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Da competição para a cooperação: como podemos fazer um mundo melhor?

Da competição para a cooperação: como podemos fazer um mundo melhor?

Por Pedro Pirim Rodrigues

A gente aprendeu a competir antes mesmo de entender qual era o jogo. A gente bate par ou ímpar pra ver quem vai começar antes de saber quais são as regras e o que devemos fazer. Na escola, na faculdade, no trabalho, nos relacionamentos. Sempre existe um “melhor”, um “pior”, um ranking de quem está na frente e quem ficou para trás medido por números. Quanto maior melhor. Fomos aceitando isso como uma regra natural da vida. Mas talvez não seja.

Tem uma frase atribuída a Sócrates que diz: “Uma vida não examinada não vale a pena ser vivida.” E eu fico pensando o quanto da nossa vida, de fato, a gente examina e o quanto a gente apenas reage. Corre, produz, consome, opina, se compara. Sem parar para entender o que está por trás disso tudo e o porquê fazemos o que fazemos. A gente se questiona muito pouco – só faz… Na insegurança, no medo de não ser suficiente, na necessidade de pertencimento a gente vai aceitando o que é imposto até que a gente se torna impostor. E se não se torna, vive se sentindo.. E aí a gente entra num jogo que nunca acaba.
Venho sentindo como se a gente estivesse vivendo uma espécie de “deflação emocional”. Muita informação, pouca elaboração. Muita opinião, pouca escuta. Muito estímulo, pouca presença. A gente não sente menos. A gente sente pior. Ou talvez a gente já nem saiba mais exatamente o que está sentindo. A gente só trabalha mais, mas não necessariamente trabalha melhor – em nós mesmos inclusive.

É curioso porque nunca tivemos tanto acesso a conhecimento. São infinitas abas abertas, conteúdos, análises, diagnósticos, caminhos. E, ainda assim, seguimos confusos. Como se, em vez de esclarecer, o excesso só está confundindo. Retirar informação, hoje, talvez seja mais difícil, e mais necessário, do que adquirir. E nesse cenário, a gente começa a terceirizar algo que sempre foi lindamente humano:a capacidade de lidar com o que não tem resposta.

A inteligência artificial surge como promessa de eficiência, de acerto, de solução. Mas e quando não existe solução? E quando o problema é da ordem do sentir?Você pode pedir uma resposta para uma máquina. Mas não pode delegar o processo de se escutar. Terapia não é sobre encontrar respostas prontas. É sobre sustentar perguntas difíceis por tempo suficiente até que algo, de dentro, comece a fazer sentido. E talvez seja exatamente isso que estamos desaprendendo.
A psicanálise, de certa forma, nos lembra de algo básico: para existir de forma saudável, o sujeito precisa de protagonismo. Precisa se implicar na própria história. Precisa sair do lugar de objeto, daquilo que é levado, influenciado, moldado, para ocupar o lugar de quem também constrói. Mas como fazer isso em um mundo que o tempo todo nos empurra para fora? Algoritmos que decidem o que você gosta. Tendências que dizem como você deve viver. Modelos que indicam quem você deveria ser. No limite, a gente vai deixando de ser protagonista da própria vida para performar versões aceitáveis de si mesmo.

E talvez seja aí que a competição se intensifica. Porque quando eu não sei quem eu sou, eu preciso me medir pelo outro. Quem ganha mais. Quem aparece mais. Quem acerta mais. Quem sofre mais. Quem é mais isso ou mais aquilo. A comparação é a métrica que mede a sela na qual a gente se colocou sozinho. E a cooperação desaparece.
Mas ela não desaparece porque não funciona. Ela desaparece porque exige algo que a competição não exige: vulnerabilidade. Cooperar é admitir que eu não dou conta sozinho. Que o outro não é uma ameaça, mas uma possibilidade. Que a vida não precisa ser um jogo. Só que isso é difícil. Porque fomos treinados para acertar, não para nos relacionar com o erro. Fomos treinados para performar, não para escutar. Fomos treinados para responder rápido, não para sustentar o silêncio.

Talvez, vislumbrar um mundo melhor, comece em algo mais simples e que hoje pode ser considerado até radical ao mesmo tempo. Parar. Examinar. Escutar. Diminuir o ruído. Sair, aos poucos, desse lugar automático de comparação constante e tentar olhar para o outro sem precisar se medir por ele. Trocar o “eu estou certo x você está errado” por uma curiosidade genuína de entender o que existe ali – “Be curious. Not judgmental” – Walt Whitman. Seja curioso. Não julgue
Criar espaços onde não precisamos competir o tempo inteiro para existir. Espaços onde o erro não seja punição, mas parte do processo. Espaços onde a gente possa falar, e ser ouvido sem precisar performar o tempo todo. A cooperação começa aí. Não como um grande discurso coletivo, mas como uma escolha diária. De se implicar. De se examinar. De reconhecer que, antes de competir com o outro, a gente talvez esteja fugindo de si mesmo. E que, no fim das contas, fazer um mundo melhor pode ter menos a ver com vencer… e mais a ver com, finalmente, conseguir se encontrar, e se encontrar com o outro, no outro, no meio do caminho – um equilibrio.

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