Mariana Bezerra, diretora de produção da Voz Futura e mestra em Cultura e Comunicação
Nos últimos meses tenho me feito uma pergunta: Quando foi que a gente desaprendeu a se sentir desconfortável?
A modernidade e a tecnologia nos trouxeram algo nos últimos séculos: a sensação que temos controle de tudo, não é mesmo?
Pensa comigo…
Hoje, se temos fome, vamos ao mercado.
Se sentimos dor, tomamos um remédio comprado na farmácia.
Se queremos viajar, pesquisamos e compramos uma passagem na internet.
Tudo parece previsível, organizado e controlado, não é mesmo? Mas, cá entre nós… isso também trouxe uma outra coisa para as nossas vidas:o medo do desconforto gerado pela imprevisibilidade.
Vamos admitir?
Hoje, o erro, o risco e o incerto, que sempre foram parte natural da existência humana, passaram a gerar quase pânico na sociedade moderna.
A gente quer saber o final de tudo antes mesmo de começar. Quer garantias antes mesmo de tentar.Quer conforto o tempo todo.
Só que é exatamente aí que a gente se engana. Porque é no desconforto que a vida realmente acontece.
É quando algo nos tira do lugar conhecido que o corpo reage, que o cérebro cria novas conexões, que a gente cresce. Neurologicamente, emocionalmente, fisicamente é o desconforto que nos empurra para o novo.
O ser humano não foi feito para a estagnação. Lá atrás, na era das cavernas, viver era, por definição, desconfortável. Explorar, caçar, arriscar, não saber o que vinha depois da próxima moita ou mata fechada era viver! E foi exatamente isso que a espécie humana evoluir.
Sei que é difícil admitir, mas lá no fundo a gente sabe disso, né?
Hoje, a gente faz o contrário.
Foge do incerto. Evita o difícil. Paralisa diante do imprevisível.
E, sem perceber, vai se afastando de tudo aquilo que poderia transformar a nossa própria vida.
Talvez o problema nem seja o medo, como já falamos nos textos anteriores, o medo é necessário.
Mas talvez o problema seja a forma como a gente se relaciona com ele.
E se, em vez de fugir, a gente começasse a escolher o desconforto?
Se a gente fizesse um pacto silencioso, mas poderoso, de se expor mais, de tentar mais, de aceitar o erro como parte do caminho, do processo e encarassemos os novos desafios como parte da nossa evolução?
Quantas ideias nasceriam?
Quantas histórias seriam vividas?
Quantas versões nossas ainda desconhecidas apareceriam?
O desconforto não é nosso inimigo.
Ele é o nosso caminho.
E talvez esteja na hora de parar de evitá-lo para começar a escolhê-lo.
Vamos nessa?


