Por Julia Carvalho
Perto do meu aniversário eu sempre fico reflexiva sobre a vida, meus sonhos, o que eu fiz no último ano, e eu tenho pensado muito sobre tudo o que eu já fiz e onde eu já cheguei por trabalhar com esporte.
Hoje eu sou sortuda de viver momentos incríveis nos bastidores do esporte, mas umas das memórias que sempre voltam das minhas lembranças é de um domingo a tarde que eu e minha irmã fomos ao Maracanã com nosso pai assistir a um jogo do Flamengo. Para ser sincera, eu não lembro qual era o jogo, eu devia ter uns oito anos e minha irmã uns seis. Não estávamos com blusa do time, porque não estava programado para irmos, mas quando percebemos que meu pai e meu tio estavam saindo da casa da minha avó para o estádio, óbvio que pedimos para ir. Na época a gratuidade era só falar a idade na catraca e foi assim que meu pai disse “vocês querem ir? Então vamos!” E minha mãe com os olhos arregalados “tá, vocês podem ir.” E fomos! E eu sou muito feliz de ter essa foto como lembrança desse dia.
A gente sabe que o esporte é um mundo muito masculino e eu parei para pensar se minhas amigas que também trabalham no mundo esportivo tem memórias especiais assim e eu recebi respostas muito lindas. Compartilho essas lembranças para mostrar que pertencemos a esse meio da mesma forma que qualquer homem. Nos identificamos com o esporte e crescemos amando um time por conta de um amor irracional passado por nossos familiares. Esse espaço também é nosso!
- Tatiana Abreu – brasileira:
“A primeira foto é de Brasil x Japão, no Parque dos Príncipes, nas Olimpíadas de Paris 2024. Neste dia a Marta completou 200 jogos com a seleção brasileira feminina. Na época, eu estava fazendo uma cobertura independente pro Mídia Ninja, então comprei um ingresso pra assistir ao jogo, e eu tava ali pertinho do campo. Conseguir estar presente nesse momento, ver a Marta a 500 metros de mim, uma figura de mulher que é uma referência por tudo que representa, pela pessoa que é dentro e fora dos campos, foi incrível.
A minha cobertura independente me possibilitou conhecer mulheres incríveis e verdadeiras inspirações que fortaleceram a minha caminhada. Foram mais de 30 pautas em um mês, mas estar em um dos principais estádios da França, durante os Jogos Olímpicos, vendo a maior jogadora de futebol feminino de todos os tempos na minha frente, foi algo muito especial, que eu nunca vou esquecer na minha vida.”
A Tati tem tantas memórias boas que ela não conseguiu escolher só uma, ela falou para eu escolher, mas não achei justo. Por isso aqui está a segunda lembrança dela:
“Essa última foto é dos Jogos Pan-americanos Júnior 2025, que aconteceu em Assunção, no Paraguai. Foi minha primeira missão Olímpica pelo Comitê Olímpico do Brasil e foi a realização de um sonho: viver o esporte ao lado do Time Brasil.
E nessa ocasião, conhecer e conviver com a base do Time Brasil foi muito especial, me lembrou de cada escolha feita até ali. Foi o meu primeiro gostinho de Jogos Olímpicos, de estar com outras nacionalidades e representar o Brasil.
Nessa foto, eu estou em um bote porque uma das modalidades que eu cobri foi a vela, e eu tinha que ficar num barco, cobrindo, tirando foto, gravando vídeo, enfim, acompanhando regatas, e foi um desafio muito grande. Eu nunca imaginei que o jornalismo iria me levar pra esse lugar. Foram dias e dias acompanhando treinos e competições do bote, e nesse dia aí estava muito frio, estava chovendo, mas ainda assim foi incrível, da mesma forma, sabe? E foi muito importante para mim viver esse momento e me realizar profissionalmente dessa forma.
- Valerie Drašnarová – tcheca:
“Definitivamente minha melhor memória com o esporte é o Grande Premio de Monza de 2021. Eu nunca me interessei muito por esportes, mas eu me apaixonei por Fórmula 1, Daniel Ricciardo e Monza. Do nada eu decidi procurar por ingressos para a corrida em Monza e levar a minha irmã mais nova comigo. E o resto é história, a corrida foi incrível e terminou como terminou… Daniel Ricciardo P1.
Como eu nunca, nunca mesmo tinha vivido esse tipo de euforia, nervosismo, mais tremendo e felicidade mesmo. Eu fiquei revivendo aquele fim de semana por meses, meses e meses.
Foi naquela corrida que eu decidi que eu queria trabalhar com esportes.
- Sheridan Lambrook – americana:
“A final da copa do mundo feminina de 2015, foi a primeira vez na minha vida que eu vi o time feminino dos Estados Unidos ser campeão da Copa. Eu lembro de assistir ao jogo com o meu time de futebol, eu tinha 13 anos na época e eu lembro de comemorar com todo mundo.”
- Paula Ferro – brasileira:
“Eu diria que meu melhor momento no esporte foi um período, na verdade, que foi a Libertadores de 2024. Toda a campanha do Botafogo, porque eu trabalho na Globo e eu integrava a equipe que fazia as lives do GE.
Naquele ano a gente teve um projeto comercializado com a Coca-Cola para fazer lives de pré e pós-jogo da Libertadores e acabou aliando um momento muito legal profissionalmente, porque era uma área que eu ainda estava me consolidando e que eu recebi novas responsabilidades e pude participar tanto da roteirização, da coordenação em suíte, que exige muito da gente, né? Com um lado um pouco torcedor, né?
Foi especial por estar fazendo tudo isso, acompanhando o meu time em um título inédito que eu, quando comecei a torcer, quando me entendi como uma jornalista esportiva, que eu queria fazer isso, eu sinceramente não imaginava.
Então foi muito especial, porque a cada jogo era uma experiência maneira, uma oportunidade de me estabelecer mais, de treinar, de praticar, de conseguir me posicionar melhor num ambiente que ainda é muito masculino e que é meio caótico e é meio difícil você colocar ali a sua voz sempre tentando respeitar os outros, sem apelar pra grosseria, pro grito, que muitas vezes acontece nesse ambiente. E conseguir fazer um bom trabalho, gostar do que você coloca na tela.
E aí, enquanto a gente viu os jogos, eram jogos do meu time, passando de fase, com altos e baixos, alguns percalços, mas até chegar à final. Acho que esse seria o meu destaque.”
- Karina Simões – brasileira:
“Eu tenho a sorte de acumular muitas memórias no esporte. Na infância, minha memória favorita no esporte, no meu caso, esportes a motor, eram os domingos de F1 ou MotoGP em casa, as torcidas unânimes e comemorações nas vitórias de Ayrton Senna, era ir ao autódromo independente da categoria que estava competindo para sentir aquela atmosfera que para mim era mágica. Acompanhar o esporte tinha um papel de reforçar conexões familiares que me fez descobrir com o que eu queria trabalhar.
Depois, já adulta, trabalhando como jornalista automotiva, a primeira credencial de mídia em um grande evento esportivo foi marcante. F1 foi a primeira, aí veio Dakar, Sertões, Le Mans, TT Isle of Man, 24h de Daytona, MotoGP… grandes eventos que tive a honra de cobrir. Todos com memórias únicas e sempre um frio na barriga.
Hoje, trabalhando com marcas desse ecossistema, tenho a chance de acompanhar de perto pilotos que se tornaram grandes amigos, e também ser piloto no maior campeonato nacional dos Estados Unidos que é o MotoAmerica. Participo de um programa de motociclismo feminino da Royal Enfield que se chama Build Train Race, no qual temos como coach o tricampeão mundial Freddie Spencer. Algo muito além das expectativas daquela garotinha que ia às corridas com o pai. Ou seja, sigo aprendendo com o esporte, com a resiliência dos pilotos e acumulando grandes memórias que lembrarei para sempre com carinho.”


