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A missão de registrar a vida de um atleta

A missão de registrar a vida de um atleta

Os desafios de trabalhar com comunicação & atletas.

Por Julia Carvalho, para a Voz Futura.

Desde que eu comecei a me interessar por criação de conteúdo no esporte,  isso meio que virou meu hiperfoco. Com isso, uma das minhas maiores fixações é seguir as pessoas que trabalham nessa área nas redes sociais e foi assim que  eu encontrei o perfil do Douglas Nascimento, simplesmente o responsável por documentar a vida de Vinicius Júnior desde 2019.  

Douglas é cria de Caxias, como eu, jornalista de formação que acabou migrando para o vídeo e criação de conteúdo nas redes sociais. Bom, claro que eu me identifiquei com a carreira dele e virei fã desde o começo.  

Ele é mais que um criador de conteúdo para o jogador do Real Madrid, ele é responsável por filmar e fotografar a vida pessoal e profissional de Vini. Tudo começou com o objetivo de transformar o cria de São Gonçalo em um nome conhecido mundialmente e, com o passar dos anos, se transformou em registrar as memórias do atleta, que talvez um dia fosse usado em um projeto maior. E já foi, a série da Netflix sobre a trajetória de Vini, lançada em maio de 2025, tem muito material captado por Douglas.  

Eu tive a chance de conversar com Douglas ano passado e afirmo: É bom  demais conversar com profissionais que você admira e ter a oportunidade de  aprender com eles.  

De jornalista a criador de conteúdo.  

“Meio que a vida foi naturalmente me levando assim para tudo que envolvia a  imagem ”, é assim que Douglas define o começo da carreira.  

Tudo começou com a paixão por fotografia, ainda como estudante de  jornalismo da Universidade Federal Fluminense (UFF), no Rio de Janeiro, ele  comprou sua primeira câmera profissional e sabia que queria ser fotojornalista,  mergulhou de cabeça em projetos que envolviam fotografia, vídeo e edição. E,  como dizem, o resto é história.  

Aquele foi o ponto de partida para ele se tornar o que hoje é conhecido como  filmmaker. Logo em seguida, ele conseguiu um estágio em um canal de  esportes e nunca mais largou a câmera ou saiu do mundo esportivo.  

Com o passar dos anos, ele trabalhava como produtor e em um momento  começou a questionar o formato de fazer jornalismo e a relação entre  jornalismo, entretenimento e empresa. Esse momento foi um divisor de águas  para o que seria a primeira mudança de carreira do jornalista.  

“Eu costumava pensar que estava fazendo histórias que eram propaganda. Por  exemplo, durante as Olimpíadas do Rio eu queria mostrar histórias sobre a 

gentrificação da comunidade e como os jogos estavam impactando a vida das  pessoas mais pobres, mas essas histórias nunca eram aprovadas”, conta  Douglas.  

Em uma conversa um de seus antigos chefes explicou que para a empresa esse  tipo de evento é um produto e o maior foco é fazer com que as pessoas  queiram assistir. Esse ponto de vista marcou Douglas.  

“E esse foi um daqueles dias que você percebe que faz jornalismo até um certo ponto”.  

Por querer juntar a paixão por contar histórias e o desejo de se aprofundar nos  assuntos, Douglas se tornou documentarista. Ainda no formato jornalístico da  televisão, ele era como uma “câmera invisível” apenas seguindo os  personagens e deixando a realidade se desenrolar.  

O ano era 2019 e Vinicius Júnior tinha acabado de chegar no Real Madrid como  uma das transações mais caras do futebol para um jogador de 19 anos. Nos  bastidores, os agentes do jogador queriam criar um espaço para transformar a  jovem joia do Flamengo em um jogador conhecido mundialmente de uma forma  que os fãs se aproximassem dele.  

E esse foi outro grande desafio na carreira de Douglas, nesse momento ele  precisava aprender uma nova forma de registrar e construir essa história: “Foi  estressante, porque eu levei anos para aprender a linguagem da TV, e em um  momento eu fui direto da TV para o Youtube, para trabalhar com o Vini, para  começar o canal no Youtube dele”. 

“Eles me pediam para picotar os vídeos, sabe? Meu começo no Youtube foi  sobre aprender a fazer cortes “desnecessários”, que era minha visão contínua.  Mas era isso, era eu me adaptar a me comunicar de uma outra forma e isso  mexe muito com o seu trabalho, porque mexe em como você vai filmar, como a  sua câmera vai se comportar. Aqui no meu caso, que eu era o escada do vídeo,  eu precisava falar com o Vini, eu precisava provocar ele”. 

O canal do YouTube foi um grande sucesso, alcançando mais de um milhão de  inscritos em 6 meses. Douglas se tornou parte da equipe pessoal do jogador e  também começou a criar conteúdo para o Instagram do Vini.  

“E aí um ano depois, quando a equipe do Vini me contratou, que eu parei de  fazer YouTube e passei a trabalhar diretamente com o Vini, aí já é um outro  momento que é quando eu entro mais no Instagram e, mais uma vez, é uma  outra mudança de linguagem, porque é tudo muito rápido e são coisas que  precisam ter 40 segundos a um minuto, um minuto já é muito né. Mas é isso,  quando eu começo a fazer vídeos que já são na vertical e tem que ter uma  pegada de beleza, estética e que não tem tanto um discurso”. 

“Eu tenho vícios que ainda vêm mesmo da TV, aliás eu tenho vícios que ainda  vem do YouTube […] As minhas transições sempre são um pouco dolorosas”,  resume o jornalista.  

De criador de conteúdo a criador de memórias 

Há mais de seis anos Douglas acompanha a trajetória do Vini Jr jogador e do  Vini pessoa. A série da Netflix usou grande parte do acervo de Douglas do  cotidiano do jogador. O jornalista conta que desde o começo a recomendação  da equipe do jogador era “vai filmando tudo”.  

“Então, eu filmava as paradas na casa, assim, desde quando eu cheguei. Hoje,  olhando pra trás, eu me arrependo de não ter filmado mais as coisas, sabe? Em  muitos momentos que eu estava filmando pensando para a rede social e esse  material não serviu para o documentário”.  

O documentário exigiu mais flexibilidade e mudança na forma como Douglas  usa sua câmera para registrar os momentos. Parte da série foi gravada com a  Conspiração Filmes e Douglas lembra uma conversa importante que teve com  um dos editores do documentário.  

“E aí eu meio que tive que fazer o caminho inverso, que era eu tava só gravando  para a rede social, e aí quando eu comecei a gravar o documentário, fui lá na  produtora e sentei com o editor, e aí ele chegou pra mim tipo “Cara, então, tu tá  muito ansioso, tá ligado? você começa a gravar aqui e aí tu vai pro outro lado,  não sei o que” e aí eu “Mano, mas é porque eu tô gravando dessa forma” mas  aí ele “Não, tipo, relaxa, respira, a câmera precisa respirar” 

“E aí eu voltei pra casa tipo: “Mano, eu fazia isso antigamente e eu não estou  mais fazendo e aí eu tive que me reciclar, começar a filmar numa lógica de  documental”. 

E para fechar eu não poderia deixar de perguntar a Douglas como ele se sente  em relação à sua carreira.  

“Acho que hoje eu me desloquei um pouco da carreira, tipo assim, jornalismo  em si. Mas a minha carreira também sempre foi no jornalismo esportivo. Então  é como se eu tivesse saído da imprensa e indo para o outro lado, mas para  fazer parte da equipe de um dos atletas, querendo ou não, também era o meu  objeto de trabalho”, explica ele.  

“Quando surgiu a oportunidade, eu tratei como um desafio e que eu fui meio  que me apaixonando assim pelo caminho. Às vezes eu tenho dificuldade de  enxergar, tipo, aonde isso vai dar, no sentido de carreira. Mas acredito muito  que seja uma parada que a gente está fazendo, com o Vini, que, em algum  lugar, também vira um modelo para outros atletas”, finaliza Douglas.

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