Por Pedro Pirim Rodrigues, cofundador da Voz Futura
Comecei a escrever essa coluna com uma intenção simples. Provocar uma mudança na forma como observamos os nossos relacionamentos e os das outras pessoas. Mas, para além disso, também inverter essa lógica de que estamos sempre vivendo na falta, na motivação pela dor, e nos protegendo do próximo inimigo invisível.
Se for parar pra ver (ou talvez seja o meu algoritmo), o que mais tem por aí, são páginas e pessoas (que também são páginas) dizendo sobre os tipos de pessoas, relacionamentos e traços que devemos identificar como “red flags” para não nos afundarmos em um relacionamento tóxico ou abusivo, com pessoas narcisistas, manipuladoras, gaslighters, cloakers, passivo-agressivas, controladoras, covert narcisist, vampiro emocional, evitativas, love bombers, cínicas, obsessivas, neuróticas, e por aí vai…
Mas, e se a gente, ao invés de ficar procurando “red flags”, buscássemos traços, pessoas e relacionamentos que apontam em uma direção saudável. Calma, não é pra fingir que o outro lado da moeda não existe, mas é para colocarmos uma lente que busca o melhor que existe no ser humano, dar o devido reconhecimento, acolher e se sentir bem por ter isso na sua vida.
E daí, que pesquisando sobre o assunto, inicialmente sobre relacionamentos abusivos e características negativas de relações, fui me aprofundando do contrário das Red Flags, e que seriam chamadas de “Green Flags”. Muito menos interessado nos termos que compõem essa bandeira, estão as características e valores que formam caráter e constroem boas relações. Essas relações não são apenas relações românticas, mas também funcionam entre amigos, familiares, contexto social, comunidades, trabalho e o que mais houver de possibilidade de interação humana.
Na minha experiência própria, o bom relacionamento é um lugar seguro emocionalmente para se estar. Onde existe espaço para errar – favor não confundir o erro com sacanear a outra pessoa, e achar que pedir desculpas vai simplesmente resolver tudo. Um relacionamento não deveria ser uma competição, ou um lugar que pareça existir um tribunal, placar, nem contabilidade emocional. Um erro pode virar conversa antes de virar medo, e principalmente ser ressignificado em aprendizado e ajuste de rota – não munição futura daquele tipo “Ah, mas uma vez você fez (ou falou) tal e tal coisa”.
Relações saudáveis não são aquelas em que ninguém se machuca, mas aquelas em que o machucado tem espaço e respiro pra cicatrizar com cuidado e sem retaliação. Onde pedir desculpa não diminui ninguém e onde escutar não é sinônimo de perda – não é uma competição.
É saber e se fazer presente para o outro se sentir a vontade para se expandir, se esticar e se espreguiçar do seu lado sem sentir que está invadindo o seu espaço – por mais que você adore seu tempo sozinho. É quando você não precisa se editar, se explicar o tempo todo ou se justificar por existir ou porque pensou de uma determinada forma. Relações saudáveis pedem interesse genuíno, curiosidade, cuidado e vontade de estar. Lembro de uma vez ouvir de uma amiga e seu relacionamento: “Uma vez eu disse pro Bruno (nome fictício) que, como a gente ia se ver muito rápido, talvez fosse melhor ele não vir para nos vermos no dia seguinte com calma. Pro que ele me respondeu: “mas eu prefiro estar 20 minutos com você hoje, mesmo que sejam “só 20 minutos” e depois mais 8 horas do que não estar com você agora.” Foi uma validação para os dois sobre a vontade de se ver e estarem juntos independentemente do tempo. (eu achei bonito isso)
As relações boas trazem paz e não medo. Não vivem de altos e baixos constantes, nem da intensidade e instabilidade como vício emocional – até porque tem gente que diz que “navega bem no caos”, mas deve ter alguma coisa errada se você está navegando no caos o tempo todo ou se isso te da prazer. As relações legais que conheço são feitas de constância, afeto cotidiano, humor compartilhado, silêncio confortável e apoio nos dias comuns. Ouvi isso também de um amigo. Ele sempre foi conhecido entre o nosso grupo como “último romântico”. O cara que largava e fazia tudo pela sua “musa inspiradora”.
Hoje ele é casado, tem uma filha e eu perguntei pra ele o que tinha de diferente na sua esposa das outras mulheres por quem ele já tinha se apaixonado no passado e foi sobre essa constância que ele me falou. Não foi um amor arrebatador, cheio de firula e altas expectativas. Foi simples, fácil, suave, calmo e uma relação que foi se construindo com consistência. Eu achei lindo isso.
No fim, amar bem e estar em uma boa relação talvez seja menos sobre evitar pessoas ruins e mais sobre reconhecer, cultivar e proteger aquilo que é simples, humano e saudável. Porque o amor, quando é bom, não confunde, acalma, sustenta e faz crescer.
O título dos 05 sinais de que você está em um bom relacionamento foi só uma brincadeira para fazer você chegar até aqui. No fim, não tem fórmula nem receita de bolo. Cada pessoa, enquanto indivíduo ou em um relacionamento é um infinito de possibilidades. O que cabe para cultivar boas relações são boas conversas, alinhamento de expectativas e muita segurança emocional: “pode entrar. Aqui é o seu lugar”


