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Você sabe colecionar silêncios?

Você sabe colecionar silêncios?

Uma entrevista com a autora Thais Roque.

Por Giulia Amendola, jornalista e diretora de conteúdo da Voz Futura

Engenheira biomédica de formação, leitora voraz desde a infância e agora autora de um livro que defende o silêncio como um direito, ela transita entre mundos que costumam ser vistos como opostos. Exatas e poesia, cálculo e imaginação, produtividade e pausa. Nesta conversa, ela mostra como a literatura sempre foi um lugar de respiro em meio à rigidez dos textos científicos e como escrever, hoje, se tornou também um gesto político e afetivo: um ato de resistência poética em tempos de excesso de estímulos, ruídos e urgências.

Ao falar sobre maternidade, infância, burnout, vazio e o pânico coletivo de parar, a autora propõe um retorno ao essencial. Silêncio, presença, escuta e imaginação aparecem não como luxo, mas como ferramentas de cuidado e sobrevivência. Entre histórias pessoais e reflexões profundas sobre o nosso tempo, esta entrevista convida a repensar a forma como nos relacionamos com o tempo, com nossos filhos, com o mundo — e, principalmente, com nós mesmos.

1) Você é engenheira e este não é o seu único livro. Em geral, o pessoal de “exatas” não é chegado à poesia. Como foi desbravar esse mundo para você, afinal, você descreve o livro como um ato de resistência poética? 

Isso é verdade, sou engenheira biomédica de formação. Sempre fui boa na área de exatas, mas meu amor sempre foi a literatura. Quando criança, devorava livros, especialmente nas férias, no interior, onde passava horas na pequena biblioteca. Também adorava contar histórias.

Acho que, muitas vezes, acabamos investindo mais nas áreas em que somos bons. No meu caso, as exatas. Acabei escolhendo a engenharia não só por afinidade, mas também porque parecia uma escolha mais segura do ponto de vista financeiro. Para quem, como eu, vem de um contexto de instabilidade econômica, a arte raramente aparece como uma opção real de carreira. Lembro claramente de pensar, ao decidir estudar engenharia, que dificilmente veria um engenheiro desempregado. Era uma profissão, mas também um tipo de “seguro de vida em vida”.

Mesmo assim, a literatura nunca saiu de mim. Pelo contrário: era nos clássicos e na literatura mais poética e fantástica que eu encontrava um respiro em meio aos textos científicos que precisava ler e escrever diariamente.

Quando tive meu primeiro filho, Arthur, tive a chance de redescobrir a literatura infantil e de observar de perto o impacto das histórias nas crianças. Passei a perceber o que realmente ressoava com ele: os livros que despertavam curiosidade, diversão, leitura por prazer. O livro infantil, justamente por ser curto, precisa ser poético. Ele diz muito com poucas palavras e imagens. Como uma boa poesia, cria emoções e histórias que permanecem conosco muito além da última página.

Essas histórias constroem uma conexão profunda e podem ser grandes aliadas na educação dos nossos filhos, especialmente nesta era de telas constantes, estímulos excessivos e pouco espaço para pausa. É nesse sentido que descrevo o livro como um ato de resistência poética: uma defesa do silêncio, da escuta, da imaginação e da presença como valores e direitos fundamentais para o desenvolvimento humano.

2) Como é criar esses espaços de silêncio com seu filho? 

Criar esses momentos de silêncio hoje é um desafio enorme. Os estímulos são constantes, o tempo parece sempre correr, e o “não ter nada para fazer” praticamente desapareceu do cotidiano. Mas acho importante dizer uma coisa: isso não é culpa das crianças. Elas já nasceram dentro dessa realidade. Não conhecem outra forma de viver.

A minha geração, por outro lado, conhece. Lembra das tardes longas, do tédio, das brincadeiras sem roteiro, do tempo desacelerado. Por isso, acredito que cabe a nós resgatar essas memórias e ajudar nossos filhos a descobrir outras formas de interagir com o mundo e, principalmente, proteger a infância deles.

Para fazer isso, em casa, tentamos conscientemente criar e perseguir momentos de presença real. Momentos na natureza, caminhadas, aventuras. Momentos em que estamos realmente juntos. Também tentamos modelar, dentro de casa, estar longe do celular: jogar um jogo, ler um livro, fazer uma palavra cruzada só por fazer, pintar, sem objetivo produtivo. Estar presente.

A atenção da criança está onde a nossa atenção está. Então, criar esses espaços de presença em família é também uma forma de proteger não só a atenção deles, mas a nossa própria atenção e o nosso silêncio. É um exercício conjunto.

E, claro, nem sempre dá certo. A rotina é corrida, o cansaço existe. Nesses dias, tento pelo menos encontrar um minuto: uma pequena atividade, um jogo de cartas, ler um poema, um gesto simples que me ajude a silenciar um pouco a correria. Porque, no fim, qualquer minuto de verdadeira presença já pode ser transformador.

3) Quando você também tenta fugir do silêncio, o que você faz para voltar para ele? 

Depois de duas crises de burnout, aprendi a reconhecer mais cedo quando estou precisando me recarregar de silêncios, antes que a cabeça fique cheia de ruídos. Hoje, especialmente como mãe de dois, sinto uma necessidade muito grande de estar comigo mesma.

Essa necessidade muitas vezes vem acompanhada de culpa, algo bastante comum para mães (e também para pais). Mas aprendi, com o tempo, que esse tempo comigo não me afasta deles; ao contrário, é o que me permite estar melhor, mais presente e mais disponível.

Por isso, todos os dias tento aumentar a minha coleção de silêncios. Um dia é uma caminhada sem fone, apenas ouvindo os sons ao meu redor. Em outro, uma ida à academia. Às vezes, quando volto no carro depois de deixar meu filho, desligo o som e fico ali, em silêncio. São pequenos gestos, mas que fazem uma grande diferença.

Na Bienal, cheguei a lançar um pequeno desafio: trocava um minuto de silêncio por um ouro branco. Foi muito interessante observar a transformação das pessoas e a minha também. O antes e o depois de apenas um minuto. A percepção do outro, do ambiente, do próprio corpo. O coração desacelerando. 

É por isso que digo que, de certa forma, criei O Colecionador de Silêncios também como uma maneira de alinhar o que eu prego com o que eu pratico. Um lembrete cotidiano de que o silêncio não precisa ser grande ou perfeito. 

4) Assim como o Petrulho, muita gente tem medo do vazio. De onde você acha que vem esse “pânico” coletivo? 

Eu acho que o ser humano sempre criou maneiras de fugir da realidade, nem que seja por um pequeno momento. Histórias, sonhos, jogos, a arte. Tudo isso nos ajuda a imaginar e criar realidades diferentes das nossas. Essa fuga, em si, é humana e até necessária.

O problema é que, conforme nossa sociedade foi “evoluindo”, nossos desafios ficaram mais complexos. Tudo se tornou mais hiperconectado, mais acelerado e, ao mesmo tempo, mais difícil de compreender. Somos diariamente bombardeados por notícias ruins que engajam, por influenciadores disputando nossa atenção, por mensagens constantes de que não somos suficientes. O vazio é muitas vezes visto como fracasso. 

Com isso, cresce a sensação de insegurança. Vem a ideia de que somos individualmente responsáveis por dar conta de tudo – nosso sucesso, nosso futuro, nossa felicidade. A meritocracia misturada a um capitalismo extremo nos coloca numa busca constante por algo externo: a próxima conquista, a próxima resposta, a próxima coisa que supostamente vai mudar nossa vida. Seguimos correndo, muitas vezes sem saber para onde. Não nos permitimos parar. 

Esse pânico coletivo, para mim, nasce justamente daí: de um sentimento profundo de não ser suficiente, do medo de não pertencer, de uma pandemia da solidão e de uma desconexão crescente entre o que acontece na vida real e o que imaginamos que acontece na vida digital.

Ao mesmo tempo, acredito que estamos começando a ver um movimento sutil, porém constante, de volta ao básico que funciona. Alimentação de verdade, sono de qualidade, movimento do corpo, momentos em comunidade. Surgem clubes offline, pessoas se reunindo para ler, montar quebra-cabeças, tricotar, fazer trabalhos manuais, estar juntas, sem performance.

É nesse contexto que eu acho que O Colecionador de Silêncios se encaixa. Ele aponta que o caminho de volta para nós mesmos (e para o outro) não passa por mais estímulos, mais respostas ou mais velocidade. Passa pelo silêncio. O silêncio como chave para interromper esse pânico coletivo e como uma forma simples, acessível e humana de dar o fora dessa necessidade constante de fuga. O silêncio como chave para interromper esse pânico coletivo e como uma forma simples, acessível e humana de dar o fora dessa necessidade constante de fuga. Ele não diz apenas que você pode parar, mas que o silêncio é um direito, e, justamente por isso, precisa ser protegido.

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