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Pensar dói? Estudo revela que pessoas preferem receber choques elétricos a ficarem sozinhas. 

Pensar dói? Estudo revela que pessoas preferem receber choques elétricos a ficarem sozinhas. 

Por Pedro Pirim Rodrigues, cofundador da Voz Futura

Outro dia reli uma pesquisa sobre a qual tinha uma vaga lembrança só pra ter certeza de que tinha entendido que era aquilo mesmo. Pessoas preferiram receber pequenos choques elétricos a ficarem sozinhas, em silêncio, apenas pensando por alguns minutos em um quarto. Sim, é isso mesmo. Sem celular, sem música, sem estímulo. Só você com você. O estudo virou notícia há alguns anos e parecia absurdo demais pra ser verdade, mas talvez ele seja apenas desconfortavelmente honesto. A reportagem saiu no G1 em 2014, e desde então eu fico pensando que essa nossa falta de capacidade de ficarmos bem com nós mesmos só aumenta, por conta de todos os estímulos e como, o que a gente pode fazer pra melhorar essa nossa relação entre a gente com a gente.

Em paralelo a isso, recentemente, escutei um episódio do podcast O Assunto falando sobre o mito da multitarefa e sobre a importância do ócio para o funcionamento saudável do cérebro. A ciência já sabe há algum tempo que não somos “multitask” de verdade. O cérebro alterna foco, e cada alternância tem um custo cognitivo. Mesmo assim, romantizamos a ideia de fazer mil coisas ao mesmo tempo como se isso fosse massa. Virou elogio ser acelerado; virou glamour ser o último a sair e apagar a luz; virou sinal de performance estar sempre ocupado. Vivemos pulando de aba em aba, de conversa em conversa, de vídeo em vídeo, enquanto repetimos para nós mesmos que estamos “dando conta”. Mas não estamos. Estamos fragmentando nossa atenção e junto com ela, fragmentando a nossa própria capacidade de presença e de sustentar relações. Estamos vivendo com nós mesmos e nas nossas relações da mesma maneira como interagimos com as telas. Cortes curtos e rápidos de 15 segundos a poucos minutos.

E o que eu fiquei pensando tentando concatenar as ideias entre essas duas coisas sobre a falácia do multitask performático e a ideia de que a gente não aguenta um segundo de solitude a ponto de se dar um choque, foi a conexão entre elas. Se preferimos um choque ao silêncio e, ao mesmo tempo, evitamos o ócio que organiza a mente, e achamos que o bonito é fazer mil coisas ao mesmo tempo, então talvez estejamos fugindo exatamente daquilo que poderia trazer equilíbrio: o silêncio. Ficar sozinho com os próprios pensamentos exige uma habilidade que desaprendemos e que significa tolerar o desconforto interno. Porque quando desligamos o mundo externo, nos conectamos com o que ficou abafado internamente. Ansiedade, dúvidas, culpa, medo, frustrações não resolvidas, perguntas que vêm sendo adiadas há anos. É mais fácil abrir o Instagram, responder e-mails ou inventar mais uma tarefa urgente do que encarar o que dói de verdade. Às vezes parece até mais fácil sentir uma dor física do que sustentar uma dor simbólica  – porque a gente sabe da onde vem e se sente mais no controle dessa dor do que de uma que ainda não conseguimos elaborar.

O ócio, que deveria ser um espaço fértil para organizar memórias, consolidar aprendizados e criar conexões inesperadas, foi rebatizado como preguiça, diante de uma sociedade que vive se sentindo culpada pela exigência constante de entregar mais e mais (que saudade de viver em um mundo mais lento). Até pensar virou perda de tempo. Talvez não sejamos produtivos demais, talvez a gente só seja muito bom em evitar o que realmente importa demais. Nos tornamos “evitadores” ao invés de pensadores. Evitamos sentir profundamente, evitamos escolher, evitamos mudar. Porque pensar de verdade leva a decisões, e decisões exigem responsabilidade. E a responsabilidade dá medo. Autorresponsabilidade é fueda… Por isso que ninguém quer tomar decisão e prefere delegar ou terceirizar a culpa das coisas.

Talvez você não esteja ansioso demais. Talvez esteja estimulado demais. Talvez você não esteja perdido, talvez esteja apenas sem espaço interno para se escutar. O silêncio parece que virou ameaça, mas eu acho, lá no fundo, que ele pode ser seu melhor amigo. Essa ansiedade que a gente sente que está vivendo não é uma ansiedade construtiva que impulsiona. É ansiedade que paralisa e trava pelo excesso. É tanta coisa que a gente não sabe nem parar para organizar.
Se você anda cansado, sobrecarregado, com a sensação de que sua cabeça nunca desliga, talvez o primeiro passo não seja fazer mais. Talvez seja parar. Cinco minutos já bastam. Sem tela, sem música, sem estímulo. Vai dar vontade de sair correndo ou se dar um choque (rs – brincadeira… não façam isso). Faz parte. Mas do outro lado desse desconforto pode existir algo raro que é o prazer de fazer nada e de ver as coisas de forma clara. O cérebro precisa do ócio como o músculo precisa do descanso. A mente precisa do silêncio como o corpo precisa do sono.

Você não é fraco por achar difícil ficar sozinho com seus pensamentos. Você é humano. A capacidade de pensar profundamente não foi perdida, ela só está soterrada sob camadas de estímulo, notificações que só parecem uma urgência inventada por nós mesmos em fuga de ter que lidar com o que realmente dói (ufa…). E toda vez que você cria um pequeno espaço de silêncio, começa, ainda que discretamente, a se reencontrar. O verdadeiro luxo contemporâneo não é produzir mais e sim conseguir ficar, em paz, alguns minutos… em silêncio… com calma… respirando baixinho… com si. (sshhh…)

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