Por Giulia Amendola
Quem vive de arte sempre causa curiosidade e até mesmo um estranhamento. “Como é possível?”. Nesta conversa com Fernanda Moreira, a @ladrilha no Instagram, o papo foi por diversos caminhos: o mais importante deles foi de buscar inspiração em uma jovem carioca que mostra que é mais do que possível espalhar poesia mundo à fora.
No seu site (ladrilha.com) ou através das suas oficinas criativas, Fernanda traz consigo uma sensibilidade imensa. Abaixo, trazemos a entrevista na íntegra. Confira:
– Quem é a Fernanda, como ela se tornou a “Ladrilha” no Instagram?
Nasci no subúrbio do Rio, em Vista Alegre, e morei por lá até meus 26 anos. Isso me formou muito como pessoa. O ir e vir e o transitar pela cidade, desde muito nova. Acho que isso também me deu o desejo de ocupar espaços que até então não eram dados pra mim. Sou essa pessoa que acredita que os espaços devem ser ocupados. A Ladrilha nasceu em 2018, de forma despretensiosa, não tinha a ideia de que ela seria um projeto. Quanto mais colava as ladrilhas na rua e postava no Instagram, mais gente chegava. Meu instagram hoje é focado somente nisso, além do site, que funciona como e-commerce. Eu não tenho uma periodicidade de publicação ideal para salvar o algoritmo, mas consigo me salvar mais um pouquinho sempre que escrevo. A Ladrilha é um projeto que nasceu na rua, portanto, é nessa a plataforma que gosto de atuar. O Instagram é o reflexo disso. Também os livros que publiquei, eu acho, são esse reflexo. Tenho dois livros: Mar é sempre beira pra quem tem medo de fundo, lançado em 2022, pela Crivo. Ele está à venda no Brasil e em NY. E o “Tem coisa que eu não te disse”, plaquete lançada pela Mapa Lab no final de 2024.
– Muita gente acha que viver de arte é um privilégio dos mais ricos e não enxerga o caminho que muitos trilham para poder se dedicar a ela. Como tem sido esse percurso para você?
Fui CLT a vida inteira por mais de 15 anos. Esse ano, pedi demissão de uma empresa grande – onde estava trabalhando como Coordenadora de Conteúdo – para me dedicar à Ladrilha e a freelas de produção de conteúdo e texto. Além da Ladrilha, eu também sou redatora e escrevo para uma porção de marcas de moda. Não dá para simplesmente viver de arte ou viver de um sonho, sem que isso não seja minimamente planejado – quando não se é herdeiro, que é o meu caso. Precisamos também tirar essa máxima de que “largar tudo para viver do que se ama” é uma realização. Estamos em um país com uma desigualdade social profunda, a maior parte de nós não tem condição sequer de pensar no que se ama, quanto mais de realizar isso de forma prática. São pequenos sonhos e pequenos passos todos os dias. Eu gosto de um otimismo cotidiano e é isso que me faz ir pra frente: ir fazendo.
– Como surgem as frases que viram Ladrilhas? Como você decide os locais onde você as deixa?
Certo dia, ouvi de um amigo escritor que ele não escreve sobre algo, e sim a partir de algo. Isso mudou completamente minha forma de encarar o meu ofício. Sintetizou como eu sempre senti: escrevo a partir de algo que me atravessa, então, são assim que as frases surgem. De forma prática, gosto de articular ou desenvolver um texto maior a partir da frase que penso, às vezes ela é modificada no caminho. E indo um pouco em relação à pergunta anterior, os lugares muitas vezes são escolhidos pela praticidade: na hora do almoço, no intervalo de uma reunião ou outra, como dá. Mas gosto de pensar em espaços com bastante trânsito de gente. Também gosto de colar quando viajo. Tenho muitas obras espalhadas no Rio, que é minha cidade, e também tive a oportunidade de Ladrilhar Salvador, São Paulo, Buenos Aires e Nova Iorque.
– Quais são seus desejos para 2026 em termos de crescimento pessoal e profissional?
Desde que a Ladrilha surgiu, eu realizo oficinas de sensibilização poética e escrita para fora e dentro de empresas. É muito legal, cada um sai da oficina com uma ladrilha feita por si mesmo. Tenho feito muitas oficinas para crianças e meu maior desejo para esse ano é que elas aconteçam ainda mais. Criança é meu público preferido. Quero seguir criando novas frases, conhecendo e intervindo em novos lugares e, de alguma forma, tornar o meu projeto mais sustentável pra mim.
– Como você cria a sensibilização poética em quem acha que não é para poesia? Relembrando a pessoa de que ela está viva e não há poesia maior do que essa. Estar vivo é estar imprescindivelmente atento. Um poeta se faz com leitura de mundos, não só de livros. Ler as pessoas, as coisas, os troços, a si mesmo… Está aí a sensibilização.


