Por Katia Rubio, professora e pesquisadora da Faculdade de Educação da USP e especialista em psicologia do esporte
Desde que me conheço como professora e pesquisadora dedicada a compreender o fenômeno esportivo insisto em afirmar que a frase “esporte e política não se misturam” agrada apenas a quem detém o poder. A estrutura do esporte nunca se declarou democrática ou afeita a esse sistema político. Isso porque quem a criou já detinha seu poder, dominava parte do mundo e não pretendia reparti-lo.
Passado mais de um século, e com a transformação do esporte em um dos negócios mais rentáveis do planeta, é tempo de redimensionar o que se entende por “mistura” e qual o verdadeiro impacto daquilo que vai para além da competição. Jogos e campeonatos de caráter global, e mesmo alguns locais, têm o poder de atrair a atenção de um público que vai além da torcida. E o mundo “business” planeja com a antecedência de seus planejamentos anuais as ações para serem implementadas nesses momentos.
O Superbowl é um desses casos. A final das finais do futebol americano é conhecida no mundo do marketing como um dos espaços midiáticos de maior visibilidade e valor em termos globais. Muitas marcas produzem um comercial de 30 segundos única e exclusivamente para ser veiculado nesse momento a preços inimagináveis. O espetáculo musical apresentado durante o intervalo é esperando como um show único. E milhões de espectadores acompanham esse evento pelas telas de TV, tablets, telefones e qualquer outro equipamento que no mundo atual capte o que se passa em tempo real em qualquer lugar do planeta.
E a final desse ano de 2026 não podia ser diferente. E o que era para ser “apenas” um jogo se tornou o palco de uma das manifestações de maior impacto político para os Estados Unidos da América, país que sofre com o desentendimento de sua própria história e formação.
Esporte se confunde com entretenimento quando o que está em jogo é a audiência. Daí a mistura da competição como todos os penduricalhos que vem junto com a final de campeonato: mascotes que desfilam, malabaristas que triplicam piruetas, comida e bebida que alimentariam os famintos do planeta por algumas semanas e artistas fazem parte do pacote. Este ano, ninguém menos que o ganhador o Grammy de Melhor Álbum do ano de 2025, Benito Antonio Martinez Ocasio, conhecido como Bad Bunny, um rapper porto riquenho, que vive nos EUA e faz questão de cantar e falar em espanhol.
E o que ele fez no intervalo do Superbowl foi justamente aproveitar a visibilidade global daquele momento para afirmar sua postura política diante da perseguição que vivem os imigrantes em terras tomadas aos povos originários. Afirmando a condição de um país construído e sustentado pela força do trabalho de tantos imigrantes que tornaram os EUA o que é, em poucos minutos de espetáculo Bad Bunny mandou um recado sobre que a América não é um país, mas um continente onde se fala espanhol, português, inglês, francês além de todos as línguas dos povos originários. Mostrou conhecimento de história, cultura, geografia embalado por ritmo, respeito à memória ancestral e acolhimento tão raro, e ao mesmo tempo, necessário, quando o medo está à solta pelas ruas, encurralando famílias em suas casas.
E tudo isso dentro de um evento esportivo.
Como negar a relação entre esporte e política? Negar essa máxima é desprezar a inteligência de quem gosta ou apenas assiste à uma competição esportiva. Em um evento realizado fora da esfera geográfica onde o esporte foi criado isso ficou mais do que evidente. É tempo de colocar o esporte no seu devido lugar na sociedade. Como fenômeno sociocultural que é, mas principalmente por todos os símbolos que carrega.
Em uma final de campeonato de futebol americano um rapper materializa o sonho de Simon Bolívar e José San Martí apresentando ao mundo um continente como uma nação, respeitando suas bandeiras e fronteiras. A ação lembra um ato da rebelde trupe tropicalista, com letra de Capinan e melodia de Gilberto Gil, cantada por Caetano Veloso anunciava seu amor pelo continente. Soy loco por ti America, de 1967, em ritmo de rumba e um clássico portunhol exaltava tudo aquilo do que temos orgulho nessa América de Martís, Silvas, cores, praias, céu azul, sorrisos, canções, calor, fraternidade, afeto.
Por isso somos loucos por tudo aquilo que é criação tão original, principalmente, seu povo.


