Lígia, Manuela e Mike. Estes são os personagens de hoje. Eles são fundadores do Jugaad Club, uma plataforma de jogos educativos que está em desenvolvimento e une duas potências: educação e futebol. Para eles, é a concretização de um propósito: criar uma solução de impacto real, com escala e sustentabilidade financeira, que ajude crianças do mundo todo a desenvolver as ferramentas de que precisam para construir seus próprios caminhos.
Tudo começou com um encontro improvável: afinal, Mike é americano, Manu é argentina e Lígia é brasileira. As duas se conheceram durante o MBA em Barcelona e descobriram afinidades pessoais, trajetórias que quase se cruzaram (ambas vinham do Itaú BBA, em países diferentes) e o desejo comum de empreender com propósito. Após o MBA, seguiram para Londres, onde começaram a esboçar o que viria a ser o Jugaad Club, em meio a rotinas de trabalho integral e longas sessões nos fins de semana. Foi lá, numa dessas surpresas do acaso, que conheceram Jen Groff, uma das maiores referências em game-based learning, inclusive em universidades como MIT e UW-Wisconsin, pioneiras nessa abordagem que vai além de simplesmente “gamificar” a educação. Jen, que se tornou a primeira conselheira de peso, apresentou-as ao Mike – um designer com ampla experiência nessa área, que trazia justamente o background técnico que faltava e compartilhava da mesma visão. Começaram a colaborar informalmente e a relação evoluiu de forma natural até se tornar uma sociedade, oficializada no ano passado.
Os três conversaram com a Voz Futura sobre empreendedorismo, processo criativo e os desafios (e aprendizados) de uma equipe multicultural.
Dentro dos mercados corporativos de onde vieram, quais eram suas principais angústias?
Propósito e impacto (ou melhor, a falta de). O mundo corporativo não é todo ruim – foi lá que ganhamos experiência para estruturar negócios, aprendemos a entregar resultados em ambientes exigentes e criamos laços que levamos pra vida toda. Mas, no mercado financeiro ou jurídico, não é rara a sensação de estar longe de gerar impacto concreto ou de resolver problemas que realmente importam pra gente.
O caminho do Mike foi diferente, mas movido por uma inquietação parecida. Mesmo depois de criar dezenas de jogos educativos, havia frustração por não vê-los chegar a mais pessoas. Faltava uma ponte entre a excelência acadêmica e a aplicação em larga escala – e o Jugaad Club surgiu como a chance de finalmente colocar sua expertise a serviço de uma solução com alcance global.
Falem um pouco sobre o Jugaad Club?
O Jugaad Club nasceu de um desafio cada vez mais presente: o tempo que as crianças passam diante das telas, uma média de 4 horas por dia. O que víamos em relatórios, passou a ganhar vida nas conversas com amigos e familiares de diferentes países: pais cansados de discutir sobre limites, preocupados com o que os filhos estão consumindo e frustrados com conteúdos repetitivos, vazios e até nocivos. Por outro lado, as experiências educativas que os pais desejam para os filhos raramente empolgam as crianças. Foi aí que enxergamos a oportunidade de transformar esse tempo de tela em algo com valor para todo mundo.
O Jugaad Club é uma plataforma de aprendizagem baseada em jogos para crianças de 6 a 13 anos, com foco no seu bem-estar e desenvolvimento. Queremos apoiar a construção e o fortalecimento de habilidades como empatia, autoconfiança e resiliência por meio de coisas que elas já gostam: esporte, histórias e brincadeira.
Nosso primeiro título é uma aventura em formato de RPG sobre futebol. O jogador assume o papel de uma criança sonhando em se tornar um craque internacional e, ao longo da jornada, enfrenta dilemas, pressões, frustrações – tudo inspirado nos desafios da vida real, dentro e fora do campo.
A tela faz parte da infância de hoje; nosso papel é mudar o que acontece dentro dela – e incentivar as crianças a viverem também o que existe fora dela.
Como foi o processo de criação do Jugaad Club enquanto negócio?
A fagulha veio da Manu, que queria unir suas duas grandes paixões: educação e esporte. A Lígia trouxe um olhar apurado para o desenvolvimento socioemocional — que foi crucial na sua na trajetória. O Mike chegou com uma bagagem rara em game-based learning e foi essencial para dar forma ao produto. Conseguimos unir profundidade técnica a um produto com apelo comercial e modelo escalável. Nosso objetivo é liderar, no game-based learning, a mesma virada que biotech e healthtech viveram — quando a ciência encontrou caminhos para sair do laboratório e ganhar o mundo.
Estruturamos um modelo de assinatura direto aos pais, sem anúncios e sem compras no app. Para nós, importa a qualidade da experiência e sua consistência – e não o tempo de uso. Queremos que as crianças joguem com propósito e saiam se sentindo melhor do que quando entraram.
E para ampliar o acesso, criamos o Common Ground: um programa que viabiliza o patrocínio de assinaturas, por meio de parcerias com ONGs, empresas e indivíduos. Temos muito orgulho de lançar essa iniciativa com a Futuro Redondo — parceiros que, como nós, acreditam no poder do esporte e da educação emocional.
Por que ter o socioemocional como um pano de fundo tão importante?
Porque é justamente a parte que quase sempre ficou no banco de reservas — e que agora precisa entrar em campo desde o primeiro minuto.
Percebemos que o socioemocional reunia três forças poderosas: relevância, urgência e oportunidade.
Apesar do reconhecimento crescente, habilidades como pensamento crítico, resiliência e autorregulação ainda são vistas como “plus” ou “soft skills”, e permanecem acessíveis apenas a uma parcela pequena da sociedade.
Ao mesmo tempo, os espaços onde essas competências floresciam de forma espontânea — nas brincadeiras na rua, conversas fora de hora, desafios de convivência — estão cada vez mais raros. Num mundo hiperconectado, sobra pouco tempo para experiências que não cabem numa tela.
Muito do que queremos cultivar já está presente no esporte. Chegar longe não depende só de talento ou técnica — exige persistência, disciplina, empatia, trabalho em equipe. Por isso, falamos em desenvolver uma mentalidade de atleta.
E contar com atletas profissionais como o Danilo, que se importam de verdade e são exemplo dentro e fora de campo, faz muita diferença. Eles ajudam a dar vida a esses valores.
Quais são os principais desafios de criar um jogo como este?
Equilibrar bem os dois lados da experiência: o jogo precisa ser divertido o bastante para ser a escolha espontânea de uma criança e ao mesmo tempo carregar um aprendizado sólido.
Nosso approach vai muito além de criar um jogo educativo com uma camada de diversão por cima ou inserir uma camada pedagógica sobre um gameplay genérico – é preciso integrar tudo de forma orgânica, fundamentada e com propósito.
Isso exige escolhas difíceis, repertório técnico multidisciplinar e disposição para explorar territórios ainda pouco mapeados. Investimos tempo em narrativa, design e testes com crianças para construir experiências com desafios calibrados, que evoluem com o jogador (como no modelo de scaffolding), geram conexão emocional e levam a aprendizados aplicáveis na vida real.
E estamos fazendo tudo isso como uma startup, com recursos limitados, e num cenário em que os investimentos tendem a seguir o assunto do momento — como IA. Mas seguimos firmes. Acreditamos no valor do que estamos construindo e estamos aqui pra jogar o jogo até o fim (com trocadilho e tudo!)
Como é ter uma equipe multicultural como a de vocês?
É um superpoder – e um aprendizado constante. Estamos sempre testando novas formas de nos comunicar, entender e ajustar. Somos de lugares e contextos diferentes, com estilos distintos de pensar e trabalhar. Para funcionar de verdade, é preciso escuta ativa, generosidade nas interpretações, flexibilidade e um esforço consciente para se fazer entender. Às vezes, todo mundo jura que está na mesma página… e não está!
Além das diferenças culturais, cada um traz habilidades complementares, que também são parte da força do time. A Manu traz foco, estrutura e o equilíbrio de quem aprendeu com o esporte a executar com agilidade e tranquilidade. O Mike soma profundidade técnica, experiência operacional e uma criatividade que parece não ter fim. E a Ligia conecta tudo com estratégia e sensibilidade, costurando ideias, pessoas e oportunidades.
Seguimos aprendendo na prática a perguntar mais do que supor, a revisar o tom, a checar se o que foi dito é o que foi entendido. Atuamos com mais atenção, intenção e empatia. Esse exercício acaba moldando como criamos, as histórias que contamos, as decisões que tomamos – e isso ajuda a criar um espaço que, desde o início, é pensado para representar diferentes perspectivas.
Estamos criando um clube feito para acolher o mundo… e essa convivência começa aqui, com a gente.

