Por Giulia Amendola
No goalball, confiar não é apenas uma virtude — é um sistema. Para Dani Longhini, atleta da seleção e do Sesi, a confiança dentro de quadra funciona como um código bem escrito: cada peça tem uma função clara e qualquer falha impacta o todo. Com formação em Ciência da Computação e estudos em Direito e Tecnologia, Dani leva para o esporte uma leitura precisa sobre estratégia, responsabilidade compartilhada e eficiência coletiva.
Nesta conversa, ela reflete sobre vitórias e derrotas sem romantização, fala sobre força emocional em um esporte de altíssima intensidade e aborda, com pragmatismo, a instabilidade financeira da vida esportiva. Dani também compartilha como construiu um “plano B” sólido fora das quadras e o futuro que sonha para o goalball no Brasil: mais profissionalismo, inteligência tática e menos rótulos. Uma entrevista sobre autonomia, preparo e potência — física e mental.
- O goalball é um esporte profundamente coletivo. O que você aprendeu sobre confiar nos outros?
Aprendi que confiança, em alto nível, é sincronia e sistema. Minha formação em Ciência da Computação me faz ver o time de forma lógica: cada peça tem uma função vital e, se uma falha, o sistema todo sente. No Sesi, a confiança me dá a liberdade para ser agressiva no ataque, porque sei que minha retaguarda está sólida e preparada para cobrir qualquer brecha. Aprendi a delegar responsabilidade na quadra para poder focar 100% na minha função. A confiança é o que transforma talentos individuais em uma equipe eficiente.
- O que mais te marcou nos momentos de vitória e de derrota?
A vitória me marca pela validação da estratégia; é como ver um código complexo rodar perfeitamente após muito trabalho. O que fica não é só a festa, é a prova de que o planejamento foi superior. Já a derrota, encaro com uma mentalidade analítica: ela me obriga a identificar friamente onde houve o erro, sem drama, apenas foco na correção. A derrota é o dado que eu preciso para recalcular a rota, ajustar o arremesso e voltar com uma versão atualizada e mais difícil de ser batida.
- Como você constrói força emocional em um esporte tão intenso?
Eu busco o equilíbrio alternando entre o físico e o intelectual. Minha força vem da capacidade de transitar entre a adrenalina da quadra e a lógica dos meus estudos em Direito e Tecnologia. Quando não estou treinando, estou estudando ou desenvolvendo meus projetos pessoais. Ter essa diversidade de interesses me protege; ela me lembra que sou capaz de resolver problemas complexos fora do esporte. Isso tira o peso de ter que ser perfeita apenas como atleta e mantém minha mente sã e ativa.
- A vida no esporte é muito instável, não só nos resultados e nas oportunidades, mas também financeiramente. Como você lida com esses desafios?
Com pragmatismo, muito estudo e diversificação. Encaro minha carreira com visão de longo prazo. O esporte é meu foco hoje, mas minha segurança vem da minha bagagem em Ciência da Computação e dos meus estudos jurídicos. A instabilidade se combate com preparo: eu não espero a crise chegar; eu construo meu “plano B” me capacitando intelectualmente em áreas sólidas. Saber que tenho competência para atuar em outras profissões me dá a tranquilidade necessária para arriscar mais dentro de quadra.
- O que o esporte mudou na sua relação com você mesma?
O esporte, somado à minha formação acadêmica, me deu uma autonomia absoluta. O goalball me ensinou a usar meu corpo como uma ferramenta de precisão, enquanto a computação me ensinou a pensar de forma estruturada para resolver problemas. Isso quebrou qualquer estigma de fragilidade. A disciplina de atleta de elite eu levo para os estudos e para a vida. Hoje sei que sou uma pessoa completa: tenho a potência física para o jogo e o raciocínio lógico para a vida profissional.
- Que futuro você sonha para o goalball no Brasil?
Sonho com uma evolução na mentalidade técnica e na gestão de pessoas. Quero que as comissões técnicas parem de olhar apenas para o biotipo, idade ou altura, e valorizem quem tem inteligência tática e vontade de evoluir. Não adianta tentar encaixar peças iguais em um quadrado; um time campeão é um quebra-cabeça de peças diferentes que se completam. Sonho com um ambiente onde se entenda que não precisamos ser “melhores amigas” fora da quadra, mas precisamos estar unidas pelo mesmo objetivo dentro dela. Profissionalismo e competência acima de tudo.


