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Tolerar as frustrações: prova de maturidade

Tolerar as frustrações: prova de maturidade

Há muitos anos me dedico a estudar a derrota.

Por Katia Rubio, professora e pesquisadora da Faculdade de Educação da USP e especialista em psicologia do esporte

Há muitos anos me dedico a estudar a derrota. Tema tabu em uma sociedade competitiva e hiperativa em que vivemos, na qual o descumprimento de metas pode representar o fim de um sono tranquilo ou mesmo a perda de um contrato de trabalho, a derrota é uma espécie de sombra social contemporânea, tema que ao ser abordado as pessoas falam de lado e olham para o chão. 

Isso porque a sobrevalorização da vitória impede a reflexão sobre a qualidade dessas experiências antagônicas.

Falar e lidar com a derrota exige cabeça erguida e coragem. Os que a negam, quase sempre guardam nas profundezas de suas almas uma dose de covardia, rejeitando-a. E ao negá-la não elaboram as muitas lições possíveis de se aprender, relegando essa experiência ao círculo das sombras, onde habitam outras tantas dores e frustrações com as quais não se quer discutir, muito menos elaborar.

Se tomadas como consequência natural de um processo que envolve dedicação, consciência e uma dose do imponderável, tanto a vitória como a derrota seguiriam o curso natural de outros eventos cotidianos. Mas, os seres humanos parecem ter uma queda pela confusão.

No esporte, por exemplo, a competição só é possível na presença de um adversário. Isso mesmo, sem adversário não há competição e a razão de ser e de existir do esporte é justamente o embate entre duas ou mais pessoas, na busca do melhor de si. Digo o melhor de si porque a competição nunca deveria ser contra o outro, mas sim, com o outro. Aí reside o tal do espírito esportivo, que deveria redundar na ética esportiva, fair play, valores e tantas coisas mais. No entanto, reflexo de uma sociedade competitiva, que levou o esporte a ser um grande negócio, a competição com o outro se tornou um “vencer a qualquer custo”. E os desdobramentos disso podem ser avaliados tanto intra esporte como extra esporte. Internamente, atletas disputam os espaços profissionais em busca de resultados que levam a prêmios e contratos, alguns deles com valores inimagináveis. Externamente, a sociedade responde tomando esse lugar, (ocupado por tão poucos, diga-se de passagem), como um ideal facilmente alcançável, mas apenas aqueles que estão dentro do sistema sabem quão difícil é chegar até ali.

E na esteira da analogia com a competição esportiva são arrastadas outras tantas realizações humanas, metrificadas por um pseudo mérito, afinal, a competição foi reduzida a isso.

A derrota toca em um ponto sensível e todo e qualquer humano que é a frustração, é o impedimento de um desejo que, nas crianças se entende pelo egocentrismo, onipotência do desejo. E nos adultos pode ser a prova da maturidade, momento da vida no qual já é possível entender que não se pode ter tudo aquilo que se deseja, ainda que sinais, indícios ou o próprio desejo apontem na direção de sua realização. 

Acompanhei nos últimos dias a corrida à estatueta do Oscar, prêmio tão desejado pelos artistas como o é uma medalha olímpica para atletas. O périplo para se chegar à essa realização envolve a produção de um filme, o reconhecimento pela crítica e pelo público da relevância da obra, os festivais intermediários que dão a tônica do poder da obra em questão e finalmente a noite na cidade de Los Angeles onde todos os concorrentes se encontram. Assim como nas disputas olímpicas, cada artista leva em suas costas os 220 milhões de brasileiros que torcem pela obra como se fossem seus autores. No processo de defesa, a torcida produz textões, piadas, memes que, certamente, resultariam em mais um filme para concorrer em novas categorias. Não faltam afirmações sobre a brasilidade de Deus e todos os santos que habitam as montanhas de Hollywood. Isso faz pairar entre o público pouco afeito ao assunto de que a produção brasileira “já ganhou”!

Claro que desejamos uma vitória daquilo que nos representa. É óbvio que é bom demais afirmar a potência de nossa cultura, de nossa perspectiva de mundo e de ser humano, é maravilhoso ver o sul-global ser admirado por sua competência criativa, inovadora, humana. Mas, é importante lembrar que se pode vencer uma competição, como também pode-se sair dela sem o pódio. O entendimento dessa questão no esporte é para mim tão fundamental compreender que desenvolvi três categorias de análise da derrota: a derrota para si mesmo – quando não se chegou ao melhor de si; a derrota para o outro – quando o adversário é superior (e o reconhecimento dessa superioridade é uma grande lição); a derrota para o imponderável – quando há o erro do árbitro, a conduta duvidosa de algum envolvido ou questões políticas que determinam um resultado.

Não tenho dúvida alguma da qualidade de Wagner Moura como ator, nem da potência do filme “O Agente Secreto”. Aliás, nem eu, nem muitos profissionais da indústria cinematográfica. E diante do resultado do Oscar 2026 sugiro utilizarmos as lições que o esporte nos oferece. Primeiro: Wagner Moura, Kleber Mendoça Filho e toda a equipe de “O agente secreto” não foram derrotados. Chegar ao Oscar é como chegar aos Jogos Olímpicos, um mérito para poucos, e sendo assim, será sempre celebrado. Segundo: os ganhos secundários de estar entre os melhores foi dar visibilidade ao artista André Lasmar que fez o broche usado na lapela do terno de Wagner e simboliza ramo carregado pela pomba da paz; ou a Normando, produtor do modelo usado atriz Alice Carvalho, confeccionado com fibras naturais cultivadas na região amazônica, que também ostentou um broche com o mapa da América com uma perspectiva diferente dos mapas com os quais aprendemos geografia. Terceiro: uma reflexão sobre a importância do não ganhar. 

Em breve teremos Copa do Mundo, evento esportivo que suscita paixão e ignorância. Ganhar e perder faz parte do jogo, de qualquer jogo, de qualquer competição. É bom torcer para o time que ganha, mas é importante também não desmerecer o mérito do vencedor. Só assim escaparemos de uma ressaca tão duradoura como o Maracanaço de 1950 ou os 7X1 de 2014.

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