Por Camilla Bloisa, arquiteta, professora e art advisor
Barroco é um termo que se aprende na escola, como algo do passado distante, mas acontece que o barroco ainda está presente e em constante evolução. Quer algo mais barroco que o carnaval? O exagero, os brilhos, os carros alegóricos e as fantasias que servem de fuga… tudo grita! Uma herança que vem do Brasil colonial, da ideia de subverter papéis com máscaras.

O barroco é uma costura que une nossa história; um movimento que não ficou no passado, mas que segue ocupando o presente. Sonia Gomes nos prova que a arte pode dar nova vida às coisas, e isso é que nos mantém vivos.
Fui atravessada pela exposição Barroco Mesmo da artista no Instituto Tomie Ohtake, realizada em parceria com o Museu da Inconfidência (Ouro Preto, MG) e o Museu de Arte Contemporânea da Bahia, nada mais que o berço do barroco brasileiro. A mostra encerrou no dia 8 de fevereiro, mas o impacto fica, e merece ser compartilhado: como o passado e presente podem ser ressignificados a partir da arte.
Sonia Gomes, nascida em 1948 em Caetanópolis (MG) é antes de tudo uma artesã. É como ela mesma se define, ela chegou na arte muito depois de criar suas roupas e objetos costurados. Suas ferramentas são linhas e agulhas, que tecem e transformam objetos e tecidos em algo novo. Não é descarte, pelo contrário, são afetos que serão transformados em arte. Às vezes, é preciso se refazer para renascer, e nem sempre será fácil. “O material chega aqui pedindo socorro”, diz Sonia.
Muitas vezes será como o barroco: sofrido, retorcido, expondo feridas que ensinam. Como o tronco de madeira que teve um galho amputado – e foi ali que Sonia interferiu, com camadas de carinho, tinta e folha de ouro.

Importante lembrar que o barroco no Brasil, assim como a vida, transborda vitalidade mas carrega a dor. Um passado colonial e escravagista; a força física que ergueu igrejas e esculpiu as belezas de Aleijadinho, mas que também sentiu na carne, e ainda sente.
A exposição remontou uma parte do seu ateliê, repleto de adereços, tecidos, bordados, aviamentos e pequenos objetos. Assim como uma igreja barroca carregada de querubins, ornamentos, volutas e adornos, Sonia nos apresenta um lado quase biográfico e pessoal.
A mostra expôs também suas “famílias” de obras mais abstratas e reconhecidas mundialmente: são as torções, pendentes e panos. 20 anos atrás Sonia, através de um antiquário de móveis barrocos, encontrou uma maneira de levar sua produção ao meio da arte contemporânea. E nessa caminhada transformou muita história em arte.
Além da materialidade das rendas, jutas e memórias, Sonia acrescenta o gesto, como bem pontuou o curador, Paulo Myada “proteger, remendar, envolver, recobrir”. São gestos de cura: um olhar feminino e marginalizado que reflete sobre a memória da nossa história, seja ela pessoal ou do país.
“Eu paro quando vejo a beleza”
Sonia Gomes

Além das obras, o espaço comove. A expografia (a arquitetura de uma exposição) sintetizou o movimento: paredes vermelhas, iluminação dramática e tecidos como divisórias. Uma espiral em voil transparente com recortes e costuras que desvelam as obras. Barroco, mesmo!
Sonia saiu de Caetanópolis para a Bienal de Veneza, o Storm King em Nova York e a Tate Modern de Londres, só para citar algumas de suas exposições e coleções que faz parte.
O barroco dela, feito de retalhos e amarrações, provou que o que é local, quando dói e brilha com verdade, vira linguagem universal. Suas esculturas têm a mesma força de um carro alegórico ou de uma igreja de ouro. É a estética da sobrevivência no mundo complexo. O passado ressignificado para não virar ruína.


