraçadas. A concordar com ideias que não são exatamente nossas. A abafar dúvidas legítimas para não correr o risco de parecer deslocado. A performar versões de nós mesmos que cabem melhor naquele ambiente. Até que, em algum momento, a pergunta deixa de ser “será que eu pertenço a esse grupo?” e passa a ser “o que eu precisei abrir mão de mim para caber aqui?”.

O psicólogo Abraham Maslow, conhecido pela sua famosa hierarquia das necessidades, coloca o pertencimento como uma das bases fundamentais da experiência humana, logo depois das necessidades fisiológicas e de segurança. Precisamos de vínculo, de afeto, de reconhecimento. Mas ele também fala sobre autorrealização. E talvez exista uma tensão inevitável entre esses dois lugares: pertencer e ser – ou “PertenSer” em homenagem a Alinne Prado e seu projeto de Iniciação.

Porque, no limite, pertencer demais pode custar ser quem você é. O problema não está em pertencer. O problema está em precisar desaparecer para isso. Existe uma diferença importante entre conexão e submissão. Entre compartilhar valores e abdicar de si. Entre construir junto e se moldar para caber. Nem sempre é fácil perceber quando cruzamos essa linha.

Porque, muitas vezes, nos afastam de nós mesmos. E talvez a pergunta que fique não seja sobre sair dos grupos – inclusive grupos de whatsapp – apesar que se faça necessário muitas vezes. Mas sobre como estar neles sem se perder e até provocar transformações de dentro pra fora. Porque pertencer é importante. Mas não deveria custar você.

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