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Encontre O Idiota dentro de você

Encontre O Idiota dentro de você

A arte de acumular livros.

Por Pedro Pirim Rodrigues, cofundador da Voz Futura

Tsundoko é uma palavra em japonês que significa: “A arte de acumular livros” – na tradução literal que puxei do google. Dos últimos livros que ganhei ou comprei nas últimas semanas ainda não terminei nenhum, sendo que todos devem ter cerca de 200 a 300 páginas. Não satisfeito com a minha própria compulsão, comprei mais um – O Idiota. Sim, esse é o nome do livro e retrata bem a forma como eu mesmo me senti após comprá-lo ao perceber que o livro tem mais de 900 páginas e que, se eu não vinha conseguindo terminar nem os de 200 páginas, em que mundo eu terminaria um de 900 ? (rs) . Comprei esse livro porque fui pego pelo título e pelo que ouvi de uma pessoa próxima viciada em Dostoiévski. Por algum motivo essa pessoa disse que “lembrou de mim”. Eu ainda não entendi se isso foi um elogio ou um insulto. Talvez nenhum dos dois. Apenas uma provocação. Mas ela disse que eu iria me identificar.

Às vezes a gente faz algo com a melhor das intenções. Falamos o que pensamos com uma honestidade que assusta, demonstramos cuidado, tentamos agir com empatia, e a reação do outro lado não é exatamente a que esperávamos. Nesse lugar das “melhores intenções” está também uma vontade de agradar e de acertar. Mas o que de repente aproxima demais, também pode causar um certo estranhamento. É como se eu me despisse ou despisse a pessoa próxima a mim ao ponto que a vulnerabilidade causasse até um certo constrangimento. Como se aquela atitude estivesse fora de lugar. Deveríamos nós, pessoas sensíveis então nos conter mais?

Em algum lugar da internet eu encontrei a Carolina Michelini que escreveu algo que me chamou atenção sobre o livro O Idiota: “Para quem já tentou existir inteiro num mundo que exige máscaras”. Talvez porque exista algo reconhecível nessa ideia. Quem nunca teve a sensação de estar um pouco deslocado em certos ambientes simplesmente por sentir demais? Por perceber alguma coisa que aparentemente todo mundo prefere fingir que não está vendo? Por reagir emocionalmente a situações nas quais a expectativa social parece ser justamente a de manter uma certa frieza?

O príncipe Míchkin, protagonista de O Idiota, parece viver exatamente nesse lugar. Mas não porque seja burro ou incapaz de compreender o mundo ao redor. Pelo contrário. A sensação que fica ao longo do livro é que ele enxerga coisas que os outros personagens preferem ignorar e reage às pessoas e às situações com uma honestidade emocional que não segue muito bem as regras implícitas da convivência social. “Honestidade emocional”. Gosto desse termo e vou voltar nele em outro momento.

Mas é exatamente isso que cria o problema. Porque existem ambientes que funcionam com pequenos acordos silenciosos – relacionamentos, mundo corporativo, jantares de família, chopp com amigos que você já não identifica mais como tal. Todo mundo aprende, em algum momento, o que pode ser dito, o que deve ser escondido, quando é melhor demonstrar empatia e quando é mais conveniente manter distância emocional. Esses códigos não estão escritos em lugar nenhum, mas todos acabam aprendendo a operar dentro deles. Uma etiqueta social, emocional, que Míchkin parece não conseguir, ou talvez não querer, participar completamente desse jogo – é assim que eu me sinto cada vez mais.

No livro, o Idiota, não romantiza a bondade. Ele mostra o preço dela. Mostra como, em certos contextos, a presença de alguém que insiste em agir com empatia, honestidade ou compaixão pode acabar desorganizando o ambiente inteiro, principalmente o seu próprio – interno. Não porque exista algo de errado nessas atitudes, mas porque elas expõem aquilo que os outros personagens preferem manter encoberto. E quem é que quer ser descoberto, desvendado, desnudado pelo outro?
Em um mundo emocionalmente endurecido, regido por números e controlado por algorítmos a sensibilidade pode acabar sendo percebida quase como uma forma de loucura ou rebeldia. Não porque ela esteja errada, mas porque ela não segue a lógica dominante de que a “frieza” ou a racionalidade deveriam imperar em sobreposição ao cérebro emocional. Talvez todos nós já tenhamos presenciado algo parecido em algum momento. Aquela situação em que alguém reage de forma genuinamente empática ou honesta e imediatamente surge um certo desconforto no ambiente, como se demonstrar cuidado, compaixão ou vulnerabilidade fosse, de alguma forma, um erro de leitura do contexto.

Será que isso acontece porque a bondade assusta e não estamos acostumados com ela genuinamente? Achamos que essa bondade gratuita não existe ou porque gera um compromisso ou necessidade de precisar haver algo em troca? Essa talvez seja uma das perguntas mais incômodas que o Idiota deixa no livro – pelo menos por enquanto e pelo menos pra mim. Em um mundo acostumado a funcionar a partir da desconfiança, da competição e de pequenos jogos de poder, a bondade pode parecer uma ameaça. E quando isso acontece, a sensibilidade passa a ser tratada como defeito, a honestidade emocional como fraqueza – é só pensar nos personagens que serviram de inspiração para o personagem principal do livro.

Mas qual é o custo de permanecer humano em ambientes que premiam a dureza? Ao longo da vida aprendemos a fazer pequenas concessões emocionais para conseguir conviver melhor com o mundo – ou apenas a criar a falsa ilusão que sim. Algumas são necessárias, outras fazem parte do processo natural de amadurecimento, mas existe sempre um limite nesse movimento que é o de se respeitar. Proteger-se demais começa a se parecer um pouco com anestesiamento e eu acho que não deveria. O que O Idiota parece perguntar é até onde estamos dispostos a ir nesse processo e quanto da nossa própria sensibilidade estamos dispostos a abrir mão para nos adaptar melhor a um mundo que muitas vezes prefere pessoas um pouco mais duras.

O que eu tenho aprendido com isso tudo? É que eu prefiro ser como o “O Idiota” do que me esconder atrás de algo ou alguém que eu não sou. 

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