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Cuidado também é performance

Cuidado também é performance

Carla Di Pierro fala sobre escuta, vulnerabilidade e o que realmente sustenta uma vida de alto rendimento

Por Giulia Amendola

Por trás de cada atleta que sobe ao pódio, existe uma pessoa atravessada por medos, dúvidas, pressões e histórias que raramente aparecem nos holofotes. Carla Di Pierro construiu sua trajetória justamente nesse espaço invisível, onde a performance encontra a vida real. Psicóloga do Comitê Olímpico Brasileiro e cofundadora do CadaUmaÉUma, ela acompanha atletas em seus momentos mais extremos e, ao mesmo tempo, escuta mulheres todos os dias em consultório, em busca de mais autonomia, equilíbrio e saúde emocional.

Nesta entrevista, Carla fala sobre o poder transformador da escuta, sobre a humanidade que existe por trás dos grandes resultados e sobre os silêncios que precisavam ser quebrados quando decidiu criar um projeto dedicado à saúde mental e ao cuidado com as mulheres. Um convite para olhar o alto rendimento não como um lugar de dureza, mas como um território onde vulnerabilidade, ciência e afeto caminham juntos.

1. Ao longo da sua trajetória como psicóloga do COB e à frente do CadaUmaÉUma, em que momento você percebeu, de forma mais forte, que seu trabalho ultrapassava o esporte e tocava diretamente a vida das pessoas?

Ao longo da minha trajetória como psicóloga do COB e à frente do CadaUmaÉUma, percebi de forma muito clara que meu trabalho ultrapassa o esporte nos momentos em que recebo retornos genuínos dos atletas. Um “muito obrigado”, um “você me ajudou muito”, ou ouvir que fiz parte de um processo importante na vida de alguém têm um peso imenso.

Isso aparece com muita força quando os próprios atletas reconhecem o impacto do trabalho, mas também quando os pais relatam o quanto minha presença foi significativa ao longo do desenvolvimento e do treinamento de seus filhos. Esses feedbacks espontâneos, carinhosos e não solicitados mostram que o cuidado com a performance, quando bem feito, alcança dimensões humanas profundas.

É nesses encontros que percebo sentido e propósito no que faço. Não há reconhecimento mais valioso do que saber que o trabalho contribuiu para o crescimento do atleta como pessoa, para relações mais saudáveis e para trajetórias que vão muito além do resultado esportivo.

2. Você acompanha atletas em momentos de extrema pressão, dor e superação. O que essas histórias te ensinaram sobre vulnerabilidade, força emocional e humanidade?

Acompanhar atletas campeões mundiais, olímpicos e medalhistas em momentos de extrema pressão, dor, superação, vitórias e derrotas me ensinou, acima de tudo, que por trás de qualquer campeão existe uma pessoa. Uma pessoa que sente, sofre, tem dúvidas e vive conflitos, como qualquer outro ser humano.

Essas histórias mostram que o alto rendimento é resultado de uma conjunção complexa de fatores — muito treino, talento, dedicação, confiança e trabalho em equipe —, mas que a vida não é feita apenas de ápices. Ela é construída no cotidiano, no trabalho duro e, sobretudo, nas relações humanas.

Os atletas que chegaram ao seu auge conseguiram alinhar variáveis técnicas, físicas e emocionais, mas também contaram com relações saudáveis e sustentadoras e muita capacidade de enfrentamento: parcerias positivas com treinadores e comissões técnicas, apoio familiar e ambientes que favoreciam o desenvolvimento. No fim, a força emocional não está na ausência de fragilidade, mas na capacidade de atravessá-la.

É isso que essas trajetórias ensinam: por trás de um grande campeão ou de uma grande campeã existe uma história marcada por vulnerabilidades, insucessos e humanidade — e é justamente essa combinação que torna a performance possível e sustentável

3. O CadaUmaÉUma nasce de um olhar muito potente para as mulheres. Que silêncios você mais percebeu que precisavam ser quebrados?

Mais do que silêncios, o que percebíamos era um excesso de barulho em torno do que a mulher deveria fazer: o que comer, o que tomar, qual método usar, qual medicação seguir. Havia — e ainda há — uma sobrecarga de informações prescritivas, muitas vezes desconectadas da singularidade de cada mulher.

Foi a partir dessa inquietação que eu e a doutora Tathiana Parmigiano, sócias e fundadoras do CadaUmaÉUma, decidimos construir um espaço de comunicação e cuidado diferente. Nosso objetivo sempre foi atuar como influenciadoras do bem, unindo formação científica, prática clínica e vivência esportiva para falar de saúde mental e saúde da mulher com responsabilidade e consistência.

Atendemos mulheres diariamente em consultório, o que nos permite reconhecer, na prática, os efeitos desse excesso de instruções, cobranças e padrões. O CadaUmaÉUma nasce justamente do desejo de reduzir esse ruído, oferecendo informação baseada em ciência, mas também sensível à experiência real das mulheres, respeitando suas histórias, contextos e escolhas. Menos imposições, mais escuta; menos receitas prontas, mais autonomia.

4. Cuidar da saúde mental de outras pessoas exige uma escuta profunda. O que te sustenta emocionalmente nos dias mais difíceis?

Cuidar da saúde mental exige, de fato, uma escuta profunda — atenta, cuidadosa e sustentada pela ciência. É um trabalho que envolve acolher o sofrimento, ajudar a organizar experiências internas e direcionar caminhos possíveis, o que demanda presença, entrega e um investimento emocional significativo. Existem, sim, dias mais difíceis.

Curiosamente, nos momentos em que estou emocionalmente mais frágil, é o próprio trabalho que me sustenta. É na relação clínica, no encontro com o paciente, que reencontro energia, vitalidade e sentido. A escuta, longe de me esgotar, frequentemente me fortalece.

O trabalho, para mim, é fonte de propósito. Ele me organiza, me dá função e me conecta com valores que considero essenciais. É um espaço de troca genuína, que exige muito, mas que também devolve significado e força para seguir cuidando — dos outros e de mim mesma.

5. Quando você olha para trás e para tudo que construiu até aqui, que transformação pessoal o seu próprio trabalho já te proporcionou?

Quando olho para trás e para tudo o que construí, percebo que meu trabalho me proporcionou uma transformação pessoal profunda. Atuar com atletas olímpicos exige um nível muito alto de dedicação, entrega e busca constante por excelência. Esse caminho trouxe inúmeras gratificações, aprendizados e realizações.

Ao mesmo tempo, o próprio trabalho me ensinou algo essencial: ele é apenas uma parte da minha vida, não a totalidade dela. Por mais significativo que seja, ele precisa coexistir com outras dimensões igualmente — ou até mais — importantes, como o cuidado comigo mesma e com as pessoas que amo.

Hoje, talvez a maior transformação seja justamente essa compreensão do equilíbrio. Aprender a criar espaços de descompressão, respeitar limites e investir no autocuidado não é apenas uma escolha pessoal, mas uma condição para sustentar o cuidado com o outro. É isso que vivencio na prática e que também ensino: cuidar de si é fundamental para entregar performance de forma saudável e consistente.

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