Por Giulia Amendola, diretora de comunicação da Voz Futura
Eu tirei carteira há uns 13 anos. Minha mãe me deu muita força, meu pai pagou, mas era contra. Demorei uns cinco anos para, de fato, começar a dirigir. Cheguei a fazer uma espécie de reciclagem na autoescola só para provar para ele e para mim mesma que eu era capaz. Sem muita prática, andando praticamente pelo bairro, eu não tinha muita oportunidade de chegar até a quinta marcha.
Quando comecei a fazer o trajeto Recreio – Jardim Botânico na pandemia, as vias todas livres, tive que enfrentá-la. Por algum motivo, eu tinha medo dela. Uma marcha igual a qualquer outra, é verdade, mas eu achava que erraria – que o carro engasgaria, que eu não acertaria o encaixe. Ou que eu perderia a força da máquina em um momento que eu precisasse ir além.
A única forma de evitá-la seria desacelerando, mas às vezes a rua te pede que você ande numa determinada velocidade para não causar acidentes – nem para você, nem para os outros.
Assim como a vida, né?
Enfrentar a quinta marcha do carro me fez pensar em quantas vezes eu não desacelerei quando eu estava precisando. A nossa rotina pede uma velocidade alucinada, é verdade. Mas será que às vezes a gente não pode encostar? Parar para tomar um café e deixar o fluxo da cidade seguir?
Acho que muitas vezes a gente acha que não pode dar a seta e ir para a faixa da direita, simplesmente porque tem que provar pro carro de trás que a gente tá dando conta. Mas se até a máquina pode falhar, alguns buracos, quebra-molas novos, pardais recém colocados, o que isso faz nos lembrar sobre nós mesmos?
Não é para ter medo da quinta marcha – afinal, ela pode nos levar para lugares que nunca fomos antes. Lembro quando eu peguei estrada pela primeira vez e, andando pela Rio-Santos, me lembrei do meu avô e do meu pai, que já tinham dirigido por ali antes.
Acho que o grande desafio é saber ao certo quando usá-la – nem para acelerar porque os outros querem, nem evitá-la quando a gente pode ir além.
A vi(d)a pode até nos pressa, mas quem tem que saber o ritmo certo do acelerador é a gente.


