Por Katia Rubio, professora e pesquisadora da Faculdade de Educação da USP e especialista em psicologia do esporte
Desde muito pequena fui treinada a ser autônoma. Comecei a “brincar” de cozinhar com 5 anos, ajudava nos afazeres de casa e tinha responsabilidades. As refeições eram verdadeiros rituais, feitos à mesa, onde se falava da escola, do dia, dos campeonatos, dos planos para o futuro. O doce da sobremesa vinha das frutas compradas semanalmente na feira, outro ritual doméstico.
Comer banana era fácil. Fruta que nasceu para ser despida, não precisava de nenhuma ferramenta para chegar à popa. Já as laranjas… elas guardavam o mistério de serem reveladas. Observar os adultos habilidosos descascarem as laranjas era momento de fascínio. Além de se esmerarem para não produzirem “machucados” (rompimento da película branca que protegia o gomo inteiro) havia um prazer incontido em retirar toda a casca de forma espiralada de um único corte, de ponta a ponta.
Motivo de celebração, a casca inteira era guardada como troféu. Colocado como desafio prioritário das minhas atividades culinárias, retirar a casca inteira da laranja exigia técnica, paciência e uma dose de coragem: a faca precisava ser muito afiada! Foi daí que surgiu uma tradição que aliava consentimento dos mais velhos e uma certa dose de ousadia de uma criança pequena. O primeiro corte!
Romper a casca da laranja dava a tonalidade do sucesso daquela empreitada. Cunhou-se então a expressão pronunciada ao longo de anos em nossa mesa: “Papai, começa o começo, por favor?”. Sim, era papai e não pai. Ou mamãe, nunca mãe. E retribuindo com o olhar de quem sabe deter o poder de não apenas dar o primeiro corte, mas incentivar o processo até o final, era rompida a casca da laranja em seu extremo norte, cuja tira final teria o gosto de uma conquista épica, desde que a película branca não fosse rompida e a tira fosse até o extremo sul, sem interrupções.
Rememorar o ato de descascar a laranja traz também a doce lembrança da frase “Por favor, começa o começo”.
V0 na física, sair a inércia é um dos maiores desafios da existência. Colocar-se em movimento, superar o imobilismo, agir. A vida nos pede isso todo o tempo. E, diante das demandas buscamos a força necessária para iniciar os processos.
Nem sempre temos ao nosso lado a companhia de alguém que nos ofereça a ferramenta mais apropriada ou que nos ensine o gesto preciso para executar a tarefa sem que haja algum acidente no percurso. A cumplicidade implicada no ato de ensinar é um dos maiores presentes da docência.
Mesmo com frio na barriga, uma dose de vertigem, o coração pulsando na garganta é preciso começar, senão, também nunca saberemos como é que a história irá terminar! Se com a laranja machucada ou casca rompida, não importa, é preciso chegar.
E como escreveu Guimarães Rosa “a vida pede coragem”.

