Por Igor Monteiro, consultor de aprendizagem corporativa e especialista em design instrucional
Sou um aficionado por uma modalidade esportiva que, em tese, não premia os competidores.
Digo em tese porque, em tempos de redes sociais e viralizações instantâneas, algumas “provas” dessa tradicional modalidade são premiadas com uma outra valiosa medalha: a da atenção – em alguns casos, global.
A modalidade a que me refiro? A das entrevistas coletivas de atletas.
A forma mais próxima que teremos de enxergar o mundo usando um pouco das lentes daqueles que escrevem seus nomes nas histórias em eventos globais. A estratégia mais eficiente que conheço para acessar uma das minhas paixões mais antigas: as boas histórias.
Se você, assim como eu, também compartilha esse fascínio por narrativas e entrevistas coletivas de atletas, as Olimpíadas de Inverno, evento global que reúne as modalidades esportivas geladas, apresentou para o mundo uma personagem absolutamente encantadora – a esquiadora de estilo livre Eileen Gu.
Confesso que não assisti a uma só prova disputada por Gu.
Por isso, meu artigo de hoje para a Voz Futura não é uma abordagem sobre as conquistas alcançadas por Gu através do esqui. Mas sim através de sua voz.
Afinal, no final das contas, a melhor história vence.
Duas pratas ou dois ouros?!
Aos 22 anos, Eileen Gu soma 6 medalhas olímpicas na carreira, conquistadas nas edições dos Jogos de Inverno de Pequim 2022 e agora em Milão-Cortina 2026.
Na edição recém encerrada dos Jogos, após conquistar duas medalhas de Prata, Gu concedeu a primeira de suas entrevistas que tomaram as redes sociais.
Em uma coletiva pós competição, um jornalista tendenciosamente perguntou como a atleta enxergava as duas medalhas: como duas pratas conquistadas ou como dois ouros perdidos?
Sinal verde para Gu dar uma primeira demonstração de como funciona sua mentalidade.
Em um misto de ironia e firmeza, Gu respondeu ser a esquiadora acrobática mais premiada da história, de forma que seria absurda a lógica de tratar medalhas conquistadas como fracassos.
Foi a riqueza dessa resposta que me deixou atento àquela e às suas demais entrevistas. Pois, do auge de seus 22 anos, a esquiadora olímpica parece preparada para lidar com uma lógica perversa que nos cerca a cada vez que rolamos o feed das redes.
Vivemos uma era em que somos invariavelmente impulsionados e até de certa forma pressionados a emitir opiniões sobre os mais variados assuntos. De decisões políticas a posicionamentos de marcas. De episódios geopolíticos a eventos culturais. De operações de segurança pública à performance esportiva.
Seguindo a lógica da rage bait (isca de raiva) que comentei no meu artigo anterior, prevalecem opiniões e comentários invariavelmente críticos – quando não, cruéis.
Comentários, em geral, escritos, compartilhados e/ ou publicados por “especialistas” confortavelmente sentados em seus sofás, com um celular na mão, no conforto de suas casas e escritórios. Longe, muito longe, da adrenalina pulsante da arena da “vida real” ou de qualquer conhecimento necessário para emitir opiniões realmente válidas.
A pergunta lançada a Gu carregava esse viés crítico de quem assistiu confortavelmente a sua performance. De quem possivelmente nunca disputou um evento da magnitude de uma Olimpíada. Mas que, de alguma forma, se viu no direito de diminuir o feito de uma atleta que segue escrevendo seu nome na história.
Recebeu como resposta a declaração de alguém que se moldou efetivamente na Arena.
Que compreende o tamanho de seu feito por ter a dimensão do desafio – da preparação até a prova. E que parece ter complementado essa fala numa segunda entrevista, quando explicou melhor como molda sua mentalidade.
Você pensa antes de falar?!
Numa segunda entrevista viral, uma repórter perguntou a Gu se ela pensava antes de falar. Não como uma ofensa, como a própria entrevistadora declarou. Mas como um pedido para que a atleta nos levasse a entender como ela articula seus pensamentos em respostas.
Pergunta brilhante. Aplaudida na sala da coletiva.
Um novo sinal verde para Gu dar uma genial demonstração sobre como molda sua forma de pensar.
Para um amante de entrevistas coletivas e comportamento humano, o melhor vídeo/ corte que as Olimpíadas de Inverno de 2026 proporcionou – material a ser explorado em algum dos meus treinamentos.
Eileen começa sua resposta agradecendo e se reconhecendo uma jovem mulher introspectiva – que passa muito tempo em sua cabeça, com seus pensamentos.
Por timidez? Insegurança? Alguma vergonha?
Não! Por estratégia.
Passar tempo com seus pensamentos é a oportunidade de controlar e modelar o que e como você pensa. Modelar seus pensamentos é ter o controle sobre quem você é!
Usando a seu favor sua juventude e latente neuroplasticidade, essa capacidade cerebral de redefinir caminhos e conexões internas, Eileen compreendeu cedo que pode realmente se tornar quem ela quiser.
E se transformar, todos os dias, em suas próprias palavras, no tipo de pessoa que a ela mesma “de 8 anos de idade idolatraria.”
Eileen entendeu muito cedo uma lógica da mente das pessoas vencedoras – por isso se tornou uma delas: O jogo, seja ele qual for, do esqui estilo livre à sua performance no trabalho, começa aí dentro. Entre você e a forma como você pensa.
Um jogo experimental. De ajuste fino e diário. De analisar a qualidade do que pensamos e refletir sobre a possibilidade de tomar outros caminhos. Reescrever circuitos neurais na forma de modelos mais favoráveis, alinhados aos sonhados resultados.
Um jogo que se ocupa menos com o ruído do lado de fora.
– que sempre terá um tom crítico, não importa quem você é, o que você faça ou como faça.
Um jogo que se ocupa muito mais com as vozes que vêm de dentro. Com o que dizemos para nós mesmos. E como essas vozes nos impulsionam – ou não – na direção das ações alinhadas com os reais objetivos.
Você pode até não compreender o esporte de Eileen Gu ou qualquer outra das tantas modalidades olímpicas disputadas nos Jogos de Inverno. Não conheço nenhuma delas.
Mas compreender o empenho de Gu nesse jogo abordado em suas entrevistas é uma poderosa estratégia para vencer todos os desafios que se apresentarem para você.


